Por Daniel Rocha

Era fim de década, e o Brasil aprendia novamente a respirar democracia. Em Teixeira de Freitas, ainda jovem como município, as ruas de terra batida e as novas avenidas asfaltadas conviviam com um sentimento comum: tudo parecia possível. 

Entre a política que se reorganizava, a chegada de igrejas e o vai e vem das rádios locais, uma voz começava a ganhar espaço, a de Adilson Gigante.

Nos anos 1980 e início dos 90, quando a cidade também experimentava suas próprias eleições e consolidava sua identidade, Adilson Gigante surgia como um desses personagens que não cabem só na música.

Era cantor evangélico, compositor e, de certa forma, cronista do seu tempo. Suas canções não apenas ecoavam nos templos, mas atravessavam as antenas das rádios e alcançavam casas, comércios e corações.

Não foi um sucesso por acaso. Quem escuta hoje percebe que havia algo mais ali: suas músicas captavam o espírito de uma cidade em transformação. 

Adilson Gigante havia retornado de São Paulo para o  extremo sul da Bahia, justamente quando a região deixava de ser um território tido como  isolado para se integrar ao restante do país – com estradas como a BR-101, novos templos e uma expansão visível do movimento evangélico.

Suas letras caminhavam por esse cenário. Falavam de fé, mas também de conflitos familiares, escolhas difíceis,  mudanças sociais e, até mesmo sobre o que acontecia no mundo, como “A queda do muro de Berlim”, trazendo o cenário da Guerra Fria como informativo aos fiéis, que não tinham acesso às informações. 

Contudo, regionalmente, um dos exemplos mais marcantes foi “Maria da Penha” (1980), uma narrativa que misturava tragédia e redenção. 

A história da jovem, filha de um famoso radialista da cidade, que rompe com a família para seguir a fé e encontra um destino trágico na estrada não era apenas uma música, era um espelho das tensões de uma sociedade que mudava seus valores.

Mas talvez tenha sido em “Crianças Pobres”, lançada em 1985, que Adilson Gigante tocou mais fundo. A canção rompeu uma barreira até então rígida: saiu dos programas religiosos e invadiu a programação geral das rádios. Era pedida, repetida, comentada. 

Em uma conversa reservada concedida pouco antes de seu falecimento, em 2018, o cantor recordaria com certo espanto o alcance que aquela canção havia conquistado, como quem ainda tentasse entender o próprio sucesso.

“Naquela época, música evangélica quase só tocava em programa religioso, sabe? Mas ‘Crianças Pobres’ furou isso… o pessoal começou a pedir direto e ela acabou tocando na programação normal das rádios, não só em Teixeira de Freitas, mas em várias cidades. Nem eu imaginava que ia chegar tão longe assim,” contou.

O tema não era leve. Falava das crianças abandonadas, uma realidade visível nas ruas antes mesmo da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990. Era a fé dialogando com a questão social, algo que ajudava a explicar por que sua música encontrava eco para além do público evangélico.

E Adilson Gigante não parou ali. Em 1992, por exemplo, quando o mundo discutia meio ambiente durante a ECO-92, ele lançou “O Planeta Cinzento”. A letra era um alerta, quase um lamento, sobre a destruição da natureza. 

Em uma época em que o tema ainda engatinhava no debate popular, ele já cantava sobre rios poluídos, matas devastadas e um futuro incerto.

No fim das contas, revisitar a trajetória de Adilson Gigante, conhecer suas composições, é como abrir uma janela para aquele período. Suas músicas contam histórias – algumas trágicas, outras sociais, todas atravessadas pela fé – e ajudam a entender como uma cidade recém-emancipada construía  também seus sentidos, fé  e identidade. 

Não por acaso, Adilson Gigante, que nasceu em Itarantim-BA, recebeu o título de cidadão teixeirense, era apaixonado por está cidade, onde firmou suas raízes.

Fonte:

GIGANTE, Adilson. A trajetória de um levita: autobiografia. 1. ed. 2008.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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