Por Daniel Rocha
Quando se fala da antiga “Pauzoeira”, as lembranças costumam destacar o comércio, os feirantes, os compradores e os personagens que davam vida àquele espaço.
Mas, segundo relatos de antigos moradores, trabalhadores e frequentadores, havia também uma face menos conhecida: a presença de homens associados à pistolagem.
Durante o dia, a “Pauzoeira” era movimento. Bancas, mercadorias, conversas e compradores ocupavam o espaço. À noite, porém, o cenário mudava.
Muitos feirantes não podiam levar tudo para casa. Mercadorias, equipamentos e outros pertences precisavam permanecer no local.
Segundo memórias de antigos frequentadores, alguns chegavam a dormir na própria feira para proteger seus bens. Outros, ainda de acordo com esses relatos, recorriam a homens que ofereciam algum tipo de segurança informal.
Eram os chamados pistoleiros. Nas lembranças recolhidas, alguns também seriam procurados para cobranças de dívidas, ameaças e resolução de conflitos — atividades que poderiam ser tratadas simplesmente como “serviços”.
Essa presença precisa ser compreendida dentro de um contexto maior. Nas décadas de 1970 e 1980, diferentes áreas do sul e extremo sul da Bahia foram marcadas por conflitos envolvendo terras, disputas políticas, interesses econômicos e ocupação territorial.

Nesse cenário, a figura do pistoleiro ganhou notoriedade. Reportagens e estudos sobre a pistolagem descrevem redes que poderiam envolver mandantes, intermediários, coiteiros, ponteiros e os próprios executores.
A dimensão desse fenômeno chegou à imprensa nacional. Em 12 de outubro de 1981, a revista Veja publicou a reportagem “Zona perigosa. Aumenta a violência no sul do Estado”, retratando o cenário de violência na região e mencionando a atuação de centenas de pistoleiros no extremo sul da Bahia, quase sempre com a permissividade das autoridades.
Mas há um aspecto curioso nessas memórias. Para quem observava de fora, o pistoleiro estava associado aos conflitos, aos crimes e à violência. Para quem vivia naquela região, porém, esses homens também podiam aparecer como personagens do cotidiano.
Conversavam, comiam, bebiam, faziam amizades e frequentavam os mesmos espaços da comunidade.Segundo a lembrança de um antigo morador, não era incomum encontrar alguns deles à noite na feira, assando carne, tomando cachaça e conversando.
É justamente essa aparente normalidade que torna essas memórias tão inquietantes. A violência também podia fazer parte do cotidiano, dividindo espaço com a comida, a bebida, as conversas e a convivência social.
A história da “Pauzoeira” também passa por essas lembranças incômodas, revelando uma cidade ainda em formação e marcada pelos conflitos e pela violência de seu tempo.
(Continua na próxima postagem.)
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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