Por Daniel Rocha

Você sabia que a luta das mulheres em Teixeira de Freitas, BA, na década de 1960, para encontrar uma alternativa de renda e conquistar espaço no mercado de trabalho urbano pode ter sido uma verdadeira batalha contra a cultura machista da época? A foto em destaque no texto revela apenas uma pequena parte dessa história, deixando muito por ser contado. Então, por que essa imagem não apresenta uma visão completa desse período fascinante? Vamos descobrir juntos.

Ministrado pela moradora “Gilca de Deusdet” no barracão improvisado na Praça dos Leões, onde também eram realizadas as missas da futura Igreja  de São Pedro, o  curso de Corte e Costura do Instituto Visconde de Mauá  ,de 1969, foi um dos primeiros realizados no então povoado de Teixeira de Freitas que ofertou  a possibilidade dessas mulheres ter a própria renda e uma formação técnica profissional.

Naquela época,  algumas garotas, oriundas do campo ou não, buscavam formas de trabalhar e contribuir para a renda familiar, porque  ,também, seus maridos ganhavam salários insuficientes para suprir as necessidades domésticas, mesmo encarando os riscos de sofrer censura familiar  por buscar se inserir na vida pública não tradicional.

Porém as opções locais de emprego eram limitadas principalmente para aquelas que não possuíam formação ou habilidades específicas para o núcleo urbano que se desenvolvia  como parte de um projeto de região pensado para favorecer o agronegócio exportador  e o surgimento de uma sociedade pautada na lógica da renda e do consumo onde que tinha poder de compra  era vista como sujeitos de valor e quem não tinha, não.

Por isso também, o curso de corte e costura se tornou uma alternativa atraente para essas mulheres, pois lhes  favoreceu a oportunidade de aprender uma habilidade valiosa que poderia ser utilizada para criar e consertar roupas em casa ou até mesmo iniciar um negócio próprio. 

É importante lembrar novamente que na época em que o curso foi ofertado, algumas mulheres enfrentaram muitos desafios, como a imposição dos maridos e dos namorados, reações relacionadas às circunstâncias individuais de cada família já que  a questão do trabalho feminino era motivo de discussão com outros temas que envolviam as mulheres, como o da virgindade e cuidado com os filhos, destaca a historiadora Del Priore.

Uma das alunas deste curso, Jesuíta da Conceição, por exemplo, teve que deixar as aulas a pedido do noivo, conforme  relatou em 2010 para historiadora Susana Ferreira no trabalho: “A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960.”

Ainda conforme, o pai de Desuíta  já tinha comprado para ela uma máquina de costura, mas com o casamento  foi obrigada a seguir o pensamento do marido.

Já  uma outra, Marily Gomes, disse que concluiu de forma satisfatória o curso, mas  depois de casada não encontrou incentivo no lar para exercer a profissão, revelou em um relato em 2010 ao monográfico,  Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas. .

Sobre a foto, convém destacar que, embora a fotografia seja um registro importante do momento,  ela não necessariamente representa uma visão completa ou precisa do todo da realidade das alunas e da sociedade, pois, a fotografia não revelavam todos os aspectos dos diversos conflitos pela igualdade de gênero travados no período e outros fatores como o preconceito racial e social que boa parte teve que também enfrentar em uma época que a sociedade teixeirense se transformava.

No entanto, a memória visual do curso de Corte e Costura em Teixeira de Freitas é uma fonte de inspiração que demonstra a resiliência e a força das mulheres da região, que se mostraram empreendedoras e solidárias que buscaram superar as adversidades por uma vida mais próspera e independente.

Referências e Bibliografia

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed. – São Paulo: Contexto, 2005.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986.

FERREIRA, Susana Teodoro. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. UNEB, Campus X, Teixeira de Freitas- BA, 2010.

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA. Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB – Campus X, Teixeira de Freitas-BA.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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