Por Erivan Santana*

A manhã estava fria e nevava naquele inverno em Viena. Nietzsche entrou na carruagem e pediu ao cocheiro que o levasse ao consultório do Dr. Freud, que, de tão conhecido, nem precisava dar o endereço. Ao chegar, o filósofo pagou a corrida e recomendou ao cocheiro que viesse buscá-lo às 11h.

Freud estava sentado junto à janela, admirando a bela paisagem, quando Nietzsche entrou. Há muito Freud esperava esta visita, e recebeu o ilustre visitante com muita alegria e entusiasmo, pedindo que se sentasse no amplo sofá que mantinha em seu consultório.

A conversa fluía com muita cortesia e amenidades, mas o notável psicanalista estava curioso e interessado em saber mais da teoria da “vontade de potência”, preceito caro ao filósofo, e da qual não se falava de outra coisa na alta sociedade austríaca.

Nietzsche demonstrava naturalidade e, em bom alemão, explicou ao amigo se tratar, na verdade, de um diálogo com o renascimento de Da Vinci, a ideia do homem antenado com a ciência, com o conhecimento, fundador de uma civilização desenvolvida, sendo protagonista do seu destino.

O homem deveria, na sua visão, ser fiel aos princípios da própria Filosofia, isto é, deveria ser crítico de qualquer norma, moral ou costumes impostos por quem quer que seja, em qualquer tempo ou lugar.

Freud estava maravilhado e, como sempre fazia quando se sentia bem, tratou de pegar um dos seus charutos. O filósofo preferiu um café, que o anfitrião prontamente providenciou, chamando a sua secretaria.

Enquanto fumava o charuto, pôs-se a pensar de que forma as ideias de Nietzsche poderiam ser aproveitadas nos seus estudos sobre a psicanálise. À medida que seu interlocutor falava, mais crescia a sua admiração por ele. Toda a sua fisionomia, a testa em destaque, os olhos vivos e intensos, acompanhado do seu famoso bigode, os seus argutos e ricos argumentos, denotavam coragem e davam a impressão de lucidez, brilhantismo e inteligência.

Naquela manhã, Viena foi palco de um encontro histórico, que a velha Europa foi capaz de produzir para a posteridade. O resto… o tempo leva.

Erivan Santana*

Professor, escritor e poeta

O conto “Dias de Nietzsche em Viena”, foi selecionado para o prêmio Off Flip 2022

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