Por Daniel Rocha

Em um mundo onde tudo convida ao acúmulo , de experiências, de objetos, de conquistas e certezas , é fácil se perder no conforto do que é conhecido. A familiaridade se torna uma prisão. Cada hábito repetido, cada posse guardada com zelo excessivo, vai cimentando em nós uma identidade que se julga sólida, mas que, na verdade, teme o abismo da mudança.

Acomodar-se no que é seguro pode parecer sabedoria, mas muitas vezes é apenas medo disfarçado. Um medo de se desfazer das muletas que sustentam o ego, medo de encarar a liberdade angustiante de ser algo novo a cada dia. O existencialismo nos ensina: não somos definidos por aquilo que acumulamos, mas pelas escolhas que fazemos diante do absurdo da existência. A vida exige coragem para desapegar-se, para permitir que o desconhecido nos transforme.

Da mesma forma, há quem se perca em sua própria vigilância , na ânsia de controlar tudo, de apontar cada falha, de perseguir uma perfeição que nunca se realiza. Mas o olhar obsessivo que busca falhas fora muitas vezes é o reflexo de uma recusa em enxergar os próprios limites. Há uma diferença abissal entre ser atento e ser escravo da minúcia. A lógica e a sagacidade devem nos libertar, não nos acorrentar a um perfeccionismo adoecido.

É preciso voltar-se para dentro, encarar o espelho sem máscaras, sem desculpas. Assumir os próprios defeitos não é sinal de fraqueza, mas de lucidez. É o primeiro passo para a autenticidade, essa forma radical de existir em que o indivíduo se torna responsável por si mesmo, sem subterfúgios.

Desapegar-se, flexibilizar-se, reconhecer-se falho: são atos de coragem diante de uma existência que não oferece garantias. Porque, no fundo, viver é estar sempre se refazendo, sempre se escolhendo de novo, mesmo (e principalmente) quando tudo em nós deseja apenas permanecer.

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