Por Daniel Rocha

Há em nós uma tendência sutil, mas implacável, de nos afastarmos. Fingimos neutralidade. Habitamos a margem das relações como quem teme a correnteza do afeto. Achamos que estamos sendo racionais, mas, no fundo, é só medo — medo de se machucar, de carregar uma dor que nem é nossa, mas que pode nos transformar por dentro.

Só que evitar envolvimento não nos protege do sofrimento. Na verdade, só nos coloca diante de um outro tipo de vazio. O verdadeiro absurdo não é sentir dor por amar, e sim abrir mão do amor por medo de sofrer.

Tem quem chame isso de autoproteção, mas a verdade é que se fechar para o outro é perder uma das experiências mais profundas da vida: o encontro. E todo encontro envolve riscos. O risco de amar sem ser amado, de se entregar e ser ignorado, de se doar e acabar ferido. Mas sem esse risco, a vida perde a graça.

Reconhecer esse egoísmo , essa bolha que criamos pra nos proteger ,  é o primeiro passo pra se libertar. Não é sobre se anular, mas sobre entender que o mundo não gira só ao redor dos nossos medos. É sobre colocar energia nas relações, não por obrigação, mas porque viver sem conexão com o outro é uma forma triste de resistência.

O amor, mesmo quando dá errado, ainda é um ato de coragem. Se permitir sentir sem perder a própria essência é escolher viver de verdade. Como diria o filósofo Albert Camus, se vamos cruzar o deserto, que seja de mãos dadas, mesmo sem garantia de oásis.

Talvez esse seja o nosso verdadeiro desafio: construir pontes onde só havia muros, criar vínculos onde só existia defesa e, apesar de tudo, continuar oferecendo calor num mundo que insiste em ser frio. Porque, no fim das contas, o inverno sempre passa.

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