No dia 20 de dezembro, às 16h30, o Cine Teixeira abre suas portas para um acontecimento raro e precioso: o lançamento de um filme inteiramente produzido na cidade, com atores da região, estética local e, principalmente, com o sotaque que marca a alma de Teixeira de Freitas. É a estreia de Só o Brega Salva, curta-metragem que transforma o cotidiano da cidade em cinema vivo.
Assinado por André Castro — diretor, roteirista e produtor criativo-executivo — o filme nasce de um olhar profundamente conectado ao território. Bacharel em Cinema e Audiovisual, pós-graduado em Literatura, Cultura e Ensino da Arte e mestrando em Letras pela UNEB, André é também coordenador do Cinelab Extremo Sul, um dos projetos mais potentes de formação e arte-educação em audiovisual do interior baiano.

Realizado na própria região, o curta mergulha nos elementos da cultura popular teixeirense. O brega, os personagens, as ruas, a musicalidade e os afetos são a base da narrativa — um retrato sensível de quem somos como cidade e como território cultural. A seguir, você confere trechos da conversa que tivemos com o cineasta via WhatsApp.
01 – Qual foi seu objetivo ao propor a realização deste trabalho?
André Castro: “Falar sobre amor, sonho e pertencimento. Em defesa dos artistas e pessoas dissidentes da região do Extremo Sul da Bahia.”
02 – Só o Brega Salva pode ser interpretado como uma homenagem direta à cultura de Teixeira de Freitas?
André Castro: “Sem dúvidas. Posso dizer que é uma homenagem de amor e ódio, a primeira cena já entrega isso. Shirley, a personagem principal, abre dizendo: ‘Sou uma mulher trans nascida e criada em Teixeira de Freitas e… Eu odeio essa cidade. (Risos) Brincadeira, tá? Eu amo gente, mas assim… Eu sinto que falta oportunidade para a gente aqui, ainda mais a gente que sonha em ser artista, sabe?’”

03 – O filme retrata mais o centro ou a periferia da cidade? Na sua visão, existe um distanciamento entre essas duas representações?
André Castro: “É periferia em sentido amplo, não só do ponto de vista geográfico, da cidade, mas de um todo. Estamos à margem, propondo um cinema mutirão, de território, que aciona sentimentos universais a partir da vida cotidiana e cultura popular. No filme aparecem vários cantos de Teixeira: Fachada da Casas Cazelli em frente à Praça dos Leões, Bar Butekão no bairro São José/Redenção, as internas da casa de forró Dalla’s no centro, trecho do bairro Monte Castelo na Avenida Getúlio Vargas e o momento final no trevo da BR 101.
No roteiro, o casal protagonista mora na zona rural de Teixeira de Freitas, pensei em Cachoeira do Mato, até fiz algumas visitas, mas por questões logísticas acabamos rodando em Belo Cruzeiro, zona rural de Mucuri.”

04 – Você acredita que o brega ainda carrega estigma cultural? Como seu filme dialoga com essa percepção?
André Castro: “Percebo que o Brega está em um processo de transição, já foi muito visto como algo ruim, mas hoje é definitivamente um ícone pop. Brega é exagero e aspira liberdade. De todos os significados que o termo pode ter, o que mais me pega é o sinônimo de ser romântico.
O filme tem uma pegada musical e homenageia à nossa música brega, estrategicamente pensando em valoriza-la enquanto patrimônio cultural da região Extremo Sul da Bahia. O que fazem aqui é diferente do que rola no Pará, ou em Pernambuco.”

05 – Até que ponto o filme busca romper com a invisibilização de determinadas estéticas e corpos na produção audiovisual?
André Castro: “O filme é movido pelo desejo de contar uma história em que o antagonismo está na falta de oportunidades para artistas LGBTQ+ do interior para viverem seus sonhos. Sobretudo propõe a criação de novos imaginários onde uma transsexual pode ser tudo, inclusive uma cantora brega de sucesso.”

Só o Brega Salva chega às telas como um marco para o audiovisual teixeirense — um filme que nasce da terra, fala como sua gente e devolve ao público a força cultural do Extremo Sul com personalidade, coragem e beleza.
Dia 20 de dezembro, às 16h30, no Cine Teixeira. Um encontro entre cidade, arte e identidade que você não pode perder.
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