Por Daniel Rocha
No longínquo março de 1964, o prefeito de Itamaraju, Bonifácio José Dantas, carinhosamente chamado de “Chapéu de Couro”, empreendeu uma importante jornada rumo à cidade do Rio de Janeiro, onde encontrou o então presidente legítimo da República, João Goulart, correligionário de partido, ambos pertencentes ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
Este encontro, aparentemente, selaria o destino político de “Chapéu de Couro”, que após seu retorno, foi destituído do cargo pela Câmara Municipal de Itamaraju. Mas qual foi a relação direta entre essa viagem e a destituição? E que acusações oficiais motivaram esse afastamento inesperado?
De início, eleito em 1962 pelo PTB, o prefeito partiu para a capital carioca com o objetivo de tornar pública a precária situação de Itamaraju. A cidade, então com uma população de 55 mil habitantes, estava mergulhada em desafios: a falta de assistência pública e a exploração dos grandes latifundiários sobre os pequenos agricultores que vinha crescendo no município em um momento em que a região passava por profundas transformações com a abertura da BR-101..
Nesse cenário, trabalhadores rurais atingidos por intempéries climáticas, incêndios nas lavouras devido à seca e os efeitos devastadores de uma enchente que assolava o extremo sul da Bahia, lutavam contra uma realidade caótico e de sofrimento para suas famílias, muitas das quais que se viam obrigadas a migrar para a emergente cidade de Itamaraju.

“Nosso último recurso é apelar para o presidente João Goulart. Sem hospital, sem médicos, epidemias assolam nossa população. A situação piorou consideravelmente após 40 dias seguidos de chuvas. O latifúndio domina Itamaraju. Com seca e enchentes, proprietários foram forçados a vender por preços ínfimos aos especuladores.” – assim denunciou “A Última Hora”, jornal do Rio de Janeiro, em relação à situação desesperadora do município.
Após vinte dias do encontro com o presidente Goulart, Chapéu de Couro regressou à sua cidade, apenas para ser destituído da função de prefeito pela Câmara Municipal. Segundo as historiadoras Esmeralda Lacerda e Iracilda A. Mascarenhas, o motivo oficial da destituição foi a acusação de abandono do cargo por cinco dias sem designar um substituto competente.
Entretanto, uma versão não oficial e amplamente aceita pelo povo local sugere que Chapéu de Couro foi injustamente acusado de comunismo, algo fortemente rejeitado pela elite e pelos latifundiários, que não apoiavam a proposta de reforma agrária de João Goulart, ao qual também chamavam de comunista devido suas propostas de reformas sociais.
Essa época de polarização no país atingiu seu ápice em 31 de março de 1964, quando João Goulart foi deposto por um golpe militar, inaugurando um regime autoritário que se estendeu por 21 anos, o famigerado período de 1964-1985. Notavelmente, a queda de Chapéu de Couro como prefeito e a destituição de Goulart ocorreram quase simultaneamente, apontando para uma conexão entre ambos e as consequentes restrições aos direitos políticos e a perseguição a opositores instaurada pelos militares e seus apoiadores.
É interessante ressaltar que, segundo o historiador Leonardo do Amaral Alves, o golpe de 1964 não se limitou a uma reação contra os projetos de reforma agrária de Goulart, mas também foi uma resposta às demandas dos trabalhadores rurais em busca de mais autonomia, que enfrentavam problemas como inflação e arrocho salarial, preocupações já denunciadas pelo próprio prefeito Chapéu de Couro.
Assim, toda essa efervescência de conflitos e movimentos de classe foi brutalmente interrompida pelo ímpeto violento do golpe, causando sérios impactos nos movimentos pela terra e nas demais expressões de luta social nas áreas urbanas.
Dessa forma, a análise desse contexto histórico, entrelaçando a destituição de Chapéu de Couro e as consequências do golpe de 1964 para as batalhas sociais no Brasil, propicia uma compreensão mais aprofundada da realidade tanto nas cidades quanto no ambiente rural daquela época, especialmente marcada pelo acirramento dos conflitos relacionados à grilagem e à luta pela terra no extremo sul da Bahia, uma situação que atingiu seu auge nas décadas seguintes.
Fontes:
Almeida, Esmeralda Lacerda Santos; Mascarenhas, Iracilda Almeida. Cassação de Bonifácio José Dantas: Uma incógnita. Bahia: Uneb-X, Teixeira de Freitas, 2010.
ALVES, Leonardo do Amaral. Experiências forjadas a ferro e fogo: religiosidade, organicidade e luta pela terra no extremo sul da Bahia no contexto da ditadura civil-militar (1978-1985) UEFS. Feira de Santana, 2017.
Souza, G. (2021). Questão Agrária no governo Jango. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Disponível em:
https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/A_questao_agraria_no_governo_Jango . Acessado Setembro de 2021:
Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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A Queda de Chapéu de Couro: Perguntas e Respostas
- Pergunta: Quem era o prefeito de Itamaraju em 1964 e por que ele ficou conhecido como “Chapéu de Couro”? Resposta: O prefeito era Bonifácio José Dantas, apelidado de “Chapéu de Couro” devido a uma alcunha característica.
- Pergunta: Qual foi o objetivo da viagem de Chapéu de Couro ao Rio de Janeiro? Resposta: O objetivo da viagem era se encontrar com o presidente legítimo, João Goulart, para denunciar a falta de assistência pública na cidade e a exploração dos grandes latifundiários sobre os pequenos agricultores afetados por secas e enchentes.
- Pergunta: Quais problemas específicos enfrentados pelos habitantes de Itamaraju foram mencionados por Chapéu de Couro em sua denúncia? Resposta: Alguns dos problemas mencionados foram incêndios nas lavouras devido à seca, epidemias, ausência de assistência médica, falta de hospital, e a exploração desenfreada dos latifundiários.
- Pergunta: Qual foi o resultado da destituição de Chapéu de Couro de seu cargo de prefeito? Resposta: Chapéu de Couro foi deposto de seu cargo pela Câmara Municipal, sob acusações oficiais de negligência administrativa, mas há versões não oficiais que afirmam que ele foi injustamente acusado de ser comunista.
- Pergunta: Como a destituição de Chapéu de Couro se relaciona com o contexto político da época, incluindo o golpe de 1964? Resposta: A destituição de Chapéu de Couro ocorreu no mesmo período em que o presidente João Goulart foi deposto pelo golpe militar de 1964. Isso sugere uma conexão entre a destituição do prefeito e o movimento do golpe, com os interesses da elite e latifundiários que não apoiavam a proposta de reforma agrária de Goulart.
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