Por Lizete Caires e Daniel Rocha*

A humanidade sempre se preocupou com a beleza física. Essa preocupação variou de intensidade conforme a época e o lugar. No ocidente, herdamos essa busca constante pela beleza dos gregos. Segundo Souza, Lopes e Souza (2018) “Homero, em Ilíada, ainda nos séculos VIII a VII a.C., narra “a irresistível beleza de Helena”, eximindo-a da culpa de causar guerra entre povos rivais”. (p.02).

Ainda nesse sentido, segundo Cruz (2008) “Desde que o mundo é mundo, mulheres bonitas são escolhidas como símbolos de virtude, sorte, amor. Mas a ideia de ganhar dinheiro com isso surgiu no fim do século 19, quando jornais de Paris, empolgados com a popularização da fotografia, publicaram fotos de mulheres para eleger a mais bela francesa. Fez barulho, vendeu jornal, chamou anunciante. E olhe que era só foto de rosto. Imagine se fosse de corpo inteiro e quase sem roupa…(…) E, em 1952, criou em Long Beach, Califórnia, um concurso de mulheres desfilando de maiô. A Universal Studios investiu na proposta e o evento ganhou o nome de Miss Universe “. (p.02).

No Brasil, como sofremos a influência direta da cultura ocidental, também demonstramos um fascínio pela beleza e tivemos grandes concursos que elegeram miss que ficaram famosas como: Vera Fischer (Miss Brasil 1969), Luise Altenhofen (Miss Rio Grande do Sul 1998), Grazielli Massafera (Miss Paraná 2004). Nessa pegada, diversas cidades do Brasil também organizam eventos para elegerem suas modelos, destacando assim a beleza ali existente, como a história que acompanhamos na sequência.

A cidade de Itamaraju, Bahia, localizada no Extremo Sul do Estado, protagonizou um acontecimento pra lá de intrigante. O ocorrido se passou na noite do dia 30 de julho de 1987, no badalado Tênis Clube da cidade. Nesse local estava sendo realizada uma preliminar do concurso de Miss Bahia.

Durante o movimentado evento, todo dinheiro arrecadado nas bilheterias foi roubado em um dos camarins do clube, contudo esse não foi o assunto mais comentado na cidade naquela noite. Conforme repercutiu nos jornais da época, durante a festa, a notícia do roubo causou grande espanto e repercussões. 

Dado a forma como ocorreu o desenrolar do evento, muitos deduziram que o ladrão era alguém que ainda estava dentro do clube e da festa. No local, a passeio, estava um delegado da cidade de Itambé, BA, e que também era amigo dos organizadores do evento, o mesmo, tomando ciência do ocorrido, decidiu por conta e risco abrir uma investigação sobre o caso, mesmo estando fora de sua jurisdição e já estando embriagado.

Como primeira providência do inquérito, sem aval, o delegado reuniu e manteve todas as candidatas nos camarins existentes no local e passou a interrogá-las sobre o sumiço do dinheiro arrecadado nas bilheterias.

Contudo, um jornal da época, Jornal do Brasil,  destacou que a situação ficou ainda mais tensa quando o investigador (delegado) sem jurisdição para atuar naquela comarca, começou extrapolar as regras do bom ofício e passou a “tocar”/”apalpar” as participantes  de forma despudorada, com ousadia.

A situação ficou tensa quando o delegado, depois de apalpar uma das candidatas de 19 anos, que era uma das mais belas do concurso, obrigou a mesma a tirar a roupa (se despir) e, ainda ameaçando-a de queimá-la com um cigarro, o delegado exigia “queria” que ela tirasse até mesmo o sutiã. Quando percebeu que o clima tinha ficado desfavorável e tenso, o delegado fugiu, deixando indignada boa parte da população de Itamaraju”,  detalhou o periódico.

Ainda conforme o jornal, a delegacia da cidade tornou-se pequena para abrigar o grande número de pessoas que acompanharam a Miss que foi prestar uma queixa e pedir providência contra a intromissão do delegado de Itambé que agia fora de sua jurisdição e de forma suspeita.

Que, depois de tomar o depoimento da miss e de outras pessoas presentes, o delegado assistente da cidade, Deraldo Damasceno, indiciou o delegado de Itambé nos artigos 138 e 146 do Código Penal, por crimes de calúnia e constrangimento. Dias depois, diante da repercussão nacional que alcançou o fato, o governador do Estado, Waldir Pires, exonerou o delegado do cargo, devido a sua ação irregular no evento de escolha da Miss. 

Por fim, diante da narrativa do fato, é possível pensar que nos concursos realizados neste período no extremo sul da Bahia, para além da magia relativa à realização do evento, outros comportamentos e atitudes eram suscitados, como, o sexismo, o assédio, a violência sexual e a cultura do estrupo.

Comportamentos e atitudes cada dia menos tolerados socialmente, como é possível notar na mobilização e disposição dos participantes em realizar a denúncia contra o Delegado que atentou contra a honra, virtude, honestidade e a beleza da mulher Miss que reagiu ao intento.

Referências:

SOUZA, José Carlos; LOPES, Luiz Henrique Bernardinelli; SOUZA, Vítor Cruz Rosa Pires de. A Dimensão do Belo no Tempo. Revista Psicologia e Saúde versão On-line ISSN 2177-093X Rev. Psicol. Saúde vol.10 no.3 Campo Grande set./dez. 2018 http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v10i3.637. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-093X2018000300008. Acesso em: 21-10-2021.

CRUZ, Renata. O mundo secreto dos concursos de beleza. Revista Super Interessante. Publicado em 30 jun 2008, 22h00. Atualizado em 31 out 2016, 18h53. Disponível em: https://super.abril.com.br/cultura/o-mundo-secreto-dos-concursos-de-beleza/ acessado em: 21-10-2021.

Waldir Pires exonera delegado que bebeu e tirou a roupa de Miss. Jornal do Brasil.  Julho de 1987.

Imagem : Itamaraju 1999.

Lizete Caires*

Graduada em História pela Universidade do Estado da Bahia -Uneb. Bacharelada em Serviço Social pela Universidade Pitagoras Unopar. Pós graduada em Gestão e Organização da Escola pela Universidade do Norte do Paraná-Unopar. Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Norte do Paraná-Unopar. Professora da Rede Municipal de Ensino de Teixeira de Freitas e Medeiros Neto Bahia.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Texto: pesquisa realizada por Daniel Rocha e Lizete Caires.

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