Por Daniel Rocha

Antes de Teixeira de Freitas ser cidade, já havia quem ensinasse a ler, escrever e fazer contas por aqui. Entre essas pessoas estava Maria Bernarda Batista, conhecida por muitos como professora “Nádia”, lembrada pela comunidade como uma das primeiras professoras da história do município.

Segundo informações divulgadas na comunidade do Facebook Museu Virtual de Teixeira de Freitas, pela professora de História Josy Aguiar e pelo administrador Charles Leita, Maria Bernarda Batista faleceu no dia 17 de setembro, no estado de São Paulo.

Sua história, porém, permanece ligada às primeiras páginas da educação local, bem antes da emancipação de Teixeira de Freitas. Naquele período, entre as décadas de 1960 e 1970, a localidade ainda era um povoado, subordinado administrativamente aos municípios de Caravelas e Alcobaça.

Por essa razão, em 1984, a publicação Revista Banco do Nordeste — Teixeira de Freitas: Origens, edição especial dedicada à emancipação do município, registrou a trajetória de Maria Antonia e a identificou como uma das baluartes da educação local.

imagem gerada por IA

Naquela época, ela ainda lecionava da primeira à terceira série do antigo Primeiro Grau. Mas sua trajetória ia muito além disso: havia começado a ensinar no ensino primário antes mesmo de concluir a própria formação escolar.

Segundo a reportagem da revista, depois de vários anos em sala de aula, ela decidiu voltar a estudar. Em Medeiros Neto, concluiu, em apenas um ano, o curso equivalente ao Primeiro Grau. Depois, em Teixeira de Freitas, fez o Curso Normal, concluído em 1983.

Era uma época em que a escola funcionava com muito pouco. Ainda de acordo com o relato publicado na revista, não havia carteiras. Os alunos levavam bancos de casa. Mais tarde, quando chegaram as primeiras carteiras, eram simples bancos de madeira, onde quatro ou cinco crianças se acomodavam.

E a disciplina? Era outra história. Maria Antonia contou que, com a orientação e o apoio dos pais, utilizava palmatória, régua e varinha. Também havia o conhecido castigo de ficar de joelhos.

Hoje, esses métodos provocam estranhamento. Mas fazem parte da memória de uma época em que a educação era construída com poucos recursos e dentro de costumes muito diferentes dos atuais.

Anos depois, em entrevista concedida à TV Sul Bahia, em 1996, a professora recordou aquele período com bom humor. Disse que, desde criança, sentia que seria professora. Para ela, era uma espécie de vocação. Também se lembrava das dificuldades.

A escola quase não tinha cadeiras. Os recursos eram escassos. Os alunos se acomodavam em pequenos bancos. E, apesar dos castigos que faziam parte daquela educação, ela dizia guardar saudades dos alunos.

Porque, por trás da disciplina rígida, havia também carinho. E talvez seja justamente essa lembrança que ajude a entender a importância de Maria Bernarda na história de Teixeira de Freitas.

Ela não foi apenas alguém que passou por uma sala de aula. Ela ajudou a construir uma das primeiras experiências de ensino de uma comunidade que ainda estava começando a nascer.

Maria Bernarda Batista em 1996. TV Sul Bahia

Antes das grandes escolas. Antes das redes municipais estruturadas. Antes das salas com computadores, ar-condicionado e tantos outros recursos. Havia uma professora. Havia crianças. Havia bancos de madeira. E havia a vontade de ensinar.

As lembranças de Maria Bernarda, a professora Nádia, se misturam agora às próprias lembranças de uma Teixeira de Freitas que já não existe. Uma cidade que começou pequena. Uma educação que nasceu quase improvisada e que também foi construída pela força de uma mulher negra, em um tempo em que as oportunidades para mulheres como ela eram ainda mais restritas. Ao lado de outros professores, ela ajudou a preparar as primeiras gerações que dariam rosto à futura cidade.

É também assim que se escreve a história de um lugar: não apenas pelas grandes transformações, mas pelas pequenas histórias de quem esteve lá, enfrentou as dificuldades e ajudou a construir, muitas vezes sem reconhecimento, aquilo que viria depois.

Fontes:

BANCO DO NORDESTE. As origens: Teixeira de Freitas. Fortaleza, CE: Banco do Nordeste, jan. 1985.

TV SUL BAHIA. Documentário histórico sobre Teixeira de Freitas. Teixeira de Freitas, BA, 1996. Documentário televisivo.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook
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