Movimento separatista de 1988: O posicionamento de Teixeira de Freitas e Itamaraju

Por Daniel Rocha

Em 1988 foi à vez da cidade de Itamaraju se tornar por alguns dias, simbolicamente, a capital do Estado da Bahia. Tal como fez o antecessor Antônio Carlos Magalhães (PFL) na década de 1970 elevando Teixeira de Freitas a essa posição, o governador Waldir Pires (PMDB), acompanhado de todos os seus secretários, elegeu a cidade capital simbólica e despachou durante dois dias no município.

Do mesmo modo que nas primeiras transferências para região em 1970, outro movimento separatista pedia uma nova divisão do Brasil e  emancipação do Sul e Sudoeste Baiano e parte de Minas Gerais para a criação do Estado independente de Santa Cruz. O movimento foi incentivado pelos produtores de cacau da região sob a liderança do prefeito de Itabuna Fernando Gomes, na época deputado Federal pelo PSDB.

Mapa mostra movimentos que pediam a criação de novos estados no país

O estado seria formado pelo desmembramento de áreas dos Estados da Bahia e Minas Gerais, englobando 153 municípios do primeiro e 12 do segundo, transferindo para Minas Gerais parte do mar da Bahia, através de municípios como Alcobaça, Caravelas e juntando cidades como Ibirapuã, Lajedão, Medeiros Neto e Nova Viçosa a outras mineiras.

Em 18 de Agosto de 1987 o assunto fez parte da pauta de uma reunião orquestrada por lideranças políticas do extremo sul, Deputado Maurício Cotrim. O evento foi realizado na Câmara Municipal de Itamaraju que na época nutria grande insatisfação com a política estadual para com o município. “Atualmente no extremo sul do estado, existe um grande número de pessoas que esperam a pronta divisão do estado, inclusive vereadores locais,”destacou  o jornal A tarde.

Campanha do governo do Estado de 1988 contra o movimento de divisão da Bahia

De acordo com um Informativo Publicitário de 1988, o então prefeito da cidade de Teixeira de Freitas, Temóteo Brito, em seu primeiro mandato,  também estava insatisfeito com a política estadual de repasse de recursos do estado governado pelo adversário de seu grupo político e apostava na divisão  da Bahia para obter recursos necessários às demandas da cidade.

” O Extremo sul deveria ser desmembrado e vinculado posteriormente ao Estado de Minas Gerais, debatendo a máxima de que ‘dividir a Bahia é dividir Caetano Veloso’. Na sua opinião, Minas sempre almejou este casamento que propiciaria ao estado uma abertura para o mar e em consequência, um futuro corredor de exportação”,  algo que beneficiaria o município que tinha como principal atividade econômica a agricultura e a pecuária ligada a fronteira mineira.

Tais reações podem ter motivado a transferência simbólica  da capital para a cidade de Itamaraju onde o governador Waldir Pires lançou um programa para o desenvolvimento econômico e social da região, que, por falta de infraestrutura, vinha sendo fortemente influenciado pelos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e enfrentava uma estiagem sem precedentes.

O governador foi  recebido com grande entusiasmo pela população e membros do MST local que perseguidos por pistoleiros esperavam a concessão de áreas para assentar famílias acampadas, muitas expulsas de suas terras pela grilagem.  O projeto conservador para a criação do Estado de Santa Cruz foi derrotado na Câmara Federal por não ser considerado viável financeiramente, tal como outras propostas existentes na época. 

Fontes:

Bahia de todos os fatos: cenas da vida republicana, 1889-1991. Front Cover. 1997 – Bahia

Memórias das Trevas – uma Devassa na Vida de Antônio Carlos Magalhães. João Carlos Teixeira Gomes; Ano: 2001; Editora: geração editorial. 

Informe Publicitário. 1988. Arquivo site tirabanha

Deputados fazem debate em Itamaraju. A tarde. 18/08/1987.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Veja também:

TEIXEIRA DE FREITAS FOI CAPITAL DA BAHIA POR ALGUNS DIAS

Teixeira de Freitas foi capital da Bahia por alguns dias

Por Daniel Rocha*

Você sabia que Teixeira de Freitas já foi a capital da Bahia? Em algumas ocasiões o então povoado se tornou por alguns dias a capital simbólica e administrativa dos baianos. Mas por que isso ocorreu?

Em 1971 o então povoado de Teixeira de Freitas recebeu a visita do governador do estado da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, ACM, que simbolicamente a transformou em capital administrativa do estado por alguns dias.

Na ocasião o governo travava uma intensa guerra fiscal com Minas Gerais e Espírito Santo devido à retirada sem controle de madeiras extraídas no seu território da região. No momento o governador assinou um decreto proibindo a saída exigindo o beneficiamento na Bahia. Segundo fontes o decreto obrigou a instalação na cidade de diversas empresas madeireiras.

Vista do trevo da cidade. Av. Getúlio Vargas em direção ao centro.

Outras fontes sugerem que em um segundo momento o governador voltou a usar da mesma estratégia antes de terminar o mandato em 1974. Segundo o livro: Bahia de todos os fatos. Cena da Bahia Republicana 1889 – 1991, o governador despachou por dois dias com o seu secretariado, tornando o povoado como capital provisória do estado durante o tempo que esteve na região.

No período o governador ACM fazia uma política de interiorização do governo estadual para o fortalecimento do seu nome, já que ele vinha perdendo apoio no seu principal reduto, a capital Salvador.

Segundos os historiadores Jailson Guerra e Leonardo Alves a visita do governador fez parte da política de expansão do território iniciado pelo governo naquele ano.

Na mesma época, um tímido movimento separatista conservador discutia a emancipação do extremo sul da Bahia e parte do Vale do Mucuri ,Minas Gerais, que pretendia formar um Estado independente para fugir do “atraso e abandono” que se encontrava a região fronteiriça com a Bahia, historicamente ligadas pela estrada de ferro Bahia – Minas, extinta em 1966.

Já em 1988 a cidade de Itamaraju se tornou por alguns dias, simbolicamente, a capital do estado. Não perca os detalhes na próxima postagem.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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A COR DA ESPERANÇA

Os dias sombrios se sucedem

Na plena era da luz

Marielle, João, Pedro

E alguém que não é ninguém

Perdem a vida sob a égide

Do preconceito, da estupidez

A alma chora, o corpo pesaroso

Teima em despertar e pisar o chão

Faço destes versos um vicejar

De esperança, uma oração

Mas a poesia, acabrunhada, tímida

Retorna de mãos vazias.

Não vês que estás por demais

Espirituoso, meu pobre poeta?

ERIVAN SANTANA.

O poema “A cor da esperança”, recebeu Menção Honrosa no Prêmio Castro Alves de Literatura 2020,versão interna da Academia Teixeirense de Letras.


Relatos sobre a tragédia na “Biquinha” do Teixeirinha

Por Daniel Rocha

Esse registro é sobre  um acidente ocorrido no início da década de 90 na “Biquinha do Teixeirinha” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde largamente usada pelos  trabalhadores comuns, moradores do bairro, para realização de atividades domésticas, abastecedoiro de água e lazer.

Até o início da década de 90, embora a cidade já contasse com um sistema de abastecimento, a busca por água em locais impróprios e mal conservados era muito comum na cidade. Isso ocorria em partes devido o abastecimento irregular e a má qualidade dos serviços prestados pelo empresa de abastecimento do Estado.

Foto: Autor desconhecido

Esse cotidiano de dificuldades e perigo se encontra hoje memorizado e presente nos relatos dos moradores Elenildes Pinheiro, Valfrido de Freitas Correia, Ricardina Maria e Marcos Silva, que recordam um triste acidente que aconteceu naquele lugar quando o teto da fonte, que se assemelhava a uma caverna, desabou vitimando quatro pessoas presentes no local.

Sem saber qual foi o ano exato do ocorrido, conta a moradora Elenildes Pinheiro que a tragédia vitimou uma mulher e três filhos que estavam no local no momento do sinistro  causado pelo período chuvoso que encharcou a terra e favoreceu o desabamento.

Por sua parte, Ricardina Maria, criada no bairro, traz outra versão sobre a causa, conta que havia no local a retirada predatória do barro branco, ideal para a construção de fogões de lenha, que enfraqueceu a base da fonte levando ao desabamento. Relato que vai de encontro às lembranças do senhor Valfrido de Freitas Correia que também associou  a tragédia a retirada predatória do barro.  

Fonte construída logo a frente do local onde ocorreu o desabamento. Ano 2014

Já Marcos Silva, criado frequentando a Biquinha, filho de lavadeira,  conta que o acidente foi causado pelo excesso de chuva e extração do barro branco no local. Extração, como lembrado, que enfraqueceu as paredes que cederam com excesso de chuva que encharcou o solo.

Ainda sobre, recordou que na época o comentário era de que sete pessoas , entre lavadeiras, “aguaeiras” e crianças,  morreram no local, mas que apenas três corpos foram retirados. Por fim, de acordo com a perspectiva de Marcos os fatos narrados aconteceram entre os anos de 1991 e 1992 na “Biquinha do Teixeirinha,” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde que era largamente usada pelos moradores do bairro.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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 Fontes:

Ricardina Maria. Conversa informal em 12/2014

Enildes Pinheiros. Conversa informal em 12/2014

Domingos Cajueiro Correia. Conversa informal com Valfrido de Freitas Correia. 11/2014

Marcos Silva. Conversa informal em setembro 2019.

Uma história da “Praça do Shopping”

Por Daniel Rocha

A praça Hilton Chicon, conhecida popularmente como “ Praça do shopping, foi construída no período de 1995 e 1996, e é uma das maiores atrações da cidade, Este nome teve origem devido a sua proximidade com o Shopping Teixeira Mall. A praça possui  espaço amplo e é cercada por inúmeras memórias, observações e lembranças.

Domingos Viana, que mora  próximo a praça, relata que antes da sua construção aquela área era uma grande lagoa natural. Nas mediações existia uma serraria por nome “Divilan” que tal como outras jogava  detritos da madeira naquela área da lagoa até então coberta por uma vegetação chamada “taboa”. 

A vegetação alta por sua vez era usada por alguns casais de namorados para encontros amorosos escondidos. Em algumas ocasiões a lagoa também servia como esconderijo para “pivetes” e “assaltantes” que praticavam assaltos no centro da cidade.

Praça do Shopping: ano desconhecido

Neste cenário, preocupado com o grande número de crianças na rua o Sr. Domingos resolveu aproveitar um campinho de pó de serra popularmente chamado de “Fofão” para desenvolver um trabalho com as crianças do bairro formando então uma “escolinha de futebol. O trabalho que teve continuidade na “Praça da Rinha” evoluiu em outros espaços, como o Ginásio de Esportes, onde ficou até 2006.

Além disso, segundo a perspectiva do senhor Domingos, a lagoa era lugar de vida abundante, cobras, insetos e rãs tomavam conta da área quando chovia demasiadamente. Na época, a era uma iguaria apreciada por alguns moradores e por essa razão ele e alguns adolescentes entravam na lagoa durante a noite para capturar o anfíbio para vender aos interessados, (bares e hotéis).

“Íamos durante a noite com um saco de plástico desses de arroz para colocar as rãs e uma lata de óleo com uma vela dentro, uma lanterna improvisada, catando as maiores para vender, tinha boa saída… Perto da praça era a parte mais funda da lagoa, onde se encontrava mais rãs, até hoje a chuva vem, só que não acha a lagoa….. Só o Shopping.”

Domingos, primeiro da direita para esquerda. Escolinha de Futebol

Já sua esposa, Doracy Pereira, trabalhadora como todos os moradores do lugar, lembra se das dificuldades vividas em períodos de chuva e das antigas valas de drenagem e esgoto que cortava o Bairro da Lagoa e suas mediações. De acordo  com as suas lembranças durante os episódios de alagamento as águas das valas empurrava para dentro das casas insetos, cobras, lagartos e até preás. O mau cheiro do esgoto doméstico jogado na via era tanto que incomodava os moradores da Rua Tomé de Souza.

“Para atravessar a vala tinha que passar por uma “pinguela” de madeira”, improvisada como ponte. “Cansei de tirar gente de dentro que caiu após se desequilibrar, era comuns bêbados, crianças…. Isso tudo aqui na porta de casa, a poucos metros da Praça”.

Depois desta etapa houve a construção da praça, onde no final dos anos 90 e toda década de 2000,  um coreto que existia na paragem se tornou o palco preferido dos apaixonados estudantes que usavam aquele lugar para antecipar seus primeiros beijos e amassos, atitude comum entre os jovens que também ocupavam o lugar para fazer música, praticar esportes e fumar, rotina prejudicada pelo abandono e desleixo que tomou conta do lugar com o tempo.

Tanto que em 2009 o poeta e cronista Zarfeg escreveu na sua coluna no site de notícias Teixeira News um texto que no presente se mostra mais atual do que nunca, como pode ser observado no trecho:

“Me permitam narrar as tristes impressões que me causou a recente visita que fiz à Praça Hilton Chicon, situada no coração de Teixeira de Freitas. (…) À primeira vista, a impressão que se tem é que o shopping vai afundar a qualquer momento no meio de tanto abandono político-administrativo. E chegamos ao xis da questão: a drenagem do shopping foi sempre tratada com descaso pelas últimas administrações, mas é, reconhecidamente, a única forma de transformar aquele espaço público decadente em motivo de orgulho para os teixeirenses. A verdade é que chegamos ao ponto em que adiamentos e promessas não bastam. É preciso compromisso, ação, mãos à obra, que a cidade tem pressa”.

Fontes

A. Zarfeg. A praça é ou não é do povo? Teixeira News. 31/01/2009. Acessado Março de 2009. Acervo site Tirabanha.com.br.

Conversa informal com Domingos Viana. Maio de 2016. Março de 2019.

Daniel Rocha da Silva*

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Fotos: Ano desconhecido. 

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O novo e o velho: A dualidade teixeirense

Por Daniel Rocha

Você já disse frases como: vou a  Rodoviária Velha, Rodoviária Nova, ao Shopping Velho, ao  Shopping novo, ao invés de se referir a esses endereços pelos nomes corretos? Você já parou para pensar o porquê nós, os teixeirenses, usamos o termo “novo” e “velho” para denominar esses  e outros espaços? 

Rodoviária Velha 1985. O velho cotidiano

Esse jeito de se referir aos antigos espaços reclassificados com novos noves deixa transparecer a influência exercida pela Ideologia desenvolvimentista que nasceu no país nas décadas de 1930 e 1950, e foi incorporada à perspectiva patriótica das décadas de 1960 e 1970 e chegou a região invocada pela abertura de estradas, como a BR-101, exploração da madeira e o próprio surgimento do povoado teixeirense.

O discurso alimentou a crença de que somente os maciços Investimentos em urbanização e a industrialização levariam o país ao patamar de desenvolvimento desejado. Percepção que no passado chegou ao fim com a crise econômica do início da década de 1980, que mudou a perspectiva dos brasileiros em relação ao futuro e levou a sociedade a requerer direitos de acesso à saúde, educação e assistência social.

Novo Terminal: novas iterações

Entretanto, em Teixeira de Freitas, durante o processo de eleição para escolha do primeiro prefeito da cidade emancipada, em 1985, o discurso foi repaginado e mesclado à esperança de que com autonomia a cidade iria definitivamente se desenvolver com a chegada de empresas e asfaltamento de ruas.

Embora tenha favorecido, com o tempo  também ficou claro que esse chamado desenvolvimento tendia em partes a justificar discursos políticos e investimentos que pouco ajudaram resolver as necessidades básicas da população sujeita ao discurso divulgado em sites e jornais propagandistas  das aplicações do poder administrativo.

Antigas interações no fundo da “Rodoviária Velha.” Senhora Diomar ( camisa Branca) e Angelina ( camisa vermelha) de chapéu o Luiz do Jogo do Bicho. Foto: Ernani Silva.

Contudo, ao reclassificar com novas nomenclaturas os populares reagem criando propriedades dialógicas mostrando que é necessário diante de qualquer avanço estabelecer relação entre o presente e o  passado, nem sempre valorizado pelos desenvolvimentistas.

Assim, em tese, ao classificar com os termos “novo” e “velho” os populares fazem lembrar que  os lugares abandonados de sua função originais como a Rodoviária Velha, são lugares de memória e de interações sociais vividas pela comunidade, para que nossas lembranças e  identidade não seja apagada pelo eterno desejo de progresso contínuo.R

Daniel Rocha da Silva*

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Fotos:  Rodoviária . Revista Banco do Nordeste 1985

Vendedores ambulantes. Foto de
Ernani Silva.

Fontes:

MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna: Companhia das Letras.SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo.

TEIXEIRA DE FREITAS – DITOS E NÃO DITOS: Uma cidade em disputa de memórias. LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES.

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Teixeira de Freitas 1988: Uma história do “Mercadão”

Na feira a interação social é a protagonista das mais espantosa realidade e histórias. A  da feira do Centro de Abastecimento de Teixeira de Freitas, mais conhecido como “Mercadão”, data de muito antes da sua inauguração  em 1989 e revela um acontecimento que o povo não esquece.

Segundo um dos relatos sobre,  tudo começa na década de 1970 quando a igreja e os comerciantes do centro do povoado de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, fizeram um abaixo-assinado contra a realização da feira de domingo na então praça São Pedro, hoje conhecida como Praça dos Leões,  porque a mesma escravizava lojistas e feirantes no dia sagrado.

Diante disso, a prefeitura de Alcobaça transferiu a para um espaço na praça da Bíblia, um pequeno Mercado Municipal erguido na administração do prefeito Amazias Barreto de Morais em 1968. Contudo a feira ficou na contramão do povoado e por essa razão os feirantes e camelôs deram  início à realização de uma nova feira livre onde hoje é o Mercadão. 

Feira da “Pausoeira”: Foto Junior Guimarães de Pádua

“Disseram que onde eles estavam na praça da Bíblia era muito longe. E era verdade, ninguém queria vir comprar. Eu falei para os feirantes pegar as coisas de madrugada e voltar para antiga praça. O prefeito de Alcobaça era contra, mas eu disse a ele que “a feira da Vila Vargas” está suplantando a daqui. O senhor quer que isso aconteça? Tempos depois mudaram de vez a feira para onde é hoje o Mercadão”, Narrou o senhor Godoaldo da Silva Amaral.

Devido a quantidade enorme de barracas de madeira  que se fixaram no espaço a nova feira foi apelidada pelos moradores de “Pausoeira”. Na versão contada por Godoaldo da Silva Amaral ao jornal Alerta em 2013, a cidade estava  se desenvolvendo, por isso a feira foi transferida para o local onde hoje fica a praça da Bíblia para dar lugar a abertura da Praça São Pedro/ Praça dos leões. 

Em tese, como na Praça São Pedro, na  “Pausoeira” o comércio corria livre ,ou seja, qualquer um podia colocar uma barraca para vender sem ter que prestar esclarecimento ou pagar impostos, como vinha ocorrendo no Mercado da praça da Bíblia. Porém na década de 1980 um triste acontecimento pôs fim a essa liberdade.

Feira da Pauzoeira

De acordo com a ex – feirante da “Pausoeira”, Ricardina Maria e moradores ouvidos pelo site em 2016,   um incêndio criminoso ocorrido em uma noite de 1986 destruiu toda o aglomerado de barracas que formavam a  feira reduzido a cinzas o ganha pão de muitos trabalhadores, um fato traumático no presente muito lembrado com lágrimas e silêncio.

“Ao perguntarmos sobre a causo do incêndio o feirante, meio desconfiado, diz ter sido alguém que mandou fazer o serviço, quem sabe por questões políticas.” Registrou Alzinete Ferreira e Talita Maia no trabalho monográfico “A feira livre, um olhar para a cidade de Teixeira de Freitas – 1960 a 2009.”

Segundo um Informe Publicitário de 1988, Teixeira de Freitas era  “um dos principais eixo de comercialização dos produtos hortifrutigranjeiros” da região, e para por essa razão foi  construído a Central de Abastecimento, o “Mercadão”, para incentivar a comercialização dos produtos agrícolas produzidos pela Agroindústria local. 

Centro de Abastecimento 1988

A construção do centro de Abastecimento foi autorizado pela Pela Prefeitura de Teixeira de Freitas em 1987 no valor correspondente, em cruzados, a 155.000,00. Para além da história oficial a construção, três anos depois da emancipação  política da cidade, revela um pouco de como se deu a apropriação do espaço pela administração  municipal que fez valer seu poder ordenando o território urbano para atender os interesses dos comerciantes e agricultores.

Fontes:

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

SANTOS, Alzinete Ferreira; MAIA,Talita Alves. A FEIRA LIVRE, UM OLHAR PARA A CIDADE DE TEIXEIRA DE FREITAS-1960 a 2009. UNEB-X 2010.

Brazil. Congresso Nacional, ‎Brazil. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados – 1988.

Joranal Alerta. XVIII Nº 1392.

Referência.

Fotos: 

Feira da Pausoeira. Ano desconhecido. Fonte: Júnior Guimarães de Pádua. Disponível no Museu Virtual de Teixeira de Freitas.

Construção do Centro de Abastecimento. 1988. MR

Daniel Rocha da Silva*

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Teixeira de Freitas Ano 2000: Um “indigente” conhecido

Por Daniel Rocha

A morte é denunciante de contextos, dramas e conflitos e diz muito sobre o lugar onde ocorre.Como no caso registrado pelo extinto programa jornalístico “TV Verdade” exibido pela emissora local TV Sul Bahia no ano 2000 que registrou a tentativa e o sepultamento de um homem classificado como “indigente.”

No final do mês de outubro de 2000, semana antes do Dia de Finados, o jornalista Getúlio Ubiratan, repórter e apresentador, se dirigiu ao Cemitério Jardim da Saudade para averiguar denúncias de que estava “abandonado e com mal cheiro” e acabou flagrando a tentativa do sepultamento de “um indigente” por três moradoras do bairro Bela Vista que denunciou às dificuldades para enterrar um conhecido sem identificação oficial.

Ambulância chega com o corpo

Sem revelar o nome dos envolvidos, o repórter apurou que uma das presentes era companheira e convivia com o falecido há sete anos e que a mesma não sabia muito sobre ele, pois havia o conhecido as margens de uma estrada quando ele ainda era “um andarilho.”

Ainda de acordo com a companheira o “desconhecido” havia falecido em casa após receber alta no Hospital Regional. Apenas a mulher e duas vizinhas acompanhava o corpo não sepultado por falta de identificação e autorização judicial. A causa da morte também era desconhecida. Os funcionários, temendo repreensão da polícia se recusaram realizar o sepultamento.

Mulheres pela dignidade do cidadão

Contudo, o motorista da ambulância declarou que foi chamado por um representante da prefeitura que havia ligado para ele solicitando que o corpo fosse levado para o sepultamento até que fosse providenciado a documentação, horas depois apresentada pelo funcionário da prefeitura que atestou que o cidadão era um “indigente” e que assim deveria ser enterrado.

“Como vão dizer que ele é indigente se ele morreu ontem,” indagou o repórter. O representante da administração municipal informou que a liberação da prefeitura autorizava o enterro e que havia também uma outras das autoridades competentes, juiz e promotor, que antes de autorizar o sepulto apuraram informações sobre a companheira e o indivíduo.

Representantes do município

Mas o que diz o registro sobre a sociedade teixeirense da época? Da minha perspectiva o Estado, através de seus representantes, municipal e federal, promoveu o silenciamento da existência de um cidadão, que se encontrava fora da dinâmica formal do mundo do trabalho, que teve direitos negados durante a vida através de uma ordem discursiva oficial. O mesmo faz o programa da TV ao negar o nome dos envolvidos, mulheres, que lutaram até o fim pelo direito de um sepultamento digno para o seu indigente conhecido.

Daniel Rocha da Silva*

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Foto : Vídeo da reportagem

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Caravelas 1888: um Elixir foi usado no combate a sífilis

Por Daniel Rocha

Do final do século XIX ao início do século XX remédios à base de infusões de ervas e folhas, produzidos e comercializado por boticários e pequenos farmacêuticos, era popular entre os brasileiros. Na cidade de Caravelas o Elixir Tibornina foi empregado, dentre outras coisas, no tratamento da sífilis.

Por isso a maioria, sobre tudo os mais pobres, recorriam com frequência aos medicamentosos elixires cujo à propaganda era feita em jornais impressos através da divulgação de relatos dos usuários e médicos “satisfeitos com o uso.”

Em 1909, por exemplo, estava em alta o Elixir Tibornina, “específico eficaz da Flora Brasileira” que prometia trazer a “cura radical das moléstias e das impurezas do sangue por mais crônicas e rebeldes que sejam.” Como destacou a propaganda do produto em um jornal soteropolitano de 1908 que publicava relatos dos usuários e de médicos para conferir credibilidade ao produto.

Como o do tal Dr. José Carlos Gomes da Silva, de Caravelas, datado de 1º de dezembro de 1888 que relatou: “Atesto que tenho empregado na minha clínica o Elixir de Tibornina do farmacêutico Floriano Serpa obtendo sempre ótimos resultado na sífilis em suas diversas manifestações, razão que obriga-me a preferira-o a outro qualquer medicamento aconselhado nas preferidas moléstias”.

Sífilis em Caravelas? Como isso? Em 1888 a cidade de Caravelas era dona de um dos portos mais movimentados da região, a Companhia Baiana e a Companhia Espírito Santos e Caravelas de Navegação de passageiros realizava paradas regulares no lugar que desde 1882 era ponto final da estrada de ferro Bahia-Minas, que no primeiro momento ligava Caravelas a cidade de Serra dos Aimorés, então limite entre os Estados da Bahia e Minas Gerais, no período a sífilis  era uma doença já comum entre os brasileiros desde sempre.

Propaganda da Companhia de Navegação

No livro Casa grande e Senzala, Freyre traz citações e afirma a partir destas que desde o século XVIII o Brasil era assinalado em livros estrangeiros como “a terra da sífilis por excelência” e que na zona mais colonizada, litoral, sempre foi larga a extensão da doença associada ao grande vigor sexual dos colonizadores e dos negros escravizados. Tanto que a publicidade de remédios, elixires e garrafadas para tratamento de males venéreos “faz-se de forma escandalosa.”

Fatos que permite supor que o trânsito intenso de trabalhadores e passageiros elevaram os casos da doença transmitida por via sexual, uma das mais combatidas pela saúde pública nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, na cidade portuária onde os moradores eram tratados com o Elixir Tibornina em clínicas como a do tal Dr. José Carlos, como sugere o texto da propaganda.

Fontes e referências:

Diário de Notícias 02 de maio de 1900. Acervo site tirabanha.

SAGGIORO. Elder Sidney. SINTOMAS DO MOMENTO: MEDICAMENTOS E PROPAGANDA NO “COMÉRCIO DO JAHÚ” : https://www.unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/anais/historia_2016/Sintomas_do_momento_Elder_Saggioro.pdf


FREYRE. Gilberto. Casa Grande e Senzala .

Daniel Rocha da Silva*

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Foto : Caravelas.

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O que rolava no Orkut de Teixeira de Freitas?

Por Daniel Rocha


Você se lembra o que rolava no Orkut da cidade? A interação virtual, com as características que conhecemos hoje, se popularizou entre a maioria dos internautas brasileiros quando foi lançado o Orkut em meados da década de 2000, período em que a internet começou a revolucionar os meios e as formas de comunicar de milhões de pessoas no país.

Em Teixeira de Freitas não foi diferente, com a difusão da rede surgiu as primeiras comunidades virtuais relacionada à cidade, como a pioneira “Teixeira de Freitas-BA, criada em 2004, onde todo internauta, seja em casa ou nas Lan houses, que democratizam o uso da Internet, se encontrava para interagir,  comentar festas e acontecimentos, publicar novidades responder perguntas e enquetes.


Lan houses democratizam o uso .

Por exemplo, na Enquete postada no dia 22/08/07 o perfil “Fábio Nogueira Soares” buscava saber qual era o gosto musical dos teixeirenses lançando a pergunta: “Qual o ritmo de música que o teixeirense mais gosta?”

Ao final o placar indicou que para 31%, o Axé era o ritmo musical preferido dos teixeirenses. O Pagode e o Rock dividiu o segundo lugar com 24% da preferência, a frente do Forró que foi escolhido por 22% dos participantes. A enquete destacou a diversidade de preferências existentes na cidade, mas também que houve exclusões na lista de opções, tanto que o perfil “Dhea” protestou: “Arrocha! os teixeirenses em geral! eu ainda tenho cultura!”

Resultado da Enquete

Já na Enquete de 2008 o perfil “Betinho Chagas” perguntou como os membros da comunidade avaliava a administração do prefeito Padre Apparecido, o resultado revelou que estava ótima para 11%, Boa para 17%, Regular para 19%,Ruim para 11% e Péssima para 42% dos que se manifestaram. Apparecido Staut foi reeleito naquele mesmo ano para um segundo mandato.

No fórum da comunidade o um perfil não identificado,   questionou no dia 29 de agosto de 2010: “Gostaria de saber porque  a BR 101 na região de Teixeira, isso é, da divisa BA-ES até a cidade de Itamaraju, estar e sempre foi abandonada. Quem viaja pela BR pode ver na região de Eunápolis e Itabuna, várias frentes de trabalho limpando a rodovia, pintando o meio fio, recuperando trecho ruins, etc. E na região de Teixeira nada é feito (…) porque os deputados radialistas nada fazem?”

Capa da comunidade

Através da comunidade os internautas locais dinamizaram discussões antes restritas a pequenos grupos e pessoas que ao interagir expressavam suas angústias e necessidade de falar da “realidade” sem os filtros e os tratamentos dos tradicionais meios de comunicação, rádio e televisão.

Com os olhos do presente, as enquetes revelam a pluralidade de opiniões dos moradores da cidade da primeira década do século XXI . Criada em 2004 a comunidade foi desativado dez anos depois quando o Orkut encerrou suas atividades no dia 30 de setembro de 2014.

Fonte: Acervo Site Tirabanha