O ESTADO DAS COISAS

Erivan Santana*

Este é o título de um filme de produção americana, de 2017, e em que pese o fato de a maioria dos filmes produzidos pelo cinema americano seguirem a linha “blackbusters”, de grande apelo comercial, este se difere, ao procurar analisar a ordem social, poltítica e econômica em que vivemos, através dos conflitos existenciais vividos pelo personagem Brad Sloan, interpretado por Ben Stiller.

O filme mostra um personagem plenamente inserido nos dilemas da era moderna, sempre preocupado em se comparar aos amigos e antigos colegas de faculdade, numa perspectiva de poder, fama e dinheiro. Apesar do filme se ambientar nos EUA, em tempos de capitalismo globalizado, a relação com outros contextos é imediata, incluindo a brasileira.

Nos tempos atuais, não há na verdade, a preocupação em ser feliz, mas uma atenção voltada sobretudo para o sucesso econômico, status social e posses materiais, daí a surgir sempre esta tendência de estar se comparando ao próximo.

Outra tendência, esta amplamente estudada e percebida pelo filósofo francês Michel Foucault em obras como “Vigiar e Punir” e “Microfísica do Poder” é a constante vigilância que ocorre na sociedade moderna, feita pelos indivíduos, uns aos outros, sempre afeitos ao julgamento, sendo que o desenvolvimento tecnológico tem muito a contribuir.

É importante observar que diante de tais realidades, instala-se na sociedade uma espécie de controle, dos corpos e das mentes das pessoas, vivendo em sociedade, sempre visando a interesses de ordem econômica, social e política.

Neste particular, conforme salienta o filósofo francês, até mesmo a educação – que em tese, deveria ser crítica e independente – atua sempre voltada para o “controle disciplinar”, muitas vezes impedindo o desenvolvimento da leitura crítica de mundo pelos discentes.

Portanto, as engrenagens do sistema capitalista globalizado atuam em conjunto, envolvendo, segundo Foucault, grandes empresas, meios de comunicação, instituições religiosas e jurídicas, entre outras.

Desta forma, este é o grande mérito do filme “O estado das coisas”, ao colocar na tela do cinema um personagem confuso e angustiado, refletindo os grandes dilemas da era moderna, uma realidade facilmente percebida na vida de muitas pessoas e nas nossas, o que é pertubador.

Nunca se pergunta: você é feliz? Pergunta-se sempre se a pessoa estuda em uma escola ou universidade de renome, se formou em uma profissão (normalmente aquelas reconhecidas como de status social) ou se adquiriu o mais novo carro do ano ou o último modelo de celular.

Assim caminha a humanidade, esperamos que a arte também continue a caminhar, como testemunha do nosso tempo, numa perspectiva humana e crítica.

Erivan Santana (professor, escritor e poeta)
Crônica publicada no jornal A Tarde, Salvador, 21/11/2018

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TEMPO É DINHEIRO

TEMPOS SOMBRIOS: INSTANTÂNEOS DA REALIDADE

 

Em cartaz em Teixeira de Freitas : Animais Fantásticos 02

Por Daniel Rocha

O costumeiro universo de Harry Potter, Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, foi ultrapassado com Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016) feito para agradar e conquistar  velhos e novos fãs . Contudo,  o segundo filme da série Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018) retrocede em relação a isso e pode não agradar quem não viu o primeiro.

No filme, Newt Scamander reencontra os queridos amigos Tina Goldstein, Queenie Goldsteine Jacob Kowalski. Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore, para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald, que escapou da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

Se você é fã e viu  “Animais Fantásticos e Onde Habitam” a experiência será perfeita, pois a produção acrescenta muitas novidades ao universo fantástico dos bruxos, se for apenas um marinheiro de primeira viagem ficará perdido diante de uma narrativa confusa e pouco foco nos personagens que se desenvolvem mal.

Em resumo, o filme de excelentes efeitos especiais, agrada mais quem já é fãs e existe para conduzir a narrativa e o público para os eventos do filme seguinte que deve ser ambientado no Brasil, conforme a autora expressou no Twitter.

Em cartaz  no Cine Teixeira Mall

Animais Fantásticos
Sessões:

15:15H / 18H / 20:45H

Cinesercla PátioMix Teixeira de Freitas 
Dublado em português
2D
20:40

Informações Adicionais:
Classificação: 12 anos 
Gênero: Fantasia / ação
Duração: 120
Dublado

 

OS EVANGÉLICOS TEIXEIRENSES : O CORAL BATISTA

Por Daniel Rocha

Na década de 1960 migrantes da região e de outras partes do estado e do país fundam as primeiras igrejas evangélicas no povoado de Teixeira de Freitas, Primeira Igreja Batista e Assembleia de Deus.

Na década seguinte, 1970, o número de fiéis aumenta significativamente, novas denominações surgem e outros grupos ligados às igrejas pioneiras dão continuidade aos trabalhos iniciados pelos primeiros protestantes, migrantes, que chegaram ao povoado na década de 1960.

Se no primeiro decênio (1960 a 1970) o desafio dos primeiros protestantes foi, além de evangelizar, construir e formar uma igreja independente, nas décadas seguintes foi preciso diferenciar se do pluralismo cultural existente no povoado, firmando tradições e valores com novas estratégias para a conquista de outros seguidores.

Nesta perspectiva escolhi focar no trabalho desenvolvido pelo coral da Primeira igreja Batista nos anos de 1980. A ideia de escrever sobre o coral surgiu a partir da leitura do livro Introdução à História dos Batistas, do jornalista e radialista Jader Alves Pereira, que destaca em seus registros que na década de 1970 “imperou a tradição coral”.

Dessa forma em novembro de 2015 conversei com o advogado Silvany Silveira sobre o trabalho desenvolvido por ele à frente do coral da primeira igreja Batista na década de 1980 e sua relevância na Cantata de Natal, um dos grandes eventos realizado pela igreja.

O batista Silvany ,que chegou ao povoado em janeiro de 1980 vindo de São Paulo, é mineiro da cidade de Almenara e foi criado na cidade baiana de Vitória da Conquista onde residiu até o ano de 1975.

Silvany então recordou que quando chegou em Teixeira encontrou um povoado pequeno que já aspirava crescimento. Então dividida entres as cidades de Alcobaça e Caravelas o povoado “contava com mais do que 25 mil habitantes”, estimativa.

De acordo com Silvany naquela época a primeira Igreja Batista era um templo simples frequentado por uma média de 150 pessoas pastoreadas pelo Pr. Pedro Santana Neto e que, apesar de modesta, já contava com um coral formado por 11 pessoas.

Embora já antigo o coro era muito respeitado e relevante pois desde da década de 1970 era solicitado nos cultos realizados em lugares fechados, igrejas e domicílios, e abertos, praças e ruas, do povoado, mesmo com toda essa bagagem alguns desafios tinham que ser superados pelo coral, que na perspectiva dele, ainda era muito amador.

Diante de tal situação Silvany resolveu então participar ativamente dos trabalhos da igreja e junto com outros interessados, e também conhecedores do assunto, profissionalizar o coral e desta forma contribuir para a “evolução do gosto musical da igreja”.

“Como guardava do período que morei em Vitória da Conquista conhecimentos na área de música aproveitei a disposição dos irmãos para me dedicar a formação de um novo coral”.

Tendo como referência os grandes grupos que conheceu no sudeste do país o senhor Silvany assumiu o papel de maestro regente, instituiu o uso de becas e instrumentos musicais diversos como o piano. Segundo Silvany foi preciso também renovar o repertório com novas canções e adotar vestimentas padronizadas, becas.

Das primeiras iniciativas nasceu um novo coral formado por 40 pessoas, jovens e adultos, donas de casa, estudantes e aposentados. Recorda que no primeiro ano precisou dedicar muito porque não contou com meses suficientes para afinar a turma para o natal, quando tradicionalmente é realizado a Cantata Natalina, uma das maiores apresentações musicais da igreja.

De acordo com Silvanir assim como hoje no início da década de 1980 a cantata de Natal da Primeira Igreja Batista era um acontecimento de grande destaque no povoado de Teixeira de Freitas. O evento que atraía atenção de diversos fiéis da região era, e ainda é realizado com o objetivo de divulgar a boa nova e conquistar novos fiéis para o cristianismo.

Por esse e outros motivos, e para preparar o coral a tempo, o regente contou com a preciosa ajuda de outras pessoas do ministério da música como Elizama Matos e Aldemir Moreira que no futuro deu continuidade ao trabalho ficando à frente do coral. Recordou Silvany que dentre todos os desafios o de instituir o canto com vozes divididas foi o que mais o exigiu, dificuldade superada pelos cantantes seis meses depois de uma intensa rotina de ensaios.

Ainda de acordo as memórias de Silvany Silveira graças ao empenho e dedicação todos os cantores se destacaram na cantata com uma belíssima apresentação, elevando ainda mais os resultados da missão evangelizadora da igreja.

“A beleza da apresentação e da música ajudava muita gente a compreender a mensagem de amor e paz e o verdadeiro significado do natal e a interação com os irmãos, membros da igreja, que divididos em grupos dava o seu melhor no dia”.

No livro PIBATEF 50 anos – Uma história de fé (2017), do historiador Paulo Cesar Pereira de Jesus, há a informação de que na década de 1980 os trabalhos de evangelização ganharam força a partir da estruturação do Departamento de Evangelismo. “Ao qual serviu de instrumento para a promoção dos trabalhos evangelísticos da primeira Igreja Batista em Teixeira de Freitas.”

Essa informação ajuda entender que de fato na década de 1980 depois de construir e formar uma igreja independente nas décadas de 1960 e 1970, de fato os Batistas buscaram firmar tradições e valores com novas estratégias para a conquista de mais seguidores nas décadas seguintes, diante disso associo essa circunstância a renovação do coral.

De acordo Silvany Silveira depois de vivenciar diversas experiências os membros do coral da Primeira Igreja Batista levaram a semente da boa música a todas as igrejas que se originaram dela, enriquecendo ainda mais a pluralidade cultural da cidade.

“Batista Jardim Novo, Memorial, Monte Castelo formaram grandes corais. No fundo a primeira igreja batista foi uma inseminadora da cultura musical na cidade, música sacra e evangélica. Hoje, graças a Deus, a cidade está muito bem servida de músicos”. Afirmou.

Referencias:

Fontes: MACHADO DA SILVA. Valdênia. A presença dos batistas no cotidiano urbano da cidade de Teixeira de Freitas no extremo sul da Bahia. Uneb campus -X. Teixeira de Freitas, 2010.

ALVES PEREIRA.Jader.Introdução. à história dos Batistas no Extremo Sul Baiano. Teixeira de Freitas BA. 2003.

De Jesus. Paulo Cesar Pereira. PIBATEF 50 ANOS – Uma história de fé. Teixeira de Freitas BA. 2017.

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OS EVANGÉLICOS TEIXEIRENSES : A RELIGIÃO DOS MIGRANTES

Teixeira de Freitas – Manifestações na cidade

Por Daniel Rocha

Centenas de mulheres tomaram a principal avenida da cidade de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, na manhã do último sábado, 29/09, para protestar contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). A caminhada findou às 10 horas no lugar de onde partiu, Praça da Prefeitura, às 08hs. 

O movimento “Ele não” começou com um grupo no Facebook e mobilizou diversas mulheres de várias cidades do país que atenderam o chamado e tomaram as ruas de cidades como Teixeira de Freitas onde a passeata organizada pelo Coletivo Feminista das Margaridas ocupou uma das principais avenidas do centro comercial, Avenida Marechal Castelo Branco.

Durante a passagem as palavras “Ele Não” eram vistas em faixas e entoadas pela multidão formada por mulheres e homens de diversos movimentos sociais e estudantes de escolas regulares e das universidades, UFSB e UNEB, que repudiavam,como todos, o candidato pedindo respeito aos direitos das mulheres e das minorias.

Ainda na cidade um grupo de apoiadores ao candidato Jair Bolsonaro ligados ao movimento “Ele sim” realizaram panfletagem em frente ao antigo fórum no mesmo período da manifestação do grupo contrário. O manifesto a favor, “Ele Sim”, também foi convocado pelas redes sociais e reuniu dezenas de militantes e simpatizantes.  Não  há relatos de incidentes registrados.

A exibição de Star Wars: episódio I no Cine Teixeira

Por Daniel Rocha

Em 1999, o cinema estrangeiro passou por uma revolução na sua estética e linguagem, filmes como Matrix (EUA 1999), Clube da Luta (1999), Corra, Lola Corra (1999) e Star Wars episódio I. A ameaça fantasma, o primeiro filme digital da história, ditaram regras e atiçaram a curiosidade dos cinéfilos no mundo inteiro.

O Star Wars voltava às telas 16 anos depois, com um número infinito de efeitos especiais e intitulado com o nome original da franquia e não mais como Guerra Nas Estrelas como era conhecido no país. A mudança se deu por razões mercadológicas.

Com quatro anos de funcionamento, o cine Teixeira já tinha um público cativo, o preço do ingresso era acessível os estudantes podiam assistir ao filme pagando apenas R$ 2,00.

O motivo do preço acessível era porque as salas não seguiam as estreias do circuito nacional. Hoje este tempo de espera é bem menor e as estreias em circuito são comuns.

A longa espera não incomodava o público fiel, aliás, aumentava a ansiedade e deixava as seções ainda mais gostosas. Como o acesso à Internet era restrito a uma minoria a saída para quem queria ter mais informações sobre os filmes era a TV, colunas de cinema nos jornais e revistas onde raramente se tinha acesso aos spoilers.

Por isso para os fãs, como eu, a espera incluía visitas constantes as bancas de revistas da cidade e as locadoras Tajon vídeo, Venturim Vídeos e a Sétima Arte para “achar” VHS antigos com versões inalteradas dos primeiros filmes.

Na época o diretor George Lucas havia lançado o filme em vídeo com vários cortes e alterações, por isso a busca pelas versões originais. A espera incluía também ficar ligado nos programas de rádio que sempre sorteavam novos ingressos.

No dia da estreia, que ocorreu no dia 27 de agosto de 1999, uma sexta – feira, uma grande e barulhenta audiência compareceu a primeira sessão, em sua maioria jovens fãs e estudantes agitados por uma longa espera, dois meses depois da estreia no país.

Contudo o tão esperado filme ficou aquém das expectativas dos  fãs ,que eu fazia parte, que mesmo assim insatisfeitos voltaram no outro dia, sábado, para rever o primeiro longa  digital, o  grande chamariz da fita. Contudo a tecnologia digital  era coisa para privilegiados uma vez que  no país  os cinemas eram predominante analógico como o Cine Teixeira.

Com a queda do movimento  o filme não  cumpriu com um dos seus objetivos que era o de conquistar novos fãs para franquia, talvez porque, para aquela geração do final dos anos de 1990, as narrativas e os efeitos mirabolantes do filme  Matrix já havia quebrado certos padrões e conquistado o interesse da massa cada dia mais ligado em Tecnologia e telefones celular.

 

Coletivo Feminista organiza manifestação em Teixeira de Freitas

Organização*

As mulheres vão dominar o mundo? Talvez – tomara que sim –, não sabemos. O que sabemos, contudo, é que as mulheres tomarão as ruas brasileiras no próximo sábado, dia 29 de setembro, certamente o maior exército, o mais aguerrido, numeroso e feroz a pisar nas américas. Dúvida?

Em Teixeira de Freitas (Extremo Sul baiano), o batalhão das mulheres se arregimentou nas mídias sociais emcabeçadas pelo Coletivo Feminista das Margaridas. Hoje  o grupo já conta com mais de duzentas mulheres, mistas em várias profissões. Sendo elas advogadas, donas de casa, professoras, estudantes,domésticas, trabalhadoras do campo, engenheiras, servidoras, médicas, trabalhadoras do comércio, esportistas, vereadoras, candidatas regionais, prometem, todas, lutando por nenhum direito a menos e contra as afirmações polêmicas do candidato Jair Bolsonaro.

Dentre essas e outras coisas, o candidato já chegou a dizer em uma entrevista no ano de 2016, que não contrataria uma mulher com o mesmo salário que um homem “porque as mulheres engravidam”. Na época, o candidato disse ter sido mal interpretado.

Não bastasse, o candidato já declarou que nunca pensaria na hipótese dos próprios filhos serem gays, pois, segundo ele próprio, “eles tinham uma boa educação”. E, apesar de ter dito novamente que foi mal interpretado, passou a colecionar a antipatia da grande parte da comunidade LGBTQ+ brasileira.

Em vista disto, em 30 de agosto deste ano, as eleitoras criaram um grupo online pelo “Facebook”, denominado “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, que em menos de duas semanas reuniu dois milhões de mulheres.

A partir daí, o movimento contou com o apoio de diversas personalidades da grande mídia.  Organizado e composto por mulheres de diversos Coletivos Feministas, Grupos e Movimentos Sociais, sem restrição de partidos ou ideologias.

Na cidade o manifesto   “Mulheres Unidas contra Bolsonaro – Teixeira de Freitas, #EleNão , está marcado para as 08:00 horas (oito horas) da manhã, com concentração na Praça da Prefeitura, na Avenida Castelo Branco, e recomenda-se o uso de camisas brancas, violetas ou lilás.

Portanto, o movimento se organizou em “defesa dos direitos das mulheres, das minorias, da comunidade LGBTQ+, bem como, contra o neofacismo, o racismo, o machismo, o sexismo, a misoginia, a intolerância e a incitação à violência, tudo que esse sujeito representa”. Nota publicada no WhatsApp de convite ao manifesto.

  • O texto foi enviado para o site tirabanha.com  pela organização do manifesto.

A influente Maria Mil Réis 

Por Daniel Rocha

Relatam antigos moradores que Maria “Mil Réis” foi uma das mulheres mais conhecidas da cidade de Teixeira de Freitas, Extremo sul da Bahia, na década de 1970. Influente e popular era dona de uma banca na feira e de uma currutela de madeira aberta às margens da BR-101 e da antiga estrada de rodagem da Eleosippo Cunha, hoje Avenida São Paulo, para atender mulheres em busca de guarita e homens em busca de bebida, comida e sexo. Um incêndio que destruiu a sua casa/currutela  é relacionado ao seu posicionamento político. 

Dentre os diversos relatos sobre, Maria Mil Réis é lembrada como uma mulher alegre, comunicativa e receptiva e muito querida pelos trabalhadores, caminhoneiros e passantes. Feirante era dona de uma banca na feira da “Pausoeira”, hoje “Mercadão”, onde revendia abóboras e cereais como, feijão, milho e farinha, recorda Celestina Macedo que se classifica como uma “parente indireta” já que sua madrasta era irmã de Maria Mil Réis.  

Celestina lembra que boa parte da popularidade da parente não se deve apenas ao fato de que a casa dela servia como ponto de encontro para homens em busca de sexo e mulheres, muitos deles casados, mas porque era uma pessoa generosa que tinha “tino” para os negócios e um carisma que conquistava as pessoas. 

“Lembro que quando ela chegava na feira o povo flechava na banca dela, sabia conversar com os pobres… Vendia fiado, dava desconto, vendia a metade para quem não podia levar inteiro e o talho para quem não podia levar a banda… O povo gostava disso. Se ela fosse uma política ela tinha ganhado uma eleição”.  

Se não se lançou candidata não deixou de fazer política, segundo recorda Edjair Nunes, em conversa informal, dessas de anotar no bloquinho de papel, que por ser uma mulher extremamente popular Maria Mil Réis fazia uso de sua grande popularidade e influência “tomando partido” e declarando apoio a “candidatos amigos” a fim  de “influenciar votos”. 

Tanto que sabe, de ouvir dizer, que ela teve a casa incendiada por um grupo de partidários políticos depois de manifestar apoio a um dos candidatos para a eleição municipal de Alcobaça, ao qual parte do então povoado de Teixeira de Freitas era subordinado, no início da década de 1970. 

Conforme informam os historiadores Jailson C. Pereira Guerra e Leonardo Santos Silva , no trabalho monográfico “O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985), em 1972 foi realizada em Teixeira de Freitas, como em outros municípios Brasileiros, exceto as capitais, a primeira eleição bipartidária do período da ditadura militar, 1964 – 1985, depois do Ato Institucional Número Dois (AI-2) de 1965, que instituiu o bipartidarismo através da criação da Arena, “situação” e o MDB, “oposição”. 

Ainda de acordo com a pesquisa de Guerra e Silva o candidato da “situação” e residente do povoado Wilson Brito (ARENA) venceu o morador da sede, João Bernardo de Souza (MDB), depois de uma acirrada disputa marcada por eventos e ameaças a partidários e candidatos. 

De maneira que o candidato da Arena, Wilson Brito, contou com o apoio de lideranças políticas locais e de todo aparato do executivo enquanto o candidato do MDB, João Bernardo de Souza, com o apoio dos moradores que sofreram repressão tendo ele próprio sido alvo de intimidação quando uma bomba explodiu em sua casa. É necessário que se registre igualmente que os autores consideram que a vitória do candidato Wilson Brito beneficiou o então povoado, pois o mesmo era morador do lugar. 

Questionada sobre o incêndio e a possível relação do fato narrado com o processo eleitoral de 1972, Celestina recordou da ocorrência de mais dois incêndios entre o final da década de 1970 e outro em meados de 1980 , no entanto informou que desconhece os ” verdadeiros motivos”, mas que sabe de ouvir dizer que o primeiro foi causado por um amante enciumado por Maria “Mil Réis”. 

Já um morador anônimo, homossexual, que gosta de recordar que na década de 1970 contava com o apoio e discrição de Maria Mil Réis que alugava quartos da currutela para seus encontros amorosos, lembra se de ter ouvido falar da ocorrência de um incêndio no lugar mas diz não saber nada a respeito, sobre a versão de que tenha sido provocado por um amante enciumado afirma.  

“Era uma cafetina! Será que teve a sorte de encontrar alguém para lhe ter ciúmes?…. Duvido muito”. (gargalhadas).  

Maria Mil Réis  teria falecido no final dos anos de 1990 no asilo da cidade, não teve filhos, criou um sobrinho e uma menina que adotou ainda criança. Todos estes fatos narrados nesta construção evidenciam que ela possuía a habilidade de conciliar outras funções sociais além do ofício e do estereótipo pelo qual é mais lembrada. 

No presente nas proximidades da Avenida São Paulo e na região do Shopping Pátio Mix, onde ficava sua currutela à alcunha “Maria Mil Réis” por muitos anos deu nome ao lugar. Nos Bairros próximos, segundo alguns moradores, o dito popular “Quer saber? pergunta a Maria Mil Réis” ainda faz lembrar que por ali morou uma mulher popular com grande influência e poder. 

Referência:

GUERRA, Jaison C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

Conversa informal com Celestina Macedo  2015.

Conversa informal com Edjair Nunes  2017.

Conversa informal com  morador  anônimo  2018.

 

*Daniel Rocha
Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

 

A diferenciada Rádio Câmara

Por Daniel Rocha

A pouco mais de um ano ar a rádio Câmara de Teixeira de Freitas ( 90,9 FM), Bahia, tem permitido aos ouvintes locais expandir a visão pessoal sobre a política municipal e conhecer mais sobre o trabalho do legislativo.

Estatal gerida pela câmara municipal a emissora é democrática e vem atuando sem o maniqueísmo e o partidarismo que marcou a história de algumas emissoras de rádio da cidade.

A rádio tem possibilitado aos ouvintes à oportunidade de ter acesso a conteúdos locais e nacionais produzidos sob outros olhares e perspectivas, uma vez que quebra um padrão estabelecido e consolidado de programas que faz da prestação de serviços e denúncias, com viés, sua marca mais forte.

Esse padrão tem suas raízes no contexto do início e meados dos anos 1980, quando em volta de dificuldades sociais e estruturais o povoado de Teixeira de Freitas, em processo de emancipação, ganhou a primeira emissora de rádio, a Alvorada AM, em 1983, fundada por grupos empresariais e políticos quando o país experimentava o fim da censura e discutia uma constituinte.

Contexto que fortaleceu todo e qualquer espaço de difusão e manifestação democrática e os que assim se definiam. Padrão não mais observado em alguns programas da Rádio Câmara que segue na contramão do padrão oferecendo programas como “A voz do cidadão” e “Câmara em Debate” , que colaboram, dentre outras coisas, para que o cidadão perceba a influência da ordem política no seu dia a dia. 

Em Junho de 2018, durante as comemorações do primeiro ano da emissora de Brasília a jornalista Alessandra Anselmo, diretora nacional da Rede Legislativa de TV e Rádio Câmara, festejou o 1º ano de existência da Rádio Câmara destacando que a estação é a voz do cidadão e se estabelece a serviço da sociedade e para divulgar os atos do Poder Legislativo que tem uma grade de programação toda diferenciada das emissoras comerciais e que a Rádio Câmara tem a missão de preservar a educação, a cultura, o meio ambiente, a língua portuguesa, a literatura e assegurar as garantias constitucionais do cidadão por meio do seu jornalismo.

Fonte:  www.camaratf.ba.gov.br

 

TEMPO É DINHEIRO

Por Erivan Santana*

O estudo da semântica é um dos campos mais valiosos da Linguística, ciência que a cada dia ganha mais importância nos meios acadêmicos, passando por constante modernização e aperfeiçoamento.

Isto porque o sentido dos signos linguísticos podem ocultar significados muitas vezes imperceptíveis para o leitor mais desatento. Um bom exemplo é a famosa frase “Tempo é dinheiro”, que se analisada com um pouco mais de exame e atenção é carregada de um sentido extremamente político. Quanto a isso, nos alerta o filósofo francês Michel Foucault: “Tudo é político, tudo pode tornar-se politizável”.

Isto posto, observa-se que a frase desumaniza o homem, pois se o tempo é um dos bens que nos são mais preciosos, ele é colocado inteiramente a serviço do interesse econômico, desconsiderando outros interesses da vida em sociedade.

A partir da revolução industrial e do advento do capitalismo moderno, a questão da produtividade – colocada como um bem maior, acima mesmo de outras necessidades humanas, passou a ser regra básica. Uma das maiores críticas já realizadas a esta ideologia, pode ser vista numa das mais notáveis produções da história do cinema, “Tempos Modernos” do genial e inesquecível Charles Chaplin.

Não é de se estranhar que a depressão e outras doenças do mundo moderno cresçam de forma avassaladora, quando os reais valores que hoje se privilegia são a produtividade extremada e o consumismo cada vez mais crescente, o que tem levado a comunidade científica internacional e os ecologistas, a constantes alertas sobre o impacto de tudo isto sobre o meio ambiente e o equilíbrio dos ecossistemas.

O planeta já não suporta níveis tão elevados de extração mineral, vegetal e animal, para atender às demandas crescentes do consumismo em escala global, quando apenas o lucro e o crescimento econômico são levados em consideração.

É chegada a hora de cuidarmos da vida, do homem e da natureza, antes que seja tarde demais, pois a instabilidade e a insegurança são as marcas mais visíveis da “modernidade líquida”, usando termos de Baumam.

*Erivan Santana

Professor, escritor e poeta

Crônica publicada originalmente no jornal A Tarde, Salvador, 5/9/18

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Roda de Conversa “Violência contra a mulher e representatividade nos espaços de poder

Reuniram-se na sexta-feira, 24 de agosto, na sede FUNPAJ- fundação padre José Koopmans, na cidade de Teixeira de Freitas, militantes de diversos movimentos sociais: ambientalistas, sindicalistas, secundaristas, feministas para uma Roda de Conversa tendo como tema “violência contra Mulher  e representatividade nos espaços de poder”.

 

A atividade contou com a presença de Isadora Salomão, candidata a Deputada Estadual pelo PSOL e foi organizada pelo Núcleo de Mulheres do partido em razão dos altos índices de violência contra a mulher registrados no estado da Bahia e região e da necessidade de abordar a temática como parte do movimento Agosto Lilás, campanha realizada anualmente, durante o mês de agosto, em alusão à data de sanção da Lei Maria da Penha.

 

Lei que trouxe avanços, mas que não assegura a inserção da mulher nos espaços de poder para que essa transformação continue ocorrendo de forma sólida. “Quando falamos em representatividade e de uma nova proposta política é imprescindível pensar na participação da juventude e da mulher como construtora e agente dessa transformação. Só assim conseguiremos uma maior participação popular nos espaços de poder”. Destacou Laís Assunção, uma das organizadoras da atividade.

 

História, Recordações, Relatos, Causos e Memória