O CAUSO DO VINHO EM HELVÉCIA

Na década de 1940, no distrito de Helvécia, município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, antiga Colônia Leopoldina, estabelecida em 1818 por colonos alemães e suíços, atualmente um remanescente de quilombo, a “Dança da Garrafa de Vinho” era muito popular em festas e salões do lugar.

A brincadeira popular girava em torno de uma garrafa de vinho cheia deixada no meio de qualquer salão de dança do povoado para ser entregue como prêmio ao casal que dançasse a noite toda sem tocar ou derrubar a prenda.

Basicamente foi isso  que aconteceu para infelicidade de uma jovem garota do lugar que sem maldade vinha se envolvendo com um homem comprometido que se passou por solteiro, narra um causo contado por uma moradora da época.

Segundo a narrativa, ao saber do envolvimento do marido com a jovem a esposa traída e os familiares do pula cerca, preocupados com as consequências do envolvimento, batizou uma garrafa de vinho em um Terreiro local e colocaram no centro do baile organizado por eles e endereçado a jovem enganada.

Para esse baile diversas pessoas foram convidadas, dentre estas a inocente garota que chegando ao lugar ficou sozinha sem um par. O conquistador não apareceu, pois sabendo que se tratava de uma festa organizada na casa de um familiar corria o risco de ter o caso exposto.

Durante a festa um cavalheiro habilidoso e mal intencionado convidou a solitária apaixonada para dançar e assim o fez durante a festa. O dançarino com muita destreza dançou do início ao fim sem derrubar a garrafa deixada no centro do salão festivo.

Como manda a brincadeira no final do baile o casal vencedor ganhava a garrafa com vinho para servir ou beber juntos com os amigos, porém orientado o dançarino dispensou sua parte deixando exclusivamente para sua acompanhante de dança.

A garota satisfeita com a prenda convidou alguns amigos e foi para casa beber, sorrir e conversar. Como era por direito tomou uma dose do vinho antes de servir aos outros que aguardavam ansiosamente pela prenda, algo que não aconteceu, pois logo um mal súbito a atacou de forma fulminante.

Diante da situação, os companheiros concluíram que o vinho não havia feito bem a amiga que passou a sentir infinitas dores na cabeça e fungar lagartas pelo nariz. Assustados com tudo que vinha ocorrendo os amigos e familiares a embarcou no primeiro trem da companhia Bahia – Minas, linha férrea que ligava o povoado a cidade fronteiriça mais próxima, a mineira Nanuque.
Na cidade a turma buscou a orientação de uma “Mãe de Santo Mesa Branca” chamada Dona Sofia, que era conhecida por desfazer trabalhos feitos e “coisas mandadas”. A experiente Mãe, orientada pelos seus guias, teve a visão do mal que estava agindo dentro da apaixonada provocando dores e tormentos terríveis.

Com muita fé e trabalho a Mãe de Santo conseguiu livrar do sofrimento e das dores constantes a garota que tinha cometido apenas o pecado de acreditar demais no seu amado. Dona Sofia só não conseguiu acabar com o fungar das lagartas que a atormentou pelo resto da vida.

Fonte:

Maria Ronaldo – Teixeirense  de coração, nascida e criada em Helvécia.

Foto: Estação da estrada de Ferro Bahia -Minas de Helvécia. 1950. https://www.estacoesferroviarias.com.br

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

As faces da cultura popular no extremo sul : Primo e Sobrinho

Em Teixeira de Freitas a dupla de violeiros “Primo e Sobrinho”, formado pelos irmãos Vantuil de Freitas Correia (80 anos) e Jair de Freitas Correia (78 anos) , filhos da fazenda Nova América, uma das comunidades pioneiras da cidade, é um bom exemplo de como a moda de viola é comprometida com as coisas da terra e cultura regional.

A dupla que tem apenas um CD gravado já é bem conhecida graças a presença constante em programas de rádio e festas populares de Teixeira de Freitas, onde através da sua música exalta a paisagem, o sentimento e a cultura popular do extremo sul da Bahia, como é possível notar na letra da música “Cantinho do meu Brasil” que fala da região que Vantuil deixou para trás na década de 1950 quando migrou para o estado de Minas Gerais.
Naquela tempo existia a proposta de fazer de Teixeira uma cidade planejada, o projeto não vigou e o terreno loteado foi transformado no bairro Monte Castelo.

Ainda de acordo com a dupla de violeiros que também canta sobre outras paisagens a valorização da cultura e memória da terra é uma característica da moda de viola que fazem questão de preservar apesar da falta de atenção e incentivo das instituições voltadas para promoção da cultura no estado e na cidade.


Cantinho do meu Brasil: exaltação da  região

Para além disso, sem recursos, a dupla tem um sonho, gravar um novo CD com algumas músicas de um imenso catálogo musical inédito, dentre estas as canções “Mamãe África”, sobre a origem dos pioneiros e a escravidão no extremo sul baiano e a música “Saudades da Bahia”, relativo a bucólica zona rural teixeirense da época do povoado quando a moda de viola era o estilo mais conhecido e tocado por todos da micro – região.

“Sempre e em todos os povoados, como também nas roças, se encontravam pessoas que tocavam vários instrumentos musicais. Violão, pandeiros e acordeão faziam parte da vida do povoado onde sempre existiam vários tocadores destes instrumentos. Assim cada fim de semana havia “um baile nos botecos,” escreveu Padre José Koopmans no livro Além do eucalipto. O papel do extremo sul.

Para o músico Marcos Marcelo, do blogue Teixeira Musical, o trabalho e o sonho dos violeiros teixeirenses evidência como a cultura popular é resistente diante da dificuldade e falta de apoio e financiamento público. “Mais artistas dedicariam a exaltar e divulgar a cultura da terra se houvesse incentivos públicos (federação, estado e municípios) para realização desse tipo de trabalho.”

Daniel Rocha da Silva*

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“Dio, come ti amo!” Por que esse filme fez grande sucesso na cidade?

Por Daniel Rocha*

A década de 1960 ficou marcada dentre outras coisas como a década em que se instalou no então povoado de Teixeira de Freitas a primeira sala de cinema, o Cine Elisabete. Inaugurado em 1964 à sala teve como primeiro fenômeno de público o filme hispano – italiano Dio, come ti amo! (1966) que falou à geração da época.

Segundo o proprietário do Cine Elisabete, o senhor José Militão Guerra (em memoriam), em entrevista cedida em 2009 ao trabalho monográfico: O cinema e o imaginário popular na cidade de Teixeira de Freitas na década de 1960 a 1980, o filme italiano foi o primeiro fenômeno de público da sala que funcionou de 1966 a 1970, ao lado de onde hoje fica a loja de calçados Boroto.

Ainda de acordo com o senhor Militão, naquele tempo que não existia no então povoado energia elétrica, televisão ou emissora de rádio, o cinema foi uma grande novidade que empolgou os moradores da zona rural próxima e a juventude do então povoado, principalmente algumas meninas, que viviam da escola para casa ou de casa para igreja.

Por isso para elas ir o cinema era uma ocasião especial, momento de sair de casa junto aos irmãos mais velhos ou com os rapazes de confiança da família, relatou uma antiga moradora, Marli Gomes, em 2009, queixando se do excesso de vigilância em uma época que aumentava o trânsito na região com início da circulação de ônibus intermunicipais ligando Teixeira a outras cidades próximas e abertura das primeiras escolas.

Março de 1966: anúncio de novas linhas de ônibus .

Contudo, apesar do conservadorismo local vigente, típico do interior, eram os anos de 1960, década que a música italiana e Rita Pavone experimentava grande popularidade e o movimento feminista reivindicava, nos grandes centros, direitos iguais e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões patriarcais, baseados em normas de gênero através do debate público.

É nesse contexto que o filme “Deus como eu te amo!”, que traz uma mulher como protagonista, atraiu grande público para a primeira sala de cinema da cidade transformando-se no filme mais assistido daquela época e de todo o período que o Cine Elisabete esteve em atividade, sempre com relativo sucesso.

No filme, Gigliola Cinquetti é uma jovem e humilde nadadora napolitana que vai concorrer em uma competição na Espanha e acaba se apaixonando pelo noivo de sua melhor amiga. Mas quando eles vêm visitá-la na Itália, ela finge ser rica, com a cumplicidade dos pais para viver o amor impossível e um beijo proibido.

No livro “A história do amor no Brasil”, a historiadora Mary Del Priore observa que nesse período o cinema passou a apresentar cada vez mais personagens livres e desapegados a regras e tradições.  Comportamento que foi sendo aos poucos comunicado pelo cinema incentivando as pessoas a se relacionarem sem sentimento de culpa ou reprovação.

Cena clássica: Beijo proibido

De acordo com o relato de moradores da época a fita atraiu  um público formado, em sua maioria, por adolescentes  que  no final da sessão saíam cantarolando a música tema do filme e provavelmente sonhando com a liberdade  dos personagens e o mesmo protagonismo da mocinha romântica…. Apesar da simplicidade e alguns clichê do enredo.

Fonte:

ROCHA.Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed – São Paulo: Contexto, 2006.

Foto: Avenida Marechal Castelo Branco, Centro, Teixeira de Freitas – BA. Ano desconhecido. Ponto de embarque de ônibus próximo o antigo Cinema.

Daniel Rocha da Silva*

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VIDAS NEGRAS IMPORTAM

Por Erivan Santana*

Os historiadores costumam dizer que o tempo dá voltas, e a História, enquanto ciência humana e social, move-se entre o passado e o presente, com consequências para o futuro. Pois é exatamente isso o que está acontecendo no momento, particularmente nos EUA e também na Europa. 

Sendo um dos berços dos movimentos de contracultura dos anos 60, grande parte da sociedade americana se insurge contra o preconceito racial e a violência policial, revivendo todo o clima, o cenário dos movimentos sessentistas, já citados. É importante lembrar que estes movimentos nos EUA, dialogavam à época com o famoso Maio de 68, na França, mais precisamente em Paris. Não por acaso, a França, assim como outros países europeus, se insurgiram contra tais injustiças, cujo exemplo mais recente foi o assassinato de George Floyd.

Entretanto, aqui no Brasil, fez-se um silêncio incômodo, no triste episódio que vitimou João Pedro, e mais recentemente, Miguel. Parece que a sociedade brasileira se acostumou com as perdas humanas, num claro exemplo do que nos diz Hannah Arendt em “a banalidade do mal”.

Georg Simmel, importante sociólogo alemão, também nos fala sobre este fenômeno, que para ele, ocorre quando determinadas sociedades se acostumam com a intensidade de notícias e deslocamentos próprios da globalização, gerando um mecanismo de “autodefesa”, em que o indivíduo passa a se proteger, sem se preocupar com o próximo.

No caso dos EUA e da Europa, é preciso compreender que estas sociedades hoje, são muito plurais, tanto do ponto de vista étnico, como cultural. A globalização oportunizou não somente a comunicação intensa entre os povos, mas também a sua fácil locomoção, e cidades como Nova York, Paris e Londres, provavelmente sejam claros exemplos desta pluralidade em escala global. Visto por este ângulo, passamos a compreender melhor porque estes movimentos acontecem com tanta intensidade nestes países, refletindo os seus anseios por igualdade e justiça social.

Neste contexto, as ciências humanas vêm ganhando cada vez mais importância e influência nos currículos escolares, em que a História, a Filosofia e a Sociologia são chamadas a explicar um mundo cada vez mais dinâmico e em construção, numa perspectiva humana, crítica e cidadã, tendo a liberdade de imprensa um papel também imprescindível neste processo, principalmente se for livre, ética e independente, levando-se em consideração, a influência e a força da comunicação nos dias atuais, onde ela se faz por múltiplas plataformas, e quando se diz “o mundo está na palma da sua mão”, é literalmente, uma realidade. Que todas essas tecnologias possam estar a serviço da ética, da justiça social e das vidas humanas, é o que desejamos.

*ERIVAN SANTANA. Crônica originalmente publicada no jornal A Tarde, Salvador, 10/06/2020.

Foto: Google Imagens

Nos tempos da escravidão I: Um quilombo em Caravelas

Por Daniel Rocha

Todo mundo que tenha passado pela escola ou assistido qualquer produção televisiva de época já ouviu falar da escravidão no país e sua influência e impacto na formação da sociedade brasileira e cultura nacional, contudo são poucos que já ouviram falar da presença dos negros escravizados no extremo sul da Bahia e da luta e resistência do “Quilombo Império” ocorrido no século XIX nos arredores de Caravelas.

A narrativa sobre esse acontecimento foi pesquisada no livro “Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil, da pesquisadora/ historiadora Yuko Miki. Segundo a narrativa do livro, depois da proclamada a independência do Brasil os negros escravizados desta parte do litoral organizou quilombos e levantes em resistência ao regime escravista, principalmente em Caravelas (BA).

Nos cinco anos seguintes à revolta, quilombos e agitações de escravos continuaram a proliferar em Caravelas ( BA) e São Mateus (ES) alimentando os temores de uma guerra racial semelhante ao Haiti, primeira nação independente do Caribe, república negra do mundo a abolir a escravidão. A independência do Haiti foi proclamada em 1.º de janeiro de 1804.

Em 1828 o “Quilombo Império,” fixados na mata próxima a cidade, que reuniu grande quantidade de negros fugitivos lutou fazendo uso de armas de fogo, arcos e flechas, armadilhas e armas ocultas quando uma expedição anti-quilombo invadiu o lugar.

A expedição anti-quilombo matou três quilombolas e capturou homens e mulheres, mas permitiu que o líder ferido escapasse. No entanto, mesmo com a destruição deste quilombo em particular diversos quilombolas, mais da metade, permaneceram circulando pelas matas em torno de Caravelas.

Tal fato levou o capitão solitário do lugar, encarregado das principais expedições, declarar sua desistência a justiça de paz de Caravelas: “Sempre haverá escravos fugitivos nessas florestas, porque estão todos dispersos, há muitos campos e numerosos escravos, com mais de cinquenta, oitenta ou cem cativos, com apenas um capitão de mato neste distrito.”

Na luta pela independência do Brasil que culminou com a expulsão dos portugueses do país, especialmente na Bahia, onde os lusitanos tentaram resistir, os negros participaram do enfrentamento ao lado das autoridades baianas.

Em tese, após esse evento os  afro-descendentes não aceitaram mais os moldes de opressão do antigo sistema colonial que esperavam ver modificados antes e depois da luta pela independência. Criando seu lugar de história e resistência, como o “Quilombo Império”.

Fonte: 

MIKI.Yuko. Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. 2018. Pg. 66,67,68.

Daniel Rocha da Silva*

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Teixeira de Freitas 2006: Cemitério fez um puxadinho para os pobres

Por Daniel Rocha

Na morte somos todos iguais, certo? Nem sempre. O lugar do descanso eterno depende de quanto à família dispõe para pagar pela cova. Em 2006 em Teixeira de Freitas, BA, os administradores do cemitério Jardim da Saudade providenciaram um ‘puxadinho’ em uma área pública próxima para enterrar os mortos mais pobres.

Vinte anos depois da abertura, o Jardim da Saudade, ou como era conhecido “Cemitério Novo”, então o único em atividade na cidade, havia esgotado sua capacidade de sepultamento e diante disso uma área alagada de 1.100 metros quadrados, cheia de lixo que servia de pasto para cavalos,” foi transformada pela Prefeitura em um “recinto extra” para as famílias que não tinham R$ 261 para comprar uma vaga e enterrar seus parentes na área oficial.

“Só temos um cemitério na cidade, e quem não paga realmente está sendo enterrado em outro local”, disse o então secretário de Infraestrutura, Marcelo Antônio de Azevedo a reportagem do Jornal Alerta que registrou essa perspectiva sobre o fato.

A notícia também repercutiu nacionalmente através da versão virtual do paulista Folha de São Paulo, de 26 de Abril de 2006. De acordo com o jornal o “cemitério gratuito” foi criado pela prefeitura a menos de 30 metros do Jardim da Saudade, rua de trás. Na época da reportagem o “puxadinho”, hoje conhecido como Jardim da Saudade II, já tinha cerca de 150 corpos enterrados no local.

Lixo no entorno. Foto 2011

“Aqui não existe nenhuma dignidade, há cachorros e muito lixo o tempo todo. Não sei como as pessoas não que moram perto daqui não reclamam porque os urubus não saem do local”, disse o agricultor Fernando Santos Oliveira, 41, ao periódico paulista.

Sobre os responsáveis pela administração do Jardim da Saudade explicou que as famílias que não podiam comprar uma vaga na área oficial do cemitério eram enterradas no “puxadinho”ao custo de R$13 , valor referente a um “aluguel” de três anos. Depois os restos mortais seriam recolhidos a um depósito no cemitério.

“Aqui é uma área de alagamento se a gente cavar um pouco a água começa a minar”, reclamou o aposentado Carlos Albuquerque dos Santos, 70, em uma versão do texto publicado no jornal local Alerta de 23 de abril de 2006.

Ainda de acordo com o impresso local de maio do mesmo ano, a repercussão dos fatos motivou a demissão dos responsáveis pelo prefeito da cidade Apparecido Staut.

Considerando a perspectiva apresentada é possível supor que diante da falta de espaço no cemitério os responsáveis seguiram a lei de ocupação comum na área urbana da cidade para determinar o lugar que cada um deveria ocupar, a lei do mais forte e do mais influente, e a não
consciência igualitária popular existente sobre a morte.

Fontes:

FRANCISCO. Luiz. Prefeitura improvisa cemitério para famílias carentes na BA. Jornal Alerta , edição 672. 23 a 26 de abril. Teixeira de Freitas. 2006.

Matéria do cemitério derruba secretário de Infraestrutura. Jornal Alerta. Maio 2006.

Foto: Imagens 2011

Daniel Rocha da Silva*

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CONSEQUÊNCIAS DO COVID-19

Por Erivan Santana*

Com a pandemia do covid-19, muitas situações vieram à tona, entre elas, a assustadora realidade revelada, quando do anúncio do auxílio emergencial, ao ser constatado que ¼ da população brasileira, pouco mais de cinquenta milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Os dados são preocupantes, principalmente, quando se sabe que o atual governo federal pretende instaurar no país um projeto de estado mínimo.

No mundo desenvolvido, a exemplo dos países europeus, ainda que alinhados ao capitalismo liberal, existe uma ampla rede de proteção social instalada, principalmente em áreas vitais, como saúde e educação. No Brasil, mesmo com as deficiências causadas pela falta de investimento e estrutura, o SUS está sendo a salvação de muitos brasileiros e de muitas famílias, levando-nos a uma conclusão clara, a de que é preciso cuidar e valorizar o SUS cada vez mais.

Na área da educação, outras realidades vão sendo mostradas diariamente, a toda a população, qual seja, a falta da inclusão digital em nosso país, num momento em que se necessita do apoio pedagógico aos alunos através da internet. Embora todos saibam que a aula presencial, mediada pelo professor, seja imprescindível, até mesmo atendendo a um princípio elementar em educação delimitada por Vygotsky, qual seja – “o educando aprende e desenvolve suas habilidades e competências no convívio social”, o apoio ao aluno via digital neste momento seria bem vindo. Entretanto, a questão da desigualdade social pesou mais uma vez; são poucos no país os que tem acesso à internet de qualidade, além de possuir bons equipamentos, condições necessárias para que aulas on line possam ser desenvolvidas com sucesso, ainda que de forma assistencial e complementar, como já mencionado.

Em meio a tudo isso, uma outra questão se coloca, qual seja a realização do ENEM. Afinal, seria justo a sua realização neste momento, uma vez que os alunos das classses populares, que têm sua base de apoio na escola pública, estarem neste momento sem acesso a ela? Além disso, é bom lembrar, exsite também o risco da aglomeração de pessoas, que um evento dessa natureza proporciona, neste momento perigoso e delicado da pandemia do covid-19, o que tudo somado nos leva à conclusão de que o mais prudente seria adiar o ENEM, o que felizmente, foi feito, diante das reivindicações da sociedade organizada.

Enquanto tudo isso aocntece, vamos vivendo um dia de cada vez, onde sentimentos de medo, saudade, fé, dúvidas, alegria e tristeza, se misturam, com um horizonte totalmente incerto à nossa frente, onde a única certeza que temos é que o mundo pós covid-19 nunca mais será o mesmo.

ERIVAN SANTANA

Artigo originalmente pulbicado no blog “Um café para Sócrates”

Histórias ocultas nas fotos antigas de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

Para além do foco, algumas fotografias antigas da cidade guarda surpresas ocultas que trazem informações do tempo registrado que às vezes passam despercebidos por quem olha como o conjunto de escolhas, o lócus social definidos e a visão política e do tempo histórico de quem registrou.

Dessa forma, para o início dessa série que se propõe a analisar algumas fotografias, selecionamos um registro de uma parte do centro da cidade que tem como tempo natural o dia e como  tempo cronológico o mês de outubro de 1982 do século XX.

O autor foi identificado por fontes como sendo “Dr. Fortunato”, um fotógrafo amador, sem vínculo com instituição ou imprensa que prestou grande serviço a história ao fotografar o cotidiano e algumas paisagens da cidade.

Foto sem filtros

Nos termos técnicos a fotografia traz um grande plano geral preenchido em sua maior parte pelo ambiente e paisagem urbana de uma parte do ainda povoado de Teixeira de Freitas. Na parte inferior registra a entrada da rua Prudente de Morais, parte do entroncamento com a  rua Pedro Álvares Cabral.

Na foto é possível perceber uma parte do fundo da lateral do prédio do antigo Sindicato patronal dos produtores Rurais de Teixeira de Freitas, antigo hospital Santa Lucia onde atualmente funciona o Ambulatório Central.

Pichação no muro

Na parede do prédio do sindicato patronal uma pichação com os dizeres “P/ Prefeito Wilson Brito” se destaca. Em tese a pichação faz parte da prática política da época. A fotografia foi registrada um mês antes da realização do pleito de 1982 que teve como eleito o residente Wilson Brito. Período que segundo relatos e pesquisas este tipo de ação era comum.

A escolha da paisagem pelo fotógrafo não foi qualquer, a fotografia traz uma paisagem modificada pela ação contínua do movimento das classes trabalhadoras e dominantes sobre o meio natural, já não existente no então povoado de Teixeira de Freitas, dividido entre os municípios de Alcobaça e Caravelas. 

Casa e cor da década de 1980

Na paisagem ainda é possível observar uma maior ocupação de espaços por casas, havendo poucos terrenos baldios, o que indica que do ponto de vista imobiliário aquela região já era mais valorizada, logo habitada por pessoas de melhor condições financeiras, fato evidente na arquitetura e formato das casas.

O lado fotografado pertencia ao município de Alcobaça que dispensava uma atenção maior ao povoado, ou seja, o registro traz uma visão da parte onde se localizava as melhores habitações e às desmazelas urbanas não eram tão gritantes, haja visto que o povoado ainda não havia recebido investimentos suficientes em obras de infraestrutura básica, apesar  fluxo de carros e pessoas vistos nas ruas.

O horizonte como destino

No enquadramento geral, se vê, através dos exemplos, um olhar influenciado pela visão desenvolvimentista que norteava a política nacional e local da época, expressa no espaçoso horizonte a ser alcançado pelo “próspero povoado” captado como a imagem e realidade a ser lembrada no futuro… Uma informação explícita e ao mesmo tempo oculta na foto vista por muitos como “um registro de como era Teixeira  de Freitas no passado”.

Fonte:

MAUAD. Ana Maria. Através da imagem: Fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, vol.01,.02. p 73 – 98.

 GUERRA, Jailson C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

Daniel Rocha da Silva*

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Trancoso e as contradições no paralelo 17°

Por Daniel Rocha

O município de Porto Seguro, Extremo sul da Bahia, é cortado pelo paralelo 17° s, uma localização geográfica que segundo uma visão mística faz aumentar o clima de sedução e desejo dos turistas que chegam para visitar suas praias e distritos como Trancoso, uma vila “paz e amor” rodeada por contradições urbanas.

Trancoso fica no exato lugar por onde passa a linha que  corta lugares  como Goa e Bali na Indonésia e países como Vanuatu e Polinésia Francesa, que em tese tem o poder místico de despertar a sexualidade e o instinto de liberdade em quem chega para visitar, como os jovens hippies da década de 1970 que ocupou a então pequena vila de Trancoso transformando seu espaço e economia potencializando contradições.


Igreja de São João Batista

Hippies oriundos de todas as partes do Brasil e do mundo, Alemanha, Suíça, Canadá, que sem querer querendo, foram transformando o lugar em um conhecido destino turístico mundial intervindo fortemente na conservação das casas coloniais e de monumentos como a igreja de São João Batista, de 1656, restaurada na década de 70 pelos jovens imbuídos de autoeficácia e liberdade.

Nesse espaço de tempo outros migrantes, vindos de todos os lados do Brasil, também foram ocupando o espaço do distrito e adquirindo terrenos localizados à beira-mar e  também as residências do entorno da Praça do Quadrado, lugar onde até 1975 residia famílias nativas que sobrevivia de pequenos cultivos, pesca e exploração da madeira.

De modo que, com o passar das décadas, a ocupação foi empurrando aos poucos a população nativa para áreas mais distantes das praias como a dos atuais bairros Trancosinho, Maria Viúva e Vila Xando, comunidades que no presente sofrem, como todo lugar que nasce em meio a contradições urbanas, com problemas estruturais e tráfico de drogas.

Dessa forma, o distrito de Trancoso combina no presente o seu passado de aldeia colonial historicamente constituída e mesclada pela cultura nativa, católica e africana com o clima e discurso místico dos ideais hippie do “Paz e amor” em meio às contradições das divisões urbanas e suposta energia do paralelo 17°s que segundo a lenda faz aflorar uma aura mística nos milhares de turistas de todo o mundo que visita o lugar todos os anos em meio às contradições e contrastes ocultos nas propagandas turísticas.

Daniel Rocha da Silva*

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Teixeira 35 anos: Algumas curiosidades do cotidiano do ano da emancipação

Por Daniel Rocha

Em uma cidade que se tornou predominantemente urbana no modo de viver a população não escapou e nem escapa de ter a memória marcada pelas mídias de difusão em massa que influenciaram e influenciam experiências sensoriais e coletivas. Dito isso, o site selecionou algumas curiosidades que mostram a dinâmicas  cotidianas e culturais do ano da emancipação.

01 – Quando Teixeira de Freitas foi emancipada no dia 09 de maio de 1985 a cidade já contava com uma razoável estrutura de equipamentos comunitários com dois clubes (Jacarandá e Floresta) dois cinemas (Cine Brasil e Cine Horizonte) e duas estações de rádio (Difusora e Alvorada AM). Uma estação repetidora de sinal de TV para 02 canais, um estádio de futebol e três praças no centro da cidade.

02 – A cidade era servida por uma linha de ônibus urbanos atendida por dez coletivos que ligava a Escola Média de Agropecuária da CEPLAC-EMARC à Vila Vargas, passando pelo bairro do Trevo, Avenida Presidente Vargas e centro da cidade. O horário usado pelos os alunos da EMARC eram evitados por alguns devido a “zoação” da rapaziada no ônibus.

03 – Na época o Centro educacional professor Rômulo Galvão além da educação básica ofertava cursos técnicos em nível de segundo grau. Naquele ano o ensino noturno estava em alta e tinha como alunos trabalhadores do comércio, moças e rapazes. Alguns que,  depois da aula, ficavam na Avenida Getúlio Vargas a espera de seus pares.

04 – Os artistas da cidade formavam um coletivo chamado “Consciência” que reunia variados artistas como artesãos, escultores, cantores e poetas que promoviam no último domingo de cada mês uma feira artística livre na Praça da Prefeitura e shows com talentos musicais no palco do Cine Brasil, que também era uma espécie de casa de espetáculos da cidade.

Icônico LP. O som local da emancipação.

05- Para além dos destaques da paradas musicais nacional e internacional , as emissoras de rádio teixeirenses  também era lugar  aberto para a  música e músicos locais como o popular Carlitos Gomes que naquele ano (1985) lançou o icônico LP “Quero Ter seu amor,”  com músicas populares e genuinamente teixeirense que  invadiu os bares, boates e outros espaços da cidade recém- emancipada.

06 – No Cine Brasil, estima-se que o filme “Os Trapalhões no Reino da Fantasia” atraiu, como toda fita do grupo de Renato Aragão, uma multidão para sala mais procurada da cidade alguns meses antes da realização da primeira eleição municipal de Teixeira de Freitas. 

07 –  Na cidade emancipada o domingo era dia de jogar futebol nos diversos campos espalhados pelos bairros do município . No estádio municipal as equipes profissionais de grande destaque como o CEFBOL (Clube Estudantil de Futebol) ,criado com o apoio dos estudantes do CEPROG (Centro Educacional Professor Rômulo Galvão), conquistava com destaque os torcedores. Com a emancipação as equipes locais puderam enfim organizar oficialmente a chamada L.F.T.F. (Liga de Futebol de Teixeira de Freitas), concretizada em 1987.

08 – No dia da emancipação a TV Globo, uma das duas emissoras sintonizadas na cidade, reprisava a novela “Elas Por Elas” no “Vale a pena ver de novo” e a Sessão da Tarde exibiu o filme “Por Um corpo de Mulher.” Durante a noite exibiu também a inédita “Corpo a Corpo” novela das oito que em Teixeira era acompanhada por uma população que dividia a sala e as janelas com os vizinhos que não tinham TV.

09 – Enquanto a cidade emancipada sonhava com uma Biblioteca pública, o livro  “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera, dominava o topo da lista dos mais vendidos do país. Lançado em 1982 a obra estaria disponível na cidade se houve um melhor acesso a leitura.

10 –  Até 1985, quando foi promulgada a Emenda Constitucional nº 25 à Constituição de 1967, os analfabetos não tinham o direito de votar, viviam à margem da democracia no país. Por isso muitos não puderam participar do plebiscito sobre a emancipação da cidade realizada em no final de 1984. Curiosamente o Congresso Nacional aprovou o direito ao voto na noite do dia 08 de maio de 1985, um dia antes do governador do estado oficializar a emancipação da cidade. A aprovação permitiu a participação dos não alfabetizados na eleição que elegeu o primeiro prefeito em 15 novembro de 1985.

Fontes:

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. Janeiro 1985.

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB, Campus X – 2010

DETHLING, William Moacir. Teixeira de Freitas entra em campo: A história do futebol da cidade de Teixeira de Freitas entre os anos de 1970 e 2000. UNEB – X. 2011.

JB. Programação da TV. 09 de maio de 1985. 

Carlitos Gomes: http://dicionariompb.com.br/carlito-gomes/discografia

O causo da Marrom Glacê e a copa de 1986: 

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Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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