Um relato sobre a “Gangue da Lagoa” de Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Em meados da década de 1990 causos e narrativas sobre a “atuação violenta” da “Gangue da Lagoa” aterrorizava moradores e estudantes de Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia. Um antigo membro conta detalhes da formação e fim do grupo juvenil.

Se não todos, pelo menos a maioria dos teixeirenses que foram estudante na década de 1990 ouviram falar da “Gangue da Lagoa” que era formada por moradores, adolescentes de 14 a 17 anos, da comunidade localizada no centro da cidade popularmente conhecida como “Bairro da Lagoa”. O nome faz referência ao antigo lago existente no lugar.

A extinta “gangue” atuava em defesa dos moradores e do território localizado entre as avenidas Presidente Getúlio Vargas e AV. Marechal Castelo Branco, centro da cidade, que no passado serviu de refúgio para famílias de trabalhadores pobres e tinha parte de sua área coberta pela lagoa, posteriormente soterrada pelo pó de serra, oriundas de uma serraria, e a construção do Shopping Teixeira Mall.

 

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Mapa da cidade de 1977 evidencia a lagoa no centro do bairro

 

Mesmo sendo algo que povoa o imaginário popular durante dois anos (2015 e 2016) conversando informalmente com alguns dos moradores residentes na comunidade não encontrei alguém com disposição para falar sobre a “gangue”, seus integrantes, causas ou narrativas da suposta atuação violenta da mesma.

Diante das dificuldades encontradas a busca estava centrada no silêncio, até que nos últimos meses o estudante do curso de Humanas da UFSB – Lucian Salviano me procurou em busca de algumas informações sobre a violência na cidade.

A princípio interessava ao estudante compreender o contexto que antecedeu a instalação do Conjunto Penal de Teixeira de Freitas no ano de 2001 e o histórico da violência em Teixeira de Freitas. Sobre compartilhei textos e documentos e durante uma conversa informal relatei os casos de violências associados a “Gangue da Lagoa” e as dificuldades encontradas para gerar registros.

Ocorre que o estudante é morador criado na comunidade da Lagoa e já estava a coletar informações sobre o grupo com fácil acesso a antigos membros da gangue, diante disso ele disponibilizou algumas informações sobre a formação e atuação dos juvenis anotadas durante uma conversa realizada com Abel Nascimento, um dos participantes do grupo, que concordou com a divulgação.

 

A Gangue da Lagoa por Abel Nascimento

Morador da comunidade a mais de 40 anos Abel, que tem aproximadamente essa idade, conta que a princípio os jovens que formaram o grupo na década de 1990 se conheceram e criaram afinidades brincando e jogando futebol nas imediações do pó de serra, rejeitado, pela Serraria Ronimar que ficava na extremidade norte do bairro posteriormente ocupado e tomado por outros empreendimentos comerciais.

 

De acordo registro feito por Salvino na adolescência o grupo passou a frequentar o clube do lugar, Cabana Nova Onda, conhecido pelos bailes e os concorridos concurso de ritmos dançantes. Segundo Abel a badalada cabana começou a atrair grupos organizados de outros bairros, provocando neles a necessidade de marcar o território por conta de questões relacionadas a relacionamentos amorosos  e tensões com outros grupos.

Por essas razões, segundo Abel, o grupo foi formado é denominado “Gangue da Lagoa” ao qual faz questão de afirmar que não se tratava de um grupo organizado como denota a classificação e nem tinha no primeiro momento outro objetivos a não ser o de defender o bairro da invasão dos de fora  e medir forças, sendo esse o motivo principal.

Contudo havia uma estrutura hierárquica uma vez que o mesmo informa que havia um líder. A gangue costumava fazer uso da praça dos Leões como ponto de encontro e também tinha o Beco do Belo, localizado no bairro, como referência.

 

Texeira final

 

Acrescenta que só em meados dos anos de 1990 (1994 a 1996) a rivalidade do grupo, formado por homens e mulheres, extrapolou a delimitação do bairro e começou a ser respondido com troca de agressões e violência na porta das escolas causada pelos mesmo motivos e tensão vivida na comunidade.

Nesse período a gangue cresceu de forma assustadora e “introduziu” o uso de armas de fogo, fato que fez aumentar os casos de confrontos, reações violentas e incidentes fatais que custaram “a vida de alguns”, o que levou a sociedade a exigir uma “repressão maior do grupo” por parte das autoridades.

Relatou que o grupo passou dos limites quando em confronto com outra gangue, provavelmente a do Castelinho, na Exposição Agropecuária de Teixeira de Freitas, se envolveu em uma arriscada troca de tiros.

Tal fato, segundo conta, levou a polícia, dias depois, intervir na situação detendo 170 pessoas, homens e mulheres, para atividades socioeducativas no batalhão da cidade, algo que segundo disse foi fundamental para o amadurecimento de todos e para o processo de extinção da gangue.

O morte de uma pessoa querida e o fim da gangue

O outro fator por ele apontado como uma das causas que levou o fim da formação além da intervenção policial foi a morte de uma pessoa querida no grupo o “Helinho” que ao fazer “uma bobagem” fora executado com 17 tiros aos 17 anos em uma área dominado por outra gangue na região do Mercado Caravelas. Fato que assustou e serviu de alerta para maioria dos membros.

Ainda sobre o período de atuação do grupo, informou que a gangue teve seu auge nos anos de 1991 e 1992 e o declínio ocorreu entre os anos de 1995 e 1996. Sobre o presente diz sentir que ainda existem receios quanto ao bairro, mas tudo não passa de um velho preconceito uma vez que os antigos participantes e moradores do lugar são pessoas comuns, trabalhadoras e do bem.

 Através dos relatos é possível perceber que os jovens da Lagoa viram na formação do grupo uma forma de adquirir um reconhecimento que não tinham socialmente, dedicando a defesa do território. Espaço que ao ter sua geografia natural alterada por empreendimentos comerciais, fez emergir questões relacionadas ao baixo desenvolvimento social existente na cidade, pobreza, falta de oportunidade e marginalização, entendido por alguns como uma causa e não uma consequência. Como um caso de polícia.

 

 

Anos 80 em Teixeira de Freitas e o reisado de Dona Boló

Por (Daniel Rocha)

O Reisado ou Folia dos Reis é uma tradição católica que consiste em um grupo de cantores e instrumentistas fantasiados que prestam homenagem aos três Reis Magos e ao menino Jesus. No Brasil apresenta-se sob diversos aspectos.

Em Teixeira de Freitas a tradição e anterior a formação do povoado  na década de 1950. No presente a não realização está associada às mudanças de comportamento  ocorridas nas últimas décadas na cidade e no país.

No bairro Bela Vista, ao que tudo indica, a tradição foi mantida por algum tempo,1978-1983, pela moradora Maria da Ressurreição Manuel natural da comunidade rural  Serrinha onde nasceu no ano de 1940.

A serrinha é uma comunidade rural formada inicialmente por famílias negras localizada às margens da BA-290, próxima à entrada do aeroporto 9 maio. Até a década de 1980 a comunidade pertencia ao município de Alcobaça, no presente faz parte do município de Teixeira de Freitas.

Filha de Maria José da Conceição e “pai aventureiro” Maria da Conceição,(foto 02) que é mais conhecida pelos moradores do bairro Bela Vista como Dona Boló  narrou , durante uma conversa informal no ano de 2014, o seu envolvimento no reisado.

Conta que se interessou pela tradição porque cresceu encantada pelas apresentações de reisados realizados naquela comunidade por uma mulher conhecida como Tia Joana.

Quando já estava “crescida” passou a fazer parte da turma e assumiu o cargo de pastora. Tempos depois assumiu o cargo de mestre cujo a função era organizar e puxar o grupo entoando cânticos.

Após alguns anos sem participar, período de casamentos e filhos, mudou-se para o povoado de Teixeira de Freitas no ano de 1978, onde enfim, com a ajuda dos amigos das antigas Turbidez (foto 03) , Caboclo e Bituca, formou um grupo de reisado aos moldes da Serrinha.

O grupo era formado por doze pessoas, homens e mulheres, divididas em dois cordões, filas, com três pastoras e dois marujos cuidadosamente fantasiados além de um guia.

Segundo Isidro Nascimento que recebeu o grupo em sua casa em algumas ocasiões,  no grupo também havia o Boi iaiá (foto 01) que também acompanhava o grupo . “Tinha como função assustar  crianças desobedientes.”

O Reis começava em 06 de janeiro e terminava em três de fevereiro sempre animados com instrumentos como o pandeiro. O grupo saía por volta das 19h cantando pelas ruas do bairro em duas filas separadas, seis marujos de cada lado e cinco pastoras guiados pelo capitão responsável pelo estandarte.

No início a atuação do grupo ficou restrita ao bairro Bela Vista mas diante de diversos pedidos o grupo passou a visitar outros moradores de bairros próximos.

“A gente ia onde era convidado, por isso fizemos várias ruas do bairro, chegamos ir ao Jerusalém e Recanto do Lago na casa de Isidro, a gente passava nas casas brincando até meia-noite… Tinha xote, manjuba, apito e a coreografia dos marujos.”

Sobre a origem do costume na Serrinha Boló recorda que a tradição chegou trazida pelos negros Dona Júlia e Turbides da fazenda Jerusalém, hoje onde o bairro de mesmo nome.

“Foi trazida pelos antigos… naquela época faziam por promessa mas eu sempre fiz por divertimento”.

Apesar da alegria ao recordar o passado uma frustração machuca o coração de Dona Boló, com a saída de Turbidez por problemas de saúde ela não conseguiu terminar o que havia começado.

Isso porque a tradição pede que quem começar um reisado o realize por seis vezes para então passar a outro grupo.

“Faltou apenas uma…Tenho vontade de juntar um grupo para terminar o Reisado que comecei, mas tenho medo da criminalidade e dos malandros. A violência de hoje me assusta, não dar para fazer em lugar fechado tem que ser na rua e elas estão bem movimentadas”.

As recordações da senhora Boló revelam em pequena escala que a população rural ao migrar para zona urbana do povoado ,ainda  que por um tempo, manteve como referências as tradições coletivas da vida no campo. Referências que aos poucos foi sendo reprimida sobre a pressão do espaço delimitado das cidades  e um estilo de vida pautada no individualismo.

Fontes:

Conversa informal com Maria da Ressurreição Manuel 2014.

conversa informal com Isidro Nascimento 2014.

Colaborou com a pesquisa: Domingos Cajueiro Correia

 

Veja também:

Relatos Sobre Os Anos 90 Em Teixeira De Freitas: Parte 02

Praça da prefeitura

O causo do Tatu papa -defunto.

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 01

Os nomes que Teixeira de Freitas já teve

O cine Horizonte

O comércio de Teixeira de Freitas

História da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas

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História do Cine Brasil

O causo do nó da mortalha

Emancipação: História e memória

Em 1973 um caravelense agitou “a capital do extremo sul da Bahia”

Por Daniel Rocha

Com uma aposta de 8,00 cruzeiros, o que na moeda atual equivale aproximadamente 10 reais, o tabelião caravelense Odorico Lopes, na época com 67 anos, dono de um cartório na cidade de Caravelas, e de uma fazenda em Nanuque, MG, acertou sozinho na antiga “Loteria Esportiva” um prêmio de 13 milhões, apontado , até então, como o maior já pago no mundo.

O cartão do vencedor foi perfurado na cidade vizinha de Nanuque, cidade mineira próxima à fronteira entre os dois estados, onde o tabelião tinha uma fazenda de criação de gado, por essa razão as primeiras notícias sugeriram que o ganhador poderia ser  um  nanuquense.

Agitação que chegou a provocar um desmaio e muito movimento na porta da Prefeitura, que precisou de proteção especial para conter a multidão que horas mais tarde acalmou o movimento quando foi divulgado que o ganhador era na verdade  um caravelense.

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O apostador Odorico Lopes

O episódio  faz lembrar algo que é bem conhecido entre os estudiosos da história da região, até a década de 1970 essa parte do extremo sul da Bahia tinha como “capital” a cidade mineira de Nanuque, que era assim chamada  por ser o centro de referência de compras para o vale do Mucuri e as cidades do Extremo Sul da Bahia e norte do Espírito Santo.

Influência construída pelo trânsito constante de mineiros e baianos nos dois lados da fronteira, movimento que por muitos anos foi favorecido pela estrada de ferro Bahia -Minas  (EFBM) linha ferroviária implantada em 1882 que ligava o nordeste de Minas Gerais ao sul da Bahia, desativada em 1966 em detrimento da abertura de novas estradas como a BR-101, que subordinou a região a influências dos estados do sudeste do país e da capital Salvador.

Por fim a Bahia e Minas foi mais do que um canal de trocas comerciais, foi também um lugar de intercâmbio cultural e de costumes, tal como expressa o caso do apostador caravelense e outros relatos de acontecências que ligam os dois povos  que ainda hoje, independente das delimitações oficiais das fronteiras entre os dois estados,  possuem culturas autonômicas.

Fontes:

ELEUTÉRIO,  Arysbure Batista. Estrada de Ferro Bahia e Minas “A Ferrovia do Adeus”.

NETO, Sebastião Pinheiro Gonçalves de Cerqueira. Contribuição ao estudo Geográfico do município de Nanuque. 2001.

Jornal O Globo, março de 1973

Correio Manhã Abril de 1974

Foto principal: Cidade de Nanuque

Veja também:

Em 1981 crítica à ditadura animou o Carnaval em Caravelas

O comércio em Teixeira de Freitas

O domínio e a influência da TV

Por Daniel Rocha

Já é consenso entre os estudiosos e intelectuais da comunicação o fato de que a mídia de massa, televisão, jornais e alguns sites da internet, tem exercido uma grande influência na formação de opinião da população brasileira e mundial, de modo que no Brasil a TV continua sendo a principal fonte de informação para maioria. Fortemente influenciada por ela.

Mas porque isso acontece? Na minha perspectiva isso ocorre devido à falta de um marco regulatório e o fato de que os meios de comunicação de massa não abordam, dentre outras coisas, pesquisas, estudos e informações sobre os males causados pela sua influência no ambiente macro social e político do país em seus programas e reportagens. Produções enviesadas que estimula a bestialização e a derrubada de governos democraticamente eleitos.

Nesse sentido, a título de ilustração, é possível aprofundar sobre o exposto na reportagem “Mídia brasileira, monopólio e manipulação política” veiculada originalmente no Programa The Listening Post da rede de tv Al Jazeera, que abordou o monopólio da mídia brasileira e as consequências desse acúmulo de poder econômico e midiático para a política e a sociedade brasileira, vídeo disponível no YouTube no canal do Mídia Ninja. Confira!

 

O cineclubismo em Teixeira de Freitas


Por Daniel Rocha

Os cineclubes além de oportunizar a exibição de filmes que geralmente não chegam ao circuito comercial também busca desenvolver a sensibilidade e a consciência crítica do público através de conversas e debates, em Teixeira de Freitas dois vem se destacando ao realizar esse trabalho, o Conversê Cineclube e o Cineclube Sal na Pipoca.

Criado pela motivação de pessoas que apreciam exibir filmes para debate, de forma gratuita e popular, os cineclubes  tem dentre outras coisas chamado à atenção de quem comparece as sessões para os detalhes que são evidenciados ou silenciados na construção  narrativa das produções.

 

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Cartaz de divulgação da sessão de maio do Conversê

 

Um bom exemplo dessa motivação e trabalho e o Conversê Cineclub, o primeiro da cidade, fundado em setembro de 2007, resultado de um projeto de extensão do curso de história da UNEB-X,  coordenado pela professora Liliane Fernandes em parceria com acadêmicos da primeira turma do curso de história.

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Josias Pires na exibição realizada no espaço Cultural da Paz. Foto: Jasmim Lima

Além de exibições especiais de filmes e a realização de debates, no formato roda de conversa, o cineclube, que no mês de maio deste ano de 2018 exibiu com destaque, em parceria com o Espaço Cultural da Paz, o documentário baiano “Quilombo dos Macacos” com a presença do diretor Josias Pires, busca através de exibições no espaço acadêmico ou comunitário interagir com a comunidade e discutir as conexões entre a arte e a realidade.

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Exibição do Sal na Pipoca no CSU

Outro bom exemplo é o do Cineclube Sal na Pipoca que na última semana ( 17/07) realizou no CSU (Centro Social Urbano) a exibição do filme “Nise – O coração da loucura” , a mediação ficou por conta do radialista Ramiro Guedes e outros convidados. O cineclube que faz parte do Coletivo das Artes Mutirô também tem como proposta exibir filmes fora do circuito comercial e promover com ajuda de convidados conversas e debates sobre os aspectos dos filmes exibidos.

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Ramiro Guedes mediação e exposição

Conversas e debates que são bem – vindos em uma cidade que conta com seis salas comerciais, duas no Cine Teixeira, Shopping Teixeira Mall e quatro no Cine Cinesercla, Shopping Pátio Mix. Empreendimentos que anseia pela manutenção da cinefilia da massa que para os cineclubistas podem e devem ter um olhar mais conscientes e atento ao que é exibido na tela.

Quer participar? Fique atento nos principais sites de notícias da cidade onde a programação é sempre divulgada, ou aqui no site tirabanha.com.

Agentes Comunitários e de Combate às Endemias conquistam reajuste do Piso Nacional

Por Daniel Rocha

No dia 11 de Julho de 2018, o SINDACESB, Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde e de Agentes de Combate às Endemias do Extremo Sul da Bahia, esteve em Brasília, atendendo a uma convocação de urgência,  por parte da Confederação nacional da categoria (CONACS).

Assim, pois pode testemunhar o adicionar deste dia para  a lista dos dias históricos na vida dos Agentes Comunitários de Saúde e dos Agentes de Combate às Endemias que  conseguiram garantir a aprovação do reajuste do Piso Salarial Nacional, aprovado na Câmara e no Senado.

Depois de longos quase cinco (5) anos, lutando incessantemente na Capital Federal, através de nossa CONACS (Confederação Nacional dos ACS’s e ACE’s), os trabalhadores  conquistaram novamente o direito básico de ter o salário atualizado anualmente, como é comum para todos as outras categorias.

“Sabemos quantas dificuldades passamos e quantos esforços fizemos, sejam Financeiros ou Físicos, para hoje alcançarmos nossos objetivos. Sempre com fé, força e muita determinação de todas as nossas lideranças. E mais uma vez, o SINDACESB de forma direta participa e contribui para essas Grandes Conquistas, mostrando que é uma Entidade ativa e que Luta pelos seus filiados ou não filiados, pois esses também são beneficiados com essas conquistas”. Declarou o coordenador geral do SINDACESB, José Felix.

 

“Poti Loiro” um capoeirista teixeirense

Por Daniel Rocha

Na década de 1970 com a chegada da superintendência da polícia militar no então povoado de Teixeira de Freitas, BA, a violência passou a ser contida através de constantes rondas policiais. Segundo um causo rememorado por moradores essa insistente vigilância provocou a ira dos boêmios e do capoeirista “Poti Loiro”, lembrado como um herói às avessas e popular.

Segundo alguns relatos, até a década de 1960 não havia policiamento intensivo em Teixeira de Freitas e por isso a população convivia com os boatos sobre a ação de pistoleiros, brigas e assassinatos ocorridos em meio a escuridão de um lugar abastecido por geradores elétricos,  ativos apenas até às dez horas da noite.

Essa rotina, perceptível para quem visitava o povoado, e bem visível para quem morava nele, só foi modificada com a chegada da rede elétrica e da superintendência da polícia militar, que prontamente instituiu a vigilância e rondas policiais em uma época marcada pela expansão urbana e demográfica e constantes exibições de filmes do Bruce Lee na tela do primeiro cinema da cidade, o Cine Elisabete.

Embora essas transformações possam ter sido recebidas com euforia pelos moradores locais, a constante vigilância policial em certas ocasiões provocou também a insatisfação de grupos e pessoas habituadas a circular livremente pelo lugar, revelam os causos da época.

Conforme um dos causos ouvidos pelo  capoeirista Sebastião Sérgio, filho de migrantes mineiros,  em uma das rodas de capoeira que frequentou quando criança, realizada na casa de migrantes soteropolitanos  na década de 1970, alguns praticantes da arte marcial como “Poti Loiro” tiveram problemas com recrutas, policiais, responsáveis pelo policiamento local.

Na narrativa ouvida e rememorada por ele, no início da década  de 1970 quando estava a passar pela praça, hoje chamada de Praça da Bíblia, o jovem “Poti” um magro, alto, branco, cabeludo, vestido a maneira hippie, que gostava de fumar livremente “peitou” oito policiais armados nas imediações da  antiga Praça em demonstração de força, valentia e contestação.

Segundo ouviu dizer  toda essa reação foi porque o rebelde “Poti Loiro” teve a infelicidade de cruzar o seu caminho com nada mais, nada menos  que oito recrutas armados que ordenados por superiores, o repreendeu com violência e brutalidade diante de diversos moradores e passageiros que aguardavam o ônibus na  Rodoviária , hoje conhecida como “Rodoviária Velha”.

Ainda de acordo com a narrativa do capoeirista  “Já havia entre eles uma rixa”e por esse motivo foi convidado a se retirar do lugar  de modo que ao ser tocado com força “Poti” teria reagido em fúria dando mostra de grande habilidade , golpes rápidos como saltos, parafusos mortais e meia-lua que levou ao chão os “repressores” que na sequência o conduziu até a delegacia, solto horas depois do ocorrido.

Segundo um morador, que preferiu contribuir para essa construção de forma anônima, ao ser perguntado se conhecia o causo “Poti Loiro” e as razões da confusão, respondeu que sim ressaltando que naqueles tempos a falta de iluminação pública favoreceu muito para que houvesse embates e confrontos dos responsáveis pelo policiamento com os boêmios e outros moradores.

“Só existia iluminação via gerador elétrico que funcionava até às dez horas da noite. Por essa razão recrutas percorriam as ruas do então povoado repreendendo às pessoas, sobretudo os boêmios na Rua do Brega com certa dose de exageros… Acontece que Poti era contra esse tipo de repreensão e quando presenciava ou era repreendido de alguma forma reagia com força… Eu não me lembro dessa história da Praça da Bíblia, mas  pode ter acontecido. Sei de uma que ele afrontou os recrutas que repreendia um grupo de estudantes que namoravam na rua durante a noite (…). Poti era muito querido por todos e às vezes temido”.

Ainda de acordo com o morador que gosta de lembrar-se de sua vida “pregressa” como boêmio contumaz na Rua do Brega, rua boêmia, “Poti” era de família rica e os policiais “considerava isso” antes de fazer qualquer coisa com ele. “Daí também sua coragem e valentia”.

Já Mário Santos Almeida, natural de Medeiros Neto, quarenta anos morador na cidade, afirma ter tido a oportunidade de “conhecer de vista” Poti Loiro era “uma figura conhecida e popular que não passava despercebido em Teixeira”.

Em conformidade com essa perspectiva, Mário Santos o descreveu como um Bruce Lee local, um rapaz forte, rebelde que  era compreendido como um “brigão e valente”, mas que na realidade raramente se envolvia em confusões.

Contudo, lembra, que quando “Poti” era de alguma forma repreendido reagiam com ânimo, vigor e com a  boa capoeira que lhe conferiu a fama, por isso acredita que o causo do enfrentamento dado na Praça da Bíblia é verdadeiro.

Mário também ratifica que naqueles tempos os recrutas  reagiram de forma ríspida, “tinham suas razões.” Porém acredita que o confronto não tem nada a ver com o fato de Poti ser um capoeira ou qualquer outra coisa.

“Na verdade ninguém gostava da vigilância desses agentes (…). Todos tinham vontade de partir pra cima, porém só “Poti” tinha o tamanho, a força, a coragem e o status para isso”.

Ao ser informado desses novos detalhes Sebastião Sérgio “o mestre Pinote” afirmou apenas que na versão que conhece, a que ouviu quando criança, “Poti Loiro” enfrentou e derrotou com golpes de capoeira policiais armados no centro do povoado, não sendo possível discordar ou concordar com outras perspectivas.

Fontes

ROCHA.Daniel; OLIVEIRA. Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

Fontes Orais:

Sebastião Sérgio, conversa informal realizada em  novembro de 2016.

Mário Santos , conversa informal em março de 2017.

Morador anônimo,  conversa informal em  agosto de 2017.

Diversos moradores contribuíram com informações sobre que certificaram os fatos expressos, a todos  o nosso agradecimento.

Foto: Capoeiristas desfilam no sete de setembro de 1975 na avenida Getúlio Vargas.  Acervo do Departamento de cultura de Teixeira de Freitas. Pesquisada e cedido em 2016.

Veja também:

Teixeira de Freitas Secreta : A igreja subterrânea

Memória Estudantil

Se você chegou até aqui parabéns! Tens o hábito da leitura.

 

 

 

O causo da Marrom Glacê e a copa de 1986

Por (Daniel Rocha)

Teixeira de Freitas 1985, faltando menos de um ano para a Copa do Mundo do México a expectativa dos brasileiros era grande. No bairro Recanto do Lago funcionava o badalado Bar Boate e Boliche Marrom Glacê. Como era de costume todas as noites diversas pessoas procuravam o local para se divertir e paquerar ao som das músicas do momento, recorda um ex-funcionário e antigos frequentadores.

Em meados da década de 1980 estudar durante  a noite estava em alta e diferente de hoje, a faixa etária que cursava o segundo grau era na maioria formada por pessoas com idade acima de 20 anos, homens e mulheres, trabalhadores, que só tinham tempo para estudar durante a noite e a gíria da moda era dizer “qual é a transa” e com ela se conseguia “muitas”, diga-se de passagem.

Por essas e outras razões no período noturno, ao final da aula, rapazes com os carros estacionados na Avenida Getúlio Vargas, aguardavam próximos a escola Rômulo Galvão, as estudantes afins de convidá-las” para um trago” em uma boate/bar ou danceteria mais próxima, segundo contou Maria Mariana (em memória) em uma conversa informal.

Ainda de acordo com a versão dela, alunas “desavisadas” acabavam conhecendo alguém por acaso. Acontecia de confundir o carro do namorado com o de qualquer outro parado em frente à escola e esticar a confusão até um bar próximo. Nesta condição, como aluna e trabalhadora do comércio, revelou, também frequentou o bar boate Marrom Glacê.

Endereço da moda entre estudantes a boate usava a estratégia da boa música e do som alto para atrair a clientela. As longas filas na entrada e o auto volume do som fazia parte da rotina do espaço, acontece que o movimento e barulho incomodavam os vizinhos.

Narram alguns moradores do bairro Recanto do Lago que em um dia de um mês desconhecido do ano de 1985 a reação de um morador migrante capixaba pôs fim às atividades da próspera boate.

Segundo o garçom e gerente de confiança do estabelecimento, Francisco Ferreira, uma família de capixabas, moradores das proximidades da boate, reclamavam constantemente do alto som durante a noite.

Narra que de tanto reclamar o vizinho perdeu a paciência, pegou a arma que tinha disponível em casa, e disparou diversos tiros no Toca Discos. “Quando o dono chegou falei que os caras apareceram dizendo que iriam baixar o som… Desceram a bala eu que não podia fazer nada, fiquei quieto!”

Segundo o narrador do causo o fato foi registrado na polícia, porém não foi necessário ir além do Boletim de Ocorrência (BO) porque no outro dia eles pagaram o prejuízo esclarecendo ao proprietário e os desavisados a razão da atitude tomada.

A família tinha um filho doente que não dormia com o som naquele volume, incentivado pela situação e os vizinhos o pai da criança depois de pedir por diversas vezes para diminuírem o som tomou, dominado pelo desespero, aquela atitude drástica.

Ainda de acordo com o antigo funcionário ouvido depois do incidente o bar não demorou baixar para sempre as portas. “Porque sem o som o público jovem perdeu o interesse. A moçada gostava era de música alta sem ela o bar ficou sem o atrativo”.

Sobre o fim da Marrom Glacê lamenta Francisco. “Estávamos esperando com ansiedade a copa do mundo de 1986 começar para fazer uma grande festa, pena que não alcançou.”

 

Daniel Rocha

Historiador, Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

Fontes Orais:

Francisco Ferreira

Edivaldo “sombra”

Maria Mariana Esteves.

 

A canção não oficial da Copa de 1998 em Teixeira de Freitas

 

Por Daniel Rocha

Quando procuramos ou compramos um Game Play esportivo para jogar a última coisa que pensamos é na trilha sonora, afinal queremos apenas nos divertir. Porém em alguns momentos o tema principal e a trilha ,como o todo, roubam a cena e marca para sempre uma geração, como por exemplo marcou a música Song 02 da banda Blur, do Game Play FIFA Soccer 1998, uma das músicas não oficiais de maior sucesso da história do evento esportivo.

 

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A música é uma das mais lembradas em época de Copa do Mundo pela geração do final dos anos 1990 que perdia tardes inteiras nas badaladas games. Em Teixeira de Freitas a Sport Games que ficava na Av. Getúlio Vargas e que atendia os jovens dos Bairros Bela Vista e Recanto do Lago, chegou a organizar torneios de Winning Eleven 03 em 1998, Copa na França, o mais popular da época, ao som do tema principal da FIFA Soccer a pedido dos jogadores e espectadores hoje saudosos da época e ligados na copa da Rússia 2018 . Nunca ouviu? Confira!

 

Foto: Imagem ilustrativa

 

 

 

A segregação das identidades em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Tem crescido na cidade de Teixeira de Freitas um sentimento de segregação que se expressa na construção de fronteiras invisíveis evidentes através  da adoção de um modelo de sociedade que possibilita a lógica da “guetização” da  identidade local.

É importante salientar que não existe uma situação de segregação, mas a meu ver pode se dizer que há um sentimento parecido em vigor que ganha força com o avanço de um modelo de sociedade que tem valorizado, de forma intensa, a formação de grupos e guetos sociais em um processo de  “guetização” das identidades culturais.

Atualmente, percebe-se que, o discurso de que a “localização define seu status social” já pode ser compreendido como um sintoma desse sentimento crescente na cidade quando, por exemplo,  se analisa, informalmente, o modo que lidamos com as classificações dos espaços de residências como bairros para os ricos e bairros para os pobres, condomínios do governo, condomínios de luxo etc.

Categorização que evidencia uma lógica da guetização dos locais de convivência e  também dos cidadãos que acabam rotulados por denominações ligadas a essas separações.

É válido ressaltar que outros fatores arrojaram esse sentimento nas últimas décadas na cidade e no país como o avanço do individualismo, o crescimento desordenado da cidade, as redes sociais e disseminação pela mídia de costumes estranhos à cultura, memória  e identidade local.

O resultado desse enquadramento é a crescente mutação e empatia de alguns quanto a diversidade social existente na cidade e o abandono  de eventos tradicionais de vivência e manifestações populares,por exemplo, como as festas juninas que a cada ano têm  sido levadas para espaços privados e fechados onde prevalece o viés da capitalização da tradição.

Tendo em vista esses pressupostos, compreendo que há em Teixeira de Freitas a manutenção e o fortalecimento das fronteiras invisíveis que vem se consolidando através de um modelo de sociedade que possibilita a lógica da “guetização” que também influencia o modo como o cidadão vem interpretando o conceito de igualdade, cidadania, cultura e identidade nos últimos anos.

História, Recordações, Relatos, Causos e Memória