A crônica de Drummond de Andrade em defesa do povo Pataxó

Por Daniel Rocha

Na década de 1980 a violenta expulsão do povo Pataxó hã- hã -hãe da reserva nativa Caramuru-Paraguaçu, localizada no município de Itaju do Colônia, Camacan e Pau Brasil, chamou a atenção do escritor Carlos Drummond de Andrade que escreveu uma crônica pedindo paz para os  nativos ameaçados e escorraçados da reserva localizada no sul da Bahia.

Segundo o jornal o Estado de São Paulo ,de junho de 1982, representantes da FUNAI e da Associação Nacional de apoio ao índio- ANAI – seguiram na data para o sul da Bahia depois de serem notificados que fazendeiros tentavam tomar a força de parte do que restou das terras da reserva Caramuru-Paraguaçu, há pouco tempo demarcadas pelo governo Federal.

As notícias também davam conta que na ocasião a Polícia Federal havia abandonado a aldeia dos índios Pataxó, onde faziam a segurança da tribo, descumprindo com termos do Estatuto do índio, em vigor na época, que obrigava o Estado realizar a segurança dos nativos em casos de ameaça deste tipo.

Conforme denúncia da Associação Nacional de Apoio ao índio da Bahia, ANAI-BA, publicada no jornal paulista, os nativos que há 52 anos possuíam 50 mil hectares de terras na região naquele momento ocupavam apenas 12 mil hectares e a diminuição estava relacionada à distribuição ilegal de títulos de propriedade aos fazendeiros pelo governo do estado na década de 1970.

Nativos expulsos da reserva em 1982. Jornal Estado de Minas

Ainda de acordo com a nota divulgada à imprensa pela associação o Estado, através de políticos ligados ao governador Antônio Carlos Magalhães, agia em comum acordo e além de pressionar em favor dos fazendeiros e “grileiros” também tentavam caracterizar o povo Pataxó como invasores e não proprietários das terras da reserva.

Diante das notícias sobre as tensões entre os nativos e os grileiros no sul da Bahia, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu na “Coluna Itinerante” no Jornal do Brasil, uma crônica intitulada “Pataxós” onde critica ,a partir de uma visão social comum, a expulsão dos nativos da reserva e a reação dos mesmos. Um retrato comentado do tempo e da época captado por ele. Assim escreveu o poeta:

Por favor, deixem os pataxós em paz, no chão que é deles, e que estão querendo tomar. Dizem que em benefício de um partido político interessado em agradar fazendeiros. Não faz sentido mudar quem mora no que é seu e está garantido legalmente pelo estatuto do Índio.

Os pataxós que resistem à remoção absurda não são agitadores políticos. Fazem apenas aquilo que todo sujeito morador na sua casa deve fazer se um intruso tenta invadir – lhe o domicílio. A propriedade existe também para os índios – ou há quem ainda não sabe disto?

Abandonados pelo IBAMA e a FUNAI o povo Pataxó resistiu até o ano seguinte, 1983, quando a questão foi parar na justiça. As tensões entre os fazendeiros ,grileiros, e os nativos persistiram durante toda a década de 1980, 1990 e 2000.

Nesse período inúmeros confrontos foram registrados enquanto a questão sobre a posse ficou por anos aguardando a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STF) que, somente em 2012, decidiu pela manutenção dos nativos pataxós nas terras das fazendas localizadas dentro da reserva natural.

Veja também: A atuação do grileiros no extremo sul da Bahia durante a ditadura.

FONTES:

Pataxó vão às Justiça. O estado de São Paulo, 25 de novembro de 1982.

Pataxó. ANDRADE. Carlos Drummond. Jornal do Brasil, caderno B, edição de 09 de outubro de 1982. página 08. Acervo site tirabanha. com.br

Comissão vai à BA para recuperar terra indígena. O estado de S. Paulo. Pg de 06 junho de 1982.

Índios denuncia violação do estatuto pelo DPF. Jornal de Brasília 10 junho de  1982

A remoção forçada do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe. Disponivel em: https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/179974

Terra indígena Caramuru-Paraguaçu. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_ind%C3%ADgena_Caramuru-Paragua%C3%A7u

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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A carta

A carta se perdeu

nas areias do tempo…

De Bandeira a Drummond,

Rimbaud a Verlaine,

Cecília a Clarice,

registros, letras e

marcas atemporais…

Ontem, a grafia,

a página escrita

com devoção;

hoje, a fria letra impessoal

na tela digital,

a refletir o inadmirável

mundo novo!

Erivan Augusto Santana

Veja também:

Fim de tarde

O ensaio de Maitê

O saxofonista no telhado

Em busca do tempo perdido

Procurando Marília


Professores e alunos protestam em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Milhares de  estudantes, professores e profissionais da Educação  e manifestantes marcharam em todo o país na ultima quinta-feira (30/05), contra os cortes na educação. Em Teixeira de Freitas, diversas pessoas ocuparam por cerca de três horas a praça da prefeitura e uma das principais avenidas da cidade, Avenida Marechal Castelo Branco, de onde partiram em caminhada pacífica até à Praça da Bíblia. O ato foi encerrado por volta das 19h.

Formado principalmente por professores e alunos das universidades públicas, do município e do estado, a grande massa com cartazes, palavras de ordem e discursos inflamados, expressou na praça preocupação “com os rumos tomados pelo atual presidente Jair Bolsonaro” que através da sua política de cortes vem causando preocupação a professores e estudantes.

“Estamos na rua para mostrar o descontentamento da juventude com as declarações recentes do governo, não vamos aceitar retrocesso, a educação deve continuar para todos”, declarou a universitária Adriana.

Não é a primeira vez que os estudantes se posicionam contra medidas de corte de um governo, em outubro de 2016, por exemplo, alunos da UFSB ocuparam a universidade contra a PEC 241, também chamada de “lei do teto”, “PEC da morte”, entre outras nomeações, apresentada pela equipe econômica do então governo Michel Temer.

A PEC ,que foi aprovada no mesmo ano, limitou despesas com saúde, educação e assistência social e previdência pelos próximos 20 anos. Alunos da UNEB-X, e do instituto federal também realizaram ocupação de seus respectivos endereços.

Para além da pauta nacional, também expressaram os manifestantes descontentamento com a postura do governador Rui Costa e o prefeito da cidade Timóteo Brito que ainda devem ser lembrados nos próximos atos.

Alunos e professores de todo Brasil e de Teixeira de Freitas, prometem retornar às ruas no dia 16 de junho próximo, dessa vez para participar da “Greve Geral contra reforma da previdência” que deve unir diversas categorias contra a proposta apresentada.

Sertanejo Gustavo Lima publicou vídeo ouvindo Robério e seus teclados

Por Daniel Rocha e Marcos Marcelo

No final dos anos de 1990 e início dos anos 2000, um furacão regional conquistou o gosto e os corações do povo  do extremo sul da Bahia e do Brasil. Estamos falando de Robério Lacerda Cabral ou como é popularmente conhecido Robério e seus teclados, que ao que parece recentemente agradou em cheio o cantor sertanejo Gustavo Lima.

Natural do Distrito de Massaranduba, Vereda,BA, o cantor que iniciou sua carreira aqui na cidade de Teixeira de Freitas e região, a 20 anos atrás se tornou um fenômeno do forró nacional com o CD, Robério Vol. 01,  na época facilmente encontrado em feiras e camelôs, logo caiu no gosto popular dos baianos, capixabas, mineiros e toda massa nordestina residente na cidade de São Paulo.

No presente, as músicas do primeiro CD do cantor ainda seguem conquistando novos fãs ,anônimos e famosos, tanto que recentemente o cantor Gustavo Lima publicou uma série de vídeos no Instagram, onde aparece escutando fascinado algumas músicas do cantor como “Volta Amor,” “Namoro Novo” e “Zé do Rock”.

“O vídeo mostra que o sertanejo Gustavo Lima continua de olho nas produções de talentos populares do país procurando sempre inovações em seus trabalhos, e quem sabe, possa nascer uma parceria entre os artistas. Para os músicos locais o reconhecimento do trabalho de um artista da região motiva ainda mais a continuar trabalhando focando na carreira e nos projeto,” destacou músico Marcos Marcelo, especialista em música regional. Confira os vídeos no link:

https://www.instagram.com/p/Bx1zR8rnG5v/?igshid=1guqpi4f53p7o

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Ofícios dos trabalhadores e trabalhadoras na história de Teixeira de Freitas II

Continuação do texto anterior….

06 – MODISTA: Modista era o nome que se dava aos alfaiates que trabalhava com  a encomenda de roupas, calça, ternos, vestidos e roupas para festas. Geralmente trabalhavam em casa e com máquinas movida por força humana. Atendia todos os tipos de classe. Também atendia encomendas de roupas fúnebres, mortalhas, e religiosas, casamentos e batizados. Em Teixeira de Freitas vários exerceram e exercem esse ofício, aqui vamos lembrar  do Cabo Marques e Dona Guiomar que atuaram nas décadas de 1950 e 1960 no centro do povoado de Teixeira de Freitas em uma época que havia pouca ou quase nenhuma loja de roupa. O tecido para confecção eram adquiridos nos armazéns nas cidades de Alcobaça, Caravelas, Nanuque, Medeiros Neto e Teófilo Otoni ou nas miscelâneas da fazenda Nova América e Cascata.

08 – FABRICANTE DE REDES E TARRAFAS: As redes e tarrafas geralmente era feito por trabalhadores ligados ao ramo da pesca que além da venda de peixes dedicavam à fabricação dos instrumentos necessários. No povoado de Teixeira de Freitas nas décadas de 1950 e 1960, Antônio de Roxa e João Serafim são os mais lembrados pelos moradores que viveram essa época como Ivo Nascimento Correia, anda hoje residente da histórica fazenda Nova  America.

09 –  PADEIRO –   Um dos padeiros mais lembrados da cidade é o João Palmeira Guerra ao qual é atribuído o título de pioneiro do ramo, tendo instalado sua padaria nas mediações da Praça dos Leões onde atuou aproximadamente até a década de 1970. Além dos tradicionais pães de sal e doce, também comercializa biscoitos de goma e chimango.

10 – FAZEDOR DE CAIXÕES FUNERÁRIOS: Nas décadas de 1950 até as décadas de 1960,1970 não havia casas que comercializavam caixões funerários por perto. Diante dessa realidade entrava em cena os fazedores de caixões, pessoas da comunidade que dominavam a arte da carpintaria, talhar madeira e construção do utensílio mortuário. Na construção era considerado alguns aspectos como distância a ser percorrida até o cemitério, geralmente era levado apenas por homens, e a madeira adequado, leve e resistente. Nesse parte da antiga delimitação dos municípios de Alcobaça e Caravelas de onde se originou o povoado e mais tarde cidade de Teixeira de Freitas, o sanfoneiro Pedro Lopes, o especialista em cortes “Baduca” e embaixador da festa de São Sebastião “Chicão” eram os mais requisitados da região.

10 – CURTIDOR – e o profissional perito na arte de curtir, converter peles de animais em couros. Na década de 1960 a atividade foi praticada de forma intensa na Fazenda Nova América, onde hoje é possível ver  ruínas do antigo curtume de Clodoaldo Freitas Correia. A pele curtida era adquirida dos caçadores locais depois couro de gado do matadouro da Fazenda Cascata. Os trabalhadores eram em sua maioria homens que aproveitavam as correntes do Rio Itanhém para limpar e curtir o produto que era exportado  pelo Isael de Freitas Correia para Caravelas, ou vendido para os artesãos de Juerana “Cajá” especialista em calçados e bolsas femininas e o artesão “Cadete” especialista em arreios para animais.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

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Foto: Praça da Prefeitura inicio da década de 1970. Dias produções.

VIDAS CRUZADAS

Amanhece na Princesa do Extremo Sul,

Os estudantes vão para a escola

Despertos com a luz dos

Primeiros raios de sol.

Nas fronteiras destinos que se cruzam,

Se identificam, se realizam

Em Vereda, Nova Viçosa,

Itanhém e Alcobaça.

No centro, o comércio fervilha,

Em incomensuráveis trocas

E a agricultura floresce

Na semeadura do progresso.

Na Academia os confrades

Celebram a vida

E cantam o seu hino

Em brados e célebres versos.

Nas colunas da colina

Ana, Clara, Carolina desfilam

Seus colares de coral,

Fazendo reais suas rimas.

Na catedral de São Pedro

Badalam os sinos

Da Ave Maria, louvando

O crepúsculo de mais um dia!

ERIVAN SANTANA

Veja também: 

REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

A ESTRELA D’ALVA E O SOL

JUÍZO FINAL

A CARTA

FIM DE TARDE

O ENSAIO DE MAITÊ

O SAXOFONISTA NO TELHADO

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

PROCURANDO MARÍLIA

Teixeira de Freitas 34 anos: frases sobre a cidade I

Em comemoração aos trinta 34 anos de emancipação de Teixeira de Freitas o site tirabanha preparou uma seleção especial com  algumas frases ditas por pessoas, conhecidas ou não, que revelam o cotidiano, as transformações e a admiração de moradores, autoridades e artistas pela cidade. Você confere aqui em primeira mão.

“O humilde povoado formado inicialmente por famílias negras, conhecido às vezes pelo nome de Mandiocal ou Comércio dos Pretos, não apresentava perspectiva de crescer.”


Jeová Franklin de Queiroz, justificando a ausência do povoado de Teixeira de Freitas na lista elaborada pela enciclopédia dos municípios de 1958 editada pelo IBGE, 1985.

“Hoje estou feliz, encontrando uma população de 30.000 habitantes…Aqui, prometo, colocarei a luz de Paulo Afonso!” 


Governador Antônio Carlos Magalhães na segunda visita ao povoado de Teixeira de Freitas. Ano de 1974.

“Vou logo perguntar a quem me contratou quando ele vai me trazer de volta, porque não dá pra ficar muito tempo sem ver vocês.”


 Ivete Sangalo durante show realizado  no parque de exposição de Teixeira de Freitas em 2012.

“Estou visitando aqui, pela primeira vez, e achei a cidade linda. Estamos em reunião de patriotas e falaremos de costumes, desenvolvimento, cultura, esporte. Estamos unidos, não só de sangue, como culturalmente. Nosso intercâmbio é de coração, de amor e fraternidade.”


Toshio Watanabe, Cônsul Geral do Japão, em visita especial à colônia japonesa da cidade no ano de 2009.


“Esse é um projeto inovador que vai beneficiar todo o extremo sul. É um templo de cidadania e dignidade para nossa juventude.”

Governador Jaques Wagner (PT) após assinar o termo de cooperação técnica que possibilitou a implantação na cidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)


“Hoje eu tenho um filho de leite que é rico e não vem mais me visitar, dei leite para ele porque a mãe estava com o peito seco e mandou me buscar. Eu não cobrava porque leite de peito não pode vender, tem que dar, dei durante uma semana, a mãe foi botando no peito até poder dar.”

Vitória lemos, 80 anos, foi ama de leite durante a década de 1970 em Teixeira de Freitas falando sobre o ofício.

“Quero agradecer ao prefeito deste município pela estrutura do hospital, pelos recursos, que apesar de ser uma cidade pequena, dispõe de uma aparelhagem excelente, e há equipe médica que atenderam as vítimas e deram o melhor de si por eles.”

Coronel do Exercito Brasileiro, Heitor Leite, na solenidade de agradecimento ao prefeito municipal Padre Aparecido Rodrigues, em virtude do atendimento aos alunos da Escola de Formação Complementar do Exército Brasileiro (EsFCEx), após o acidente com o ônibus que transportava os alunos da escola, na BR-101 em 2011.

“Quem iria imaginar que Teixeira de Freitas crescesse tanto? Quando chequei aqui era tudo mata em roda. As onças faziam tocaia. Chegamos a matar surucucu no meio da rua, aqui na praça, onde está o jardim.” 

Pedro Guerra, em entrevista a publicação do Banco do Nordeste, 1985.

Veio Manoel de Telvina e botou um boteco entre onde hoje é a padaria Shirley e a Casa Moberck e ficou ali vendendo sua cachacinha. O povo foi fazendo casinha dum lado e de outro”.

Sr. Servídio do Nascimento Correia em entrevista a revista Regional Sul em 1992.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

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Ofícios dos trabalhadores e trabalhadoras na história de Teixeira de Freitas I

Por Daniel Rocha e Domingos Cajueiro Correia

Ao longo destes trinta e quatro anos de emancipação, em paralelo aos “fatos históricos” e “tradicionais narrativas” de “fundação e de grandes feitos”, os trabalhadores exercerão suas funções e mantiveram o funcionamento mecânico da sociedade teixeirense, por hora de forma discreta, por hora com grande destaque, fortalecendo a dinâmica e o comércio local que é a base da nossa economia. Hoje, apresentamos alguns desses para vocês.

01 – FAZEDOR DE CORDAS.  Quando Teixeira de Freitas ainda fazia parte do interior dos municípios de Caravelas e Alcobaça, antes do surgimento do primeiro núcleo que deu origem ao povoado, alguns moradores das comunidades rurais próximas trabalhavam como “cordeiros”.

O trabalho do “cordeiro” consistia em retirar e cortar a Guaxima, planta nativa da região, colocar em um cocho de água até pubar para retirar as amarras que eram reunidas em fardos para serem vendidas e exportados para cidades como Salvador e Recife , pela empresa Baiana de Navegação, e para a cidade Mineira de Teófilo Otoni ,pela estrada de ferro Bahia e Minas. Dentre os diversos prestadores deste serviço destacamos o trabalho do Sr. Servídio Nascimento Correia, extrativista, e do comprador e exportador Pedro Muniz.

02 – EXPORTADOR DE COURO. Tal como o “cordeiro” o exportador de couro ,que também era conhecido como exportador de peles, 1940 e 1960, exportava sua produção para os grandes centros comerciais da época através da Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM). Dentre os que exerciam essa função destacamos o nome de Alírio, cujo sobrenome não foi identificado, que comprava em nossa região, entre 1950 e 1960, couro tratado de Gato-do-mato (Jaguatirica), Onça, Lontra e Veado. Os maiores compradores ficavam na cidade de Nanuque (MG) e Teófilo Otoni (MG) e na baiana Caravelas.

03 – ARMEIRO. Profissional que reparava, modificava, projetava e fabricava armas artesanais. Nas décadas de 1950 e 1960, no povoado de Teixeira de Freitas, o negro Duca Ferreira exercia o ofício. Por isso era muito procurado nas redondezas do povoado de Teixeira de Freitas para reparos em espingardas, faca, ferro de gado. Outro que também era conhecido pelos serviços era o ferreiro senhor Vespasiano do qual não obtivemos maiores informações.

04 – CARPINTEIRO.  Nas décadas de 1930,1940 e 1950 um dos carpinteiros mais solicitado da região pelas fazendas próximas, como Cascata e Nova América, se chamava Manoel de Adelaide da fazenda “Bomtequando.”  O carpinteiro além de atender chamados e encomendas também formava meninos entregues a seu cuidado para trabalhar e aprender o ofício. Seus discípulos, Baduca, Pedro Ratinho, Pedro Lopes, José Thomaz, também são lembrados pelos bons serviços prestados e destaque na profissão. O carpinteiro Manuel de Adelaide era considerado o “Aleijadinho” da região, algumas de suas obras podem ser vistas no sítio histórico da fazenda Cascata.

05 – PARTEIRAS. Antes da atuação dos primeiros médicos e a abertura dos primeiros hospitais em Teixeira de Freitas na década de 1970, havia outras formas de parir e nascer, nessa realidade as mulheres gestantes recorriam às parteiras existentes em toda parte da cidade e do município, das quais registramos o fazer de Dona Benedita e Dona Francisca que atuou nas comunidades rurais da década de 1940, Dona Antônia Carlota e Dona Adalgisa na década de 1950. Maria de Lourdes cajueiro e Ana de Torquato nas décadas de 1960 e 1970, dentre outras tantas que exerciam o ofício sem cobrar um centavo.

Continua nas próximas postagens.

Daniel Rocha da Silva*

Daniel Rocha da Silva* Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

Domingos Cajueiro Correira é memorialista e colaborador do site.

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Crédito das Fotos: Foto Fazenda Cascata 1996. Acervo Pessoal.

O extremo sul da Bahia e o Dia internacional dos Trabalhadores de 1988

Por Daniel Rocha

No Brasil, o 1º de maio é o “Dia internacional dos Trabalhadores e trabalhadoras”. Dia de celebrar vitórias e conquistas favoráveis aos trabalhadores do campo e da cidade. Em 1988 trabalhadores do extremo – sul da Bahia, por exemplo, aproveitou a data para manifestar e exigir uma sociedade mais justa, igualitária e cidadã.

No dia 1º de maio de 1988, nos municípios de Teixeira de Freitas, Itanhém, Itamaraju  , Eunápolis e Guaratinga manifestações populares tomaram as ruas e praças dessas cidades dando voz aos trabalhadores indignados e oprimidos pela miséria, remuneração ruim e política econômica desfavorável a geração de empregos, seguridade social e aos mais pobres.

As manifestações, nos diversos municípios, concretizaram-se de várias formas, ora através de passeatas, atos públicos, encenações teatrais, música, palavras de ordem e discursos proferidos por lideranças de várias entidades sindicais presentes nos atos.

Durante as manifestações os trabalhadores lançaram mão de toda a sua criatividade e organização para mostrar o repúdio dos trabalhadores a incompetência do então presidente José Sarney (PSDB) com os trabalhadores e trabalhadoras da região e do país.

“Nas ruas e praças públicas, todo o seu repúdio à incompetência e desinteresse do governo da ” Nova República” para com a classe trabalhadora. Mostraram, também, todo o anseio desta mesma classe em poder governar melhor este país e tirá-lo da miséria em que ele se encontra”, destacou o Jornal do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

As manifestações reuniu no mesmo lugar trabalhadores do movimento Sem Terra, Bancários, professores, estudantes, comerciários, eletricitários, Movimento de Mulheres, representantes do centro de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão de Justiça e Paz, Central Única dos trabalhadores ,CUT, e  partidos de esquerda, PT e PSB, pessoas do campo e a cidade.

Com reivindicações diversas o trabalhador ao sair às ruas não estava apenas manifestando contra a política do governo, mas também se organizando para lutar por uma constituição de fato cidadã, que estava sendo elaborada pela Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, instalada no Congresso Nacional, em Brasília, com a finalidade de elaborar uma Constituição democrática para o Brasil.

Tal qual que os temas relacionados aos direitos, melhoria dos salários das trabalhadoras, aposentadoria e saúde, moradia e o protagonismo das mulheres nos sindicatos, dentre outros, foram debatidos no 1º encontro de Trabalhadores Rurais do município de Teixeira de Freitas, realizado 14 dias depois das manifestações, 15 de maio, com a presença de 53 mulheres de todas as delegacias sindicais rurais do município.

A nova constituição da República Federativa do Brasil, foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988 e ficou conhecida como “Constituição Cidadã” e não apenas restaurou a democracia interrompida pelo golpe Militar de 1964, como também garantiu que alguns direitos sociais relegados a poucos fossem socializados.

Com a nova Constituição segmentos da sociedade historicamente ignorados como; os negros, indígenas, pessoas com deficiências, idosos, mulheres, adolescentes, crianças e trabalhadores comuns, passaram a ser alcançados por programas sociais e leis específicas de proteção, alguns já perdidos com a “reforma” trabalhista de 2017, outros seguem ameaçados pela proposta de reforma da previdência de 2019.

Fontes:

Baianos vão às ruas. Jornal dos Sem Terra, nº 73. Maio de 1988.

Organizar para luta. Jornal dos Sem Terra, nº 73. Maio de 1988.

. 12 Pontos em que o trabalhador foi prejudicado pela reforma trabalhista.Jefferson Ricardo de Brito. – Veja mais em: https://direito24hs.jusbrasil.com.br/artigos/490163939/12-pontos-em-que-o-trabalhador-foi-prejudicado-pela-reforma-trabalhista

Nova Previdência dificulta acesso e pode aumentar pobreza, diz economista… – Veja mais em https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/21/especialistas-avaliam-reforma-previdencia.htm?cmpid=copiaecola

Reforma da Previdência de Bolsonaro prejudica mais as mulheres, diz Dieese… – Veja mais em https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/03/08/dieese-reforma-da-previdencia-mulheres.htm?cmpid=copiaecola

BATISTUTE, Jossan. Direito e Legislação Social. PARANÁ. Londrina: editora Unopar, 2009.

Foto. Manifestação de lavradores em Itamaraju.  Abril de 1988. Jornal dos Sem Terra, nº 83. Maio de 1989.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

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Teixeira de Freitas 34 anos: O Policial Rodoviário da cidade

Por Daniel Rocha

A BR -101 rodovias federal que corta a cidade, inaugurada em 1973, permitiu uma série de mudanças na estrutura econômica da região do extremo sul da Bahia e na cidade de Teixeira de Freitas. Com ela saímos de uma economia exclusivamente agrária e extrativista para um comércio ligado à dinâmica dos negócios do sudeste do país.

Alguns moradores pertencentes a famílias nativas e tradicionalmente ligadas à agricultura e ao comércio local, caminho natural para os descendentes, mudaram o rumo de suas histórias permitindo aos filhos galgar por caminhos nunca antes percorridos por um membro da família.

Isael de Freitas Correia e Maria de Lourdes Cajueiro

Nosso colaborador, memorialista Domingos Cajueiro Correia, por exemplo, que é filho de pais pioneiros, Isael de Freitas Correia e Maria de Lurdes Cajueiro Correia, parteira de muitos afilhados por toda Teixeira de Freitas, ilustra bem o que estamos falando.

Embora nascido e criado no universo rural  do então povoado Domingos Cajueiro Correia, Cajueiro como é mais conhecido, foi o primeiro teixeirense aprovado em concurso público para policial rodoviário realizado depois da abertura da BR-101 para a cidade em 1977.

Um grande feito de quem começou a estudar aos 08 anos de idade em uma escolinha do povoado  e que por volta dos seus 11 anos trabalhava transportando do trevo da BR 101 (próximo ao Batalhão da Polícia Militar de Teixeira de Freitas) até o centro da cidade o leite que era vendido no centro do povoado.

Domingos Cajueiro Correia

Após concluir o primário no então povoado de Teixeira de Freitas Cajueiro foi obrigado a migrar para a cidade de Caravelas em 1969, para cursar o ginásio, que corresponde hoje ao ensino fundamental, no Ginásio Santo Antônio,  uma tradicional instituição de Ensino, que contava com a contribuição de famílias de alunos que podiam pagar e o incentivo do poder municipal para quem não podia, poucos tinham acesso.

Após concluir o ginásio, Domingos Cajueiro retornou a cidade apenas em 1971 quando o lugar já disponha de escola de segundo grau fundada por membros da Igreja Católica e moradores locais, dentre eles o seu pai Israel de Freitas Correia.

Em 1976, Domingos Cajueiro concluiu o curso de contabilidade no Centro Educacional Professor Rômulo Galvão (CEPROG), como aluno da primeira turma de formandos de Teixeira de Freitas. Um ano depois, 1977, fez a inscrição e foi aprovado para a Polícia Rodoviária Federal (PRF), e foi admitido em 01 de outubro de 1979, tornando-se o primeiro policial rodoviário federal nativo de Teixeira de Freitas, profissão que continua e exercendo até os dias atuais.

Domingos Cajueiro, centro, e amigos

Durante os 40 anos na corporação federal, Domingos acompanhou a circulação de mercadorias e pessoas vindas de várias partes que se instalaram como moradores e comerciantes e as tragédias e alegrias do infinito vai e vem de carros. Elemento que ainda hoje desenha a relação econômica da região e as trocas comerciais do município que no presente, comparando com o passado, é um oásis de oportunidades para todos.

“Sinto que Teixeira uma grande referência para as outras cidades circunvizinhas…. Houve uma enorme evolução na saúde, educação na segurança pública, comércio, moradia e infraestrutura. Bem diferente da Teixeira que conheci no passado. Expressou Cajueiro em um bate-papo informal.

Homenageado pela câmara Municipal de Teixeira de Freitas no último dia 24 Abril com a “Moção de Profissional de Segurança Pública Destaque”, Domingos Cajueiro aproveitou a oportunidade para agradecer e lembrar seus companheiros de trabalhos e familiares, que em torno dele fez lembrar a importância e doação para história e construção da cidade.

Família Cajueiro Correia

“Este é um momento único para todos que compõe esta gloriosa instituição PRF… Quis o destino que eu fosse o escolhido pelos meus pares, a minha gratidão a Chefe da Delegacia Inspetora Neila Cardoso … Quero agradecer em primeiro lugar a Deus, minha família (esposa, filhos, irmãos), compartilhar essa homenagem a minha falecida mãe Maria de Lourdes e ao meu falecido pai Isael de Freitas Correia que fora pessoas de maior valor na história de Teixeira… Meu pai um dos fundadores e quem melhor descreveram a cultura negra quando a cidade ainda era povoado”.