Elefante Branco

Não é só o cinema brasileiro que está passado por uma boa fase, os nossos vizinhos de continente também, basta conferir a lista de lançamentos do mês para ver que o cinema latino tem se destacado e chegado ao nosso mercado de vídeo.

 

Além do chileno NO (2012) que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, temos o lançamento do argentino, Elefante Branco (2012), já disponível nas locadoras da cidade. Diferente de seus Hermanos, o diretor Pablo Trapero busca mostrar uma realidade que pouco ou nunca é mostrada pelas produções daquele país, as favelas da cidade de Buenos Aires.

 

Na película, os Padres Julián e Nicolas, junto com a assistente social Luciana, lutam para solucionar os problemas sociais da favela Villa Virgem em Buenos Aires. Porém, seus esforços entrarão em conflito com os interesses da igreja, governo, narcotráfico e polícia.

 

O local é um antro de violência e miséria. A polícia corrupta e os sacerdotes da igreja nada fazem para mudar essa realidade e dois padres terão de por suas próprias vidas em risco para continuar ao lado dos mais pobres.

 

Em alguns momentos o filme lembra um documentário, os problemas retratados mostram que as questões sociais do país vizinho são bem próximas daquelas que estamos acostumados a enfrentar por aqui, dentre as quais, a ineficiência dos governantes, que abandonam e não concluem as obras públicas.

 

Os desabafos dos assistidos, padres e os profissionais envolvidos com o projeto social na favela, revelam que em um universo de causas das desgraças sociais, as atitudes tomadas por pessoas comuns poderiam ter partido de você se vivesse em um universo parecido.

 

O nome Elefante Branco faz alusão a uma construção abandonada que foi projetada para ser o maior hospital da America Latina, entre golpes e troca de governo, nunca foi concluída, tornando-se ponto de tráfico e droga na belíssima cidade portenha. O estilo documental lembra a produção brasileira Cidade de Deus.

 

A cena em que os moradores participam de um grupo de discussão com o padre sobre como é viver na favela, mostra que não exploraram apenas o cenário, mas também a forma de pensar dos moradores locais.

 

A produção argentina interessa por este olhar sobre sua realidade desconhecida por aqui. No mais o ritmo é lento e tímido, portanto, pode não agradar ao espectador acostumado com os ritmos atuais dos Blockbuster americanos.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

 

O comércio em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha*

A cidade de Teixeira de Freitas não surgiu por obra do acaso. Nasceu, sim, de uma série de transformações na política do estado, do país e das rotas de comerciais que tanto favoreceram a posição central da cidade. Quais são os principais fatos que contribuíram para o crescimento do comércio em  Teixeira de Freitas  maior cidade do extremo sul da Bahia?

Até 1950 o extremo sul  ,da cidade do  Prado a cidade de  Mucuri , negociava mais com os estados do sudeste do que com qualquer outra cidade baiana. Em 25 de dezembro de 1947  após viagem de reconhecimento da região o deputado Ramiro Herbert de Castro relatou, em  carta, essa situação  para o então governador da Bahia Otávio Mangabeira:

“Infelizmente, quando se fala na zona do extremo sul do nosso estado, pensa se logo em uma faixa litorânea, cujas condições econômicas – sociais se encontram pouco além daquelas da era do descobrimento. De fato esta é a primeira impressão do visitante apressado. É de estarrecer, porém, afirma – se que a grande atividade econômica nesses municípios, que se expandem a trinta, quarenta, e até cinquenta léguas, no sentido das regiões progressistas das lindas mineiras, é exercida, sobretudo, por mineiros ali localizados.”

Porém não se reduzia apenas a isso, o extremo sul era uma extensão da cidade mineira quando o assunto era comércio. Para melhor entender vamos analisar o papel central da fazenda Cascata no interior no município de Alcobaça,  que no presente pertence o município de Teixeira de Freitas.

Neste período de 1930 a 1950, a fazenda destacava como um importante interposto comercial para as pequenas fazendas vizinhas, fato que é lembrado até hoje por antigos moradores da região, como o senhor Isidro Alves do Nascimento.

De acordo com o velho morador  a fazenda Cascata ocupava uma posição central  porque ofertava meios para escoamento e abastecimento das população dos arredores, que apesar da fartura de produtos naturais, necessitavam também dos industrializados.

Na Cascata havia além da farinheira, a casa do proprietário Joaquim Muniz e outra mais distante próxima ao rio Itanhém. Também  uma venda onde era possível adquirir  os produtos industrializados, uma espécie de mercearia que vendia de tudo.

Conta Isidrio Alves que o proprietário Joaquim Muniz adquiria os produtos produzidos nas roças e vendia em Alcobaça.  Na venda os moradores compravam produtos diversos, “tudo no caderninho, no fiado para quem não podia pagar no momento” um grande favor que o torna grato até hoje:

“Na venda tinha açúcar, óleo, querosene, sabão, sal, aí o povo comprava. O proprietário Quincas Neto  também emprestava canoa para quem preferia ir vender suas safras na Alcobaça, lá os comerciantes ficavam no porto esperando para comprar.”

Segundo Evandro Virgulino ,71 anos,  a fazenda Itaitinga, onde morou quando criança com a família  na zona rural de  Alcobaça, foi uma grande produtora de farinha. Recorda que toda produção era  destinada  ao comércio da  rua do Porto em Caravelas.

Lá mesmo em Caravelas gastava a renda, comprando produtos vindos de Minas como açúcar, tecidos, e a carne Jabá. Destaca que o lucro com a venda da farinha era pequeno, “fica tudo no armazém, quem ganhava mesmo era os comerciantes que compravam a farinha para vender a de Minas Gerais.”

A cidade Mineira de Nanuque por sua vez, era abastecida pelas únicas transportadoras atuantes naquela parte do estado a Renato e Ramos que cobrava uma taxa altíssima para alimentar o comércio da maior cidade do extremo nordeste de Minas.

Através da estrada de ferro Bahia – Minas  os comerciantes mineiros compravam e vendiam no mercado de Caravelas que também abastecia as vizinhas, por conta disto as cidades baianas pagavam um preço altíssimo por produtos como açúcar, querosene, e a carne jabá. Suponho, apenas, que o preço ficava ainda mais abusivo no balcão das vendas do interior  como a da fazenda Cascata.

O comércio então era dominado pelos mineiros pelo fato de que não havia outra rota de escoamento pelo norte em direção a capital Salvador, como observou o deputado no final da carta escrita ao governador, explicando as razões desta dependência da cidade Mineira:

(…) Tudo isso governador, tem uma explicação simples.A faixa litorânea daqueles municípios baianos, até 12 léguas de fundo, está em completo atraso, sendo suas povoações sujeitas á vida primitiva da exploração de culturas pouco rendosas e da pesca, padecendo horrivelmente da carência de qualquer espécie de transporte, não só entre as sedes das comunas, mas também para o interior e a capital de estado.”( Koopmans, 2005. pg 36).

Essa dependência comercial  também foi observada por Matias Arrudão,  jornalista do jornal  O estado de São Paulo, em 1945, durante passagem pela cidade de Caravelas em 1945 quando  avião em que  voava  pousou para ajustes no aeroporto da cidade.

“Caravelas não têm grande expressão urbana. E toda via um porto de certo movimento,por onde e escoa os artigos produzidos pelo extremo sul da Bahia e oeste de minas, zona de Teófilo Otoni, A.E.F, Bahia-Minas, parte de Caravelas e comunica – se com o Jequitinhonha, em “Arassuae”, num percurso de mais de quinhentos quilômetros em dois dias de viagem.” (ESTADO DE SÃO PAULO, 1945).

Segundo Koopmans (2005) a partir da década de 50, iniciou se a construção de uma estrutura que mais tarde tomaria conta da região. No próximo texto da série  vamos analisar como o fim da Bahia – Minas e a abertura das primeiras estradas, mudaram as rotas de comércio influenciando o surgimento e crescimento do Comercinho dos Pretos, que mais tarde originou o povoado de Tira-banha e Teixeira de Freitas. (Ferreira, 2010).

 

 Atualizado 05/05/15

Referências:

KOOPMANS. Padre JoséAlém do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005.

MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna: Companhia das Letras.SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo.

www.fazendacascata.com.br/site/a-fazenda/

FERREIRA, Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus- x. Teixeira de Freitas BA, 2010.

Arrudão. Matias. A boa Terra. O estado de S. Paulo, 16/02/1945. Página 03.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

Veja também:

O rio Itanhém parte 01

O rio Itanhém parte 02

O rio Itanhém parte 03

O rio Itanhém parte 04

A exploração da Madeira parte 01

Medicina oficial em Teixeira de Freitas.

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 03

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 01

Mulheres parteiras parte 02.

Praça da prefeitura

O causo do Tatu papa -defunto.

Os nomes que Teixeira de Freitas já teve

O cine Horizonte

O comércio de Teixeira de Freitas

História da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas

O causo do Boitatá

O causo do nó da mortalha

Emancipação: História e memória

 

 

 

O cinema vai à mesa

Existem filmes deliciosos e livros para serem devorados. Mas pela primeira vez essas duas formas de arte se juntam em O CINEMA VAI À MESA de Rubens Ewald Filho e Nilu Lebert.Convidar os amigos para ver um filme em casa e depois oferecer-lhes um jantar é algo bastante comum. Mas que tal surpreendê-los com os pratos vistos no filme?
Melhor ainda se as receitas forem ensinados por alguns dos maiores Chefs do Brasil como: Adriano Kanashiro, Alessandro Segato, Allan Vila Espejo, Benny Novak, Calors Siffert, Emmanuel Bassoleil, Erika Okazaki, Fabrice Lenud, Hamilton Mellão, Juscelino Pereira, Luciano Boseggia, Mara Salles, Maria Emília Cunali, Mariana Valentini, Marie – France Henry, Mukesh Chandra, Roberto Strôngoli, Silvia Percussi, Thompson Lee e Waldete Tristâo.
Este saboroso livro, além de muitas receitas detalhadas, traz informações e curiosidades sobre os filmes, seus atores e diretores. E fotos de dar água na boca!Traga o sucesso de belíssimos filmes para a sua mesa: A Festa de Babette, Vatel, Dona Flor e seus Dois Maridos, Simplesmente Martha, Chocolate, Maria Antonieta, O Jantar, Volver, Casamento Grego e muitos outros!
Um banquete para todos os paladares!.

 

Os leões de Bagdá

Por (Daniel Rocha)

Foi -se o tempo que história em quadrinhos era coisa só para crianças, hoje diversos títulos adultos no mercado diversas obras se destacam pelo conteúdo. Um bom exemplo é a revista Os leões de Bagdá lançado no Brasil em 2007.

No ano de 2003, os norte – americanos promovem um bombardeio a capital do Iraque, vitima deste ataque um bando de Leões escampam do Zoológico da Metrópole . Perdidos, confusos, famintos e finalmente livres, os quatros leões perambularam pelas ruas destruídas da cidade numa luta desesperada para salvar suas vidas.

Ao documentar a situação dos leões, a questões sobre o verdadeiro significado da liberdade e posto: é melhor morrer livre do que viver a vida em cativeiro? Baseado em uma história verdadeira, os autores Vaughan e Henrichon criaram uma janela única e comovente sobre à vida e a guerra.

 

Editora: Panini Brasil.
Daniel Rocha

 

Divulgado resultado dos Salões de Artes Visuais da Bahia 2013

Dentre 463 propostas inscritas, um recorde histórico do projeto, os Salões de Artes Visuais da Bahia 2013, promovidos pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Governo Estado (SecultBA), vão expor 110 obras selecionadas através de edital público, realizadas por 79 diferentes artistas.

Nesta edição, o projeto foi ampliado e vai realizar exposições e atividades de formação gratuitas em cinco cidades de diferentes regiões, reforçando sua relevância no incentivo à criação e difusão de produção artística e à dinamização dos espaços expositivos do interior do estado, com objetivo de apresentar ao público a diversidade da atual produção baiana em Artes Visuais, divulgar e valorizar o trabalho dos artistas e estimular a reflexão sobre temas atuais da área.

As obras premiadas e as menções especiais vão compor uma mostra em Salvador, completando a lista que faz com que os Salões passem a estar presentes em todos os seis Macroterritórios da Bahia. As listas de selecionados e suplentes estão disponíveis no site da Funceb.

Até 2012, as exposições dos Salões aconteciam em três cidades. Neste ano, elas serão montadas no Centro de Cultura Amélio Amorim (Feira de Santana), com 27 obras; Centro de Cultura Teixeira de Freitas, com 20 obras; Casa Afrânio Peixoto (Lençóis), com 17 obras; Palácio das Artes (Barreiras), com 21 obras; e Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima (Vitória da Conquista), com 25 obras.

São trabalhos de livre temática, nas modalidades de arte e tecnologia, assemblage, cerâmica, colagem, desenho, design gráfico (ilustração, humor gráfico e quadrinhos), escultura, fotografia, grafitti, gravura, instalação, intervenção urbana, objeto, performance, pintura, tapeçaria e videoarte.

Na abertura de cada Salão, uma comissão de premiação específica anunciará três obras premiadas entre as expostas, que receberão prêmios de R$ 7 mil cada. Serão investidos, portanto, um total de R$ 105 mil em premiações para 15 artistas (66% a mais que em 2012). Além disso, cada expositor receberá um auxílio para o custeio da sua participação no valor de R$ 800. Há também os prêmios simbólicos: as menções especiais, indicadas pela comissão de premiação, e o Prêmio do Público, pela escolha dos visitantes.

Por fim, fortalecendo a divulgação e a difusão do trabalho dos participantes, o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) abrigará uma edição especial dos Salões, em setembro de 2014, com as obras premiadas e as menções especiais deste ano, numa parceria entre Funceb e Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). Elas também vão estar nas páginas do Catálogo dos Salões de Artes Visuais da Bahia, publicação bianual de registro e divulgação.

Tomboy

O exterior não reflete o interior? Esta é a premissa do filme francês Tomboy (2011) só agora lançado no Brasil, que nos chama a refletir sobre esta pergunta. Depois da semana em que a cantora

Daniela Mercury resolveu abrir a porta do armário, provocando espanto e comentário, o filme é uma ótima pedida para quem curte um bom filme ou que deseja pensar sobre o assunto.

No filme, Laure (Zoé Héran), uma garota de 10 anos, vive com os pais e a irmã caçula, Jeanne (Malonn Lévana). A família mudou-se há pouco tempo, por isso, não conhece os vizinhos. Um dia, Laure resolve ir à rua e conhece Lisa (Jeanne Disson), que a confunde com um menino.

Laure, que usa cabelo curto e gosta de vestir roupas masculinas, aceita a confusão e apresenta-se com o nome de Mickaël. A partir deste episódio passa a levar uma vida dupla, pois, os seus pais sequer sabem da sua falsa identidade.

O público é pego de surpresa ao descobrir que não se trata apenas de uma brincadeira. A garota de fato não se sente bem se assumindo menina, por isso, não por brincadeira que cria uma imagem masculinizada de si mesma, apaixonando-se por uma garota, com a inocência própria das crianças.

Tomboy ainda é repleto de situações engraçadas, como a entrada de Laurem no time de futebol e durante um banho de rio quando precisa simular volumes na roupa a fim de parecer menino. Além da sensível irmã Jeanne que descobre e respeita a aventura da irmã mais velha, porque percebe que vestida de menino ela se sente mais feliz.

O filme toca no assunto de forma delicada e respeitosa, sem alarme ou panfletagem, sem valer de quaisquer estereótipos. Uma boa pedida para quem curte assistir a um bom filme em casa, que foi produzido fora do circuito americano de cinema. Tomboy está disponível em locadoras.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

Gilberto Gil confirma em entrevista que seus pais já moraram em Medeiros Neto – BA

Em Entrevista de Gilberto Gil para revista Bravo/dezembro/2012 o cantor confirma o que muitos medeirosnetenses já diziam a anos: Seus pais realmente já moraram em Medeiros Neto. Confira na íntegra abaixo a entrevista.

Gilberto Gil: Sonho muito, sabe? (ele se acomoda num terraço do Fasano, luxuoso hotel da Zona Sul carioca. São 17h15 de uma terça-feira, 9 de outubro. À noite, o cantor e o filho Bem irão fazer um pocket-show no bar do hotel)

Bravo!: Sonha com o que?
Com a minha terra, Itaguaçu. Com os lugares marcantes de lá: o átrio da igreja, o mercado, o correio, a rua de cima e a de baixo, as duas únicas da cidade…
No recenseamento de 1950, Itaguaçu somava uns 800 habitantes, acredita? Oitocentos! Na realidade, nasci em Salvador, mas poucas semanas depois segui para o interior da Bahia, onde meus pais moravam. Claudina e José Gil… Meus pais…. ela, mestiça de negro com índio, trabalhava como professora primária. Ainda está viva, em Salvador, e brevemente completará 99 anos. Ele, mulato, morreu com 78.

Foi um dos raros médicos de Itaguaçu – clínico geral e, depois, sanitarista. O outro médico se chamava Edson Gouveia. Também só havia dois farmacêuticos no município. Um deles, José Celestino, me batizou. Lembro-me bem de todos, né? Do doutor Edson, de meu padrinho, do seu Magalhães, do seu Osvaldo Conceição, do Juvenal Wanderley, dos fogueteiros, do pároco, do juiz de direito.

Itaguaçu se localiza entre a caatinga brava, inóspita, dura e a Chapada Diamantina. Por isso se beneficia do clima serrano, mais ameno, mais fresco. E recebe influências tanto da cultura sertaneja quanto da cultura menos rígida que caracteriza a serra.

Diz o Google que a cidade fica longe de Salvador. são quase 500 km de distância.

Não sei exatamente a quilometragem. Mas recordo que levávamos dois dias para chegar à capital. Pegávamos um trem e um navio. Entrávamos de vapor na baía de Todos os Santos. Foi em Itaguaçu que travei contato com a sonoridade e o universo disseminados pelas músicas de Luiz Gonzaga. Conheci os repentistas, os sanfoneiros, os violeiros, os cegos que cantavam enquanto esmolavam. Nas ruazinhas dali, escutei inúmeros dos gêneros que hoje agrupamos sob a designação de forró. Os músicos se encontravam, sobretudo, durante os finais de semana. Tocavam na feira, onde os negociantes vendiam laticínios, rapadura, carnes, feijão, arroz, farinha, verduras e derivados de cana. Uma feira animadíssima, que atraía muita gente da região. Devia ter uns 4 ou 5 anos quando descobri Gonzaga pelo rádio. Na mesma época, costuma ouvir Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Bob Nelson e as irmãs Batista.

O surgimento de Gonzaga, porém, me tirou do sério. “Ele canta como o pessoal de Itaguaçu!”, notei maravilhado. “Ele é o nosso cantor!” Virei fã na hora, me identifiquei de imediato com aquela voz, aquele palavreado, aqueles ritmos. Gonzaga acabou se transformando em meu primeiro ídolo. Eu me esforçava para acompanhar a carreira dele.

O Segundo foi João Gilberto?

Não, foi Dorival Caymmi. Depois, Cauby Peixoto, Angela Maria e, aí sim, João.

Com que idade você saiu de Itaguaçu?

Com 9. Fui cursar o ginásio em Salvador. Morava na casa de tia Margarida, professora como minha mãe.

Nunca mais voltou?

Voltei somente uma vez, para filmar cenas de Tempo Rei (documentário sobre o compositor, lançado em 1996). Já não existe ninguém de minha família em Itaguaçu.
Logo após eu me estabelecer na capital, meus pais deixaram nossa cidadezinha por razões profissionais. Passaram uma temporada em Medeiros Neto, outra em Ibirataia e finalmente se instalaram em Vitória da Conquista. Tudo na Bahia né? Enquanto estive em Itaguaçu, nunca pude ver o Gonzaga pessoalmente. Só o admirava por foto. Mas um dia, já em Salvador, consegui avista-lo de perto. Eu rondava os 10 anos. E o Gonzaga se apresentou na praça Castro Alves. Não… Foi na praça da Sé. Ele fazia uma turnê, patrocinada pelo colírio Moura Brasil, que cruzava o país inteiro. Observá-lo em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia uma epifania. Fiquei com a impressão de que Gonzaga descera dos céus para pousar bem ali, diante de nós. Um negócio extraordinário!

Você já tocava?

Estava aprendendo acordeão, justamente por causa do Lua. Com 2 anos e meio, disse para minha mãe: “Quando crescer, vou ser ‘musgueiro'”. Inventei um neologismo, né? “Musgueiro”, uma corruptela de músico. Na ocasião, além de me interessar por programas das rádios Tupi e Nacional, ouvia minha mãe e minha avó Lídia cantarolarem em casa. Minha mãe, aliás, cantarola até hoje. Em Vitória da Conquista, integrava o coro da igreja. Talvez por viver tão rodeado de canções é que decidi me tornar “musgueiro”. Mas em Itaguaçu não aprendi nenhum instrumento, embora venerasse as cornetas e os tambores de brinquedo. Um pouquinho antes de me mudar para a capital, minha mãe se lembrou de meu antigo desejo e perguntou: “você ainda quer virar ‘musgueiro’? Respondi que sim. Ela, então, me matriculou numa escola de música em Salvador. “Você não gosta do Gonzaga? Não é louco por baião? Pois vá estudar sanfona!” Eu obedeci né? (risos) E me formei acordeonista. Pratiquei o instrumento entre os 10 e os 16,17 anos – um acordeão da marca Veronese, com 80 baixos. Minha mãe resolveu comprá-lo do professor espanhol que me dava aulas.

Gil com o acordeão que ganhou da mãe quando menino. Foi o primeiro instrumento que aprendeu a tocar

Você o guardou?
Sim, mas raramente toco. Perdi o jeito. No final da adolescência, ganhei um violão Di Giorgio, também de minha mãe, e abandonei gradativamente o acordeão. Só o peguei de novo com seriedade em 2000, quando lancei o disco Gil & Milton.

No álbum, há duas sanfonas, uma das canções que escrevemos juntos. Nós a apresentamos em shows tocando o instrumento. À semelhança do Wagner Tiso, do João Donato e de outros músicos da minha geração, o Milton Nascimento começou como acordeonista. Por isso, compusemos Duas Sanfonas. Peraí… Agora está me ocorrendo que toquei um pouco de acordeão em outro disco de 2000, As Canções de eu tu eles.

Observar Gonzaga em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia UMA EPIFANIA

“GONZAGÃO ERA COMO UMA PLANTA. ERA AGRESTE, NÉ? INCULTO E BELO…UMA FORÇA BRUTA”

Nos dois trabalhos, você usou o mesmo instrumento que ganhou de sua mãe?

O mesmíssimo! Com aquele acordeão, montei meu primeiro conjunto musical, Os Desafinados. O nome do grupo, claro, surgiu em decorrência da bossa nova. Éramos um baterista, um violonista e dois acordeonistas. A gente tocava para a elite, em aniversários e bailes

Tocavam forró?

Muito de vez em quando. Àquela altura, as classes mais abastadas já não apreciavam os ritmos nordestinos. Então tocávamos standards norte-americanos e cubanos.

Você compunha no acordeão?

Improvisava uns temas, umas bobagenzinhas, mas compor realmente só depois de aprender violão. Se bem que, no tempo dos Desafinados, criei diversos jingles para um publicitário e radialista da Bahia, o Jorge Santos.

Recorda-se de algum?

Deixe-me pensar… Sim! Do jingle que anunciava os produtos da Milisam, loja de um sujeito chamado Milton Sampaio: “Milisam tem crediário popular/Milisam tem roupa feita pra você comprar/Sem sentir/Compre de tudo pra vestir/No crediário popular/No plano espetacular da sua Milisam”. (risos)

Quando você e Luiz Gonzaga se conheceram?

Na época do tropicalismo. Alguém me levou até o apartamento dele. Esqueci quem exatamente. Foi à tarde, na Ilha do Governador. Lembro que Gonzaga elogiou um de meus primeiros sucessos, Procissão, que gravei em 1968 (a música, de cunho político, critica os que prometem “tanta coisa pro sertão”). Ele comentou: “Vocês, jovens que frequentam a universidade, podem questionar a igreja e os coronéis. Eu, não. Sou um homem simples. Preciso agradar todo mundo”. Justificava, assim, as relações mais amenas que certos artistas do Nordeste estabeleciam com os poderosos. Pouco depois, ficou amigo de meus pais. Sempre que passava por Vitória da Consquista, ia visitá-los, tomar um café, comer um bolo.

Gonzagão não fazia ideia da própria importância?

Não, não fazia. Era como uma planta, Era agreste, né? Inculto e belo… Uma força bruta. Misturava-se naturalmente à terra. Pertencia de maneira orgânica àquele universo árido que retratou. Não dispunha do afastamento crítico que os novos cantores preconizavam.

Ele compreendeu o tropicalismo?

Não sei… Nunca conversamos sobre o assunto. De qualquer modo, dá para afirmar que Gonzagão revelou-se tropicalista antes do tropicalismo. (risos) Por um lado, se inseria profundamente na cultura brasileira, negro-mestiça, afro-armonial, afro-mediterrânea. E, por outro lado, dialogava com os gêneros estrangeiros que aprendeu quando trabalhava em inferninhos. Era completamente antropofágico, percebe? O nosso Elvis Presley! (risos) Um artista on the road, que abriu caminho, que pavimentou a estrada para uma porção de gente. Não à toa, o som do acordeão aparece em vários dos hits atuais – o forró universitário, o forró sacana, a trilha da novela Avenida Brasil, as canções do Michel Teló…

Michel Teló não existiria sem Gonzaga?

Oxente! Eu não existiria sem Gonzaga! imagine o Michel Teló, que pintou bem depois. (risos)!

Fonte: Marcos Marcelo/ Patrick Brito http://www.medeirosneto.com// Revista Bravo

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