Por Daniel Rocha

Em 1982, o carnaval na histórica cidade de Caravelas, situada no extremo sul baiano, marcou mais uma vez a consolidação do local como o maior carnaval de rua da região, atestam os jornais da época. Com uma programação repleta de animação e tradição, o evento encantou moradores locais e turistas, promovendo uma festa inesquecível que explicitou, também, os contrastes sociais da época.

A promoção do carnaval pelo governo municipal contou com a presença de dois trios elétricos locais renomados: o Carenagem e o Kitongos 2001. A Escola de Samba Portela, com sua apresentação tradicional, e diversos blocos e bandas animaram as ruas estreitas e pitorescas da cidade colonial.

Segundo jornais, entre os blocos mais populares estavam “D’os Paranoicos” e “Turma do Golfinho”, que contagiaram o público com sua energia contagiante. A lendária Escola de Samba Portela também se destacou, com sua bateria vibrante vestida em azul e branco, encantando a todos por onde passava, independente da classe social ou origem.

Dona Leda, uma foliona nanuquense, e Dalma e Gilberto, de Serra dos Aimorés, que desfilaram com fantasias exóticas, colorindo ainda mais as ruas da cidade, gerou comentários ao ponto de serem observados pela imprensa mineira da fronteira.

O carnaval de Caravelas não era apenas uma festa local, como  ainda hoje, atrai visitantes de cidades vizinhas, especialmente de municípios mineiros, Nanuque e Serra dos Aimorés, que  ao longo de décadas construiu uma forte ligação histórica com a região através da linha férrea Bahia e Minas.

A presença dos mineiros também se estendeu ao Clube dos 40,  na época, ponto de encontro tradicional da elite local e dos ricos turistas, onde o político local Deputado Geraldo Ramos, então presidente do clube, desempenhou um papel importante na organização, garantindo que a celebração transcorresse sem contratempos. “O deputado  cuidou dos mínimos detalhes para que a festa e comemoração pudesse  pendurar sem agitações”, registrou um jornal.

Segundo relatos, o deputado foi um dos responsáveis por “cuidar dos mínimos detalhes” para garantir que a festa e as celebrações transcorrissem sem contratempos. É importante recordar que o carnaval de 1981 em Caravelas foi marcado por manifestações contra a Ditadura Militar e os políticos.

Nesse contexto, é possível interpretar que esses “mínimos detalhes”, mencionados pela imprensa, podem ter se referido à exclusão desse clima de manifestação política, uma vez que o período estava próximo das eleições gerais, que ocorreriam em novembro daquele ano. O regime militar estava em declínio, e o país enfrentava sérias dificuldades econômicas, especialmente na região onde o ciclo da exploração da madeira estava se encerrando.

Por outro lado, o Clube Turunas alternativa mais popular e inclusiva,  se destacou pela eleição do Rei Momo, que agitou uma comentada a festa de fantasias,   evidenciando a força das festas privadas e  dicotomia entre o carnaval aberto, popular, e o carnaval fechado, elitista e segregador, representados respectivamente pela rua e pelos clubes.

Além dos tradicionais trios elétricos, os turistas e foliões desfrutaram do som do “jegue elétrico”, uma inovação trazida pelo saudoso Clodomir Siquara, que, como de costume, buscava alegrar o povo com suas contribuições para a festa. Este elemento, carregando caixas acústicas e um toca-fitas entoando marchas carnavalescas, tornou-se uma atração querida entre os participantes.

Povo nas ruas

Apesar da predominância dos movimentos privados, nas ruas e blocos, o povo se destacou nos seus espaços, representando a maioria invisibilizada, como é possível ver na foto. Vestidos com suas roupas cotidianas, sem fantasias elaboradas, demonstram sua disposição em lutar pelo direito à folia , à cidade, à coletividade em suas próprias terras, defendido também pela sua escola de samba popular.

Assim, o Carnaval de 1982 em Caravelas não apenas celebrou a festividade, mas também as dinâmicas sociais e as lutas por inclusão e igualdade em uma época de intensas disparidades na região e no país.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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