Por Daniel Rocha

Há escolas que ficam no prédio. Outras ficam nas pessoas. Em Teixeira de Freitas, o Colégio Estadual Ângelo Magalhães parece ter escolhido o segundo caminho.

Mais do que salas, quadros e horários, a escola se transformou, ao longo de quase três décadas, em um espaço de convivência, formação e construção de identidade. Hoje, ela segue viva — não no funcionamento cotidiano, mas na memória de quem passou por lá.

E são essas memórias que ajudam a contar a história. Os nomes dos professores ainda circulam com naturalidade nas conversas: Luzeni, Marlene, Nalva, Lilia, Analice, Soraya, Sueli, Roberto, Regina Célia, Selma, Marina, Maurina, Adalgisa, Morzalane, Wileide, Vera Lúcia, Luciene, Leninha, Euzelia, Madalena, Marinalva, Chirley, dentre outros, Mais do que docentes, foram referências — e isso aparece em quase todo relato.

Encontro de professores do Angelo Magalhães. Foto: Tomires Barbosa

João Batista, que estudou entre 1995 e 1998, lembra das aulas de inglês com a professora Regina. Naquela época, não era comum ver tecnologia em sala, mas ela levava televisão e videocassete para exibir o curso Follow Me. A proposta era fazer os alunos falarem inglês — tarefa difícil, segundo ele, em meio à disciplina rígida e ao espírito brincalhão da turma.

Edlene Souza guarda na memória outro tipo de aula — a que acontecia fora da sala. Em 1994, os jogos intercolegiais levavam os alunos ao Clube Jacarandá para torcer por vôlei, futsal e handebol. A torcida era animada, às vezes até demais. E lá estava a direção, sempre por perto, controlando os excessos. Hoje, ela lembra disso com humor.

Maria Rita recorda de 1996, das aulas de religião com a professora Adalgisa. Filmes, músicas da Campanha da Fraternidade e a oração de São Francisco faziam parte da rotina. Mais do que conteúdo, eram lições que, segundo ela, ficaram para a vida.

Já Pablo Nunes, do ensino noturno, lembra de 1998 como o ano em que a história ganhou palco. Nas aulas da professora Telma, a Guerra de Canudos não ficou só no livro: virou leitura, debate e até encenação no auditório da escola.

José Cláudio traz à memória uma aula diferente. Em 1997, a professora Luzeni levou para a sala o caso do assassinato do indígena Galdino, em Brasília. A discussão não ficou no fato em si — avançou para a forma como a imprensa tratava o caso e para as questões sociais envolvidas. Uma aula que ultrapassava o conteúdo e provocava reflexão.

Itamar Vieira também lembra de quando a geografia saía do mapa. Com a professora Marlene, o tema era fome, desigualdade e soluções possíveis. A proposta era pensar o Brasil — e não apenas estudá-lo.

E há também as lembranças inesperadas. Adailton Oliveira conta que, em 1995, chegou para uma aula de português e encontrou outra coisa: O Rei Leão. Na época, o filme era novidade, acessível a poucos. Na escola, virou atividade de interpretação e produção de texto. Para ele, foi inesquecível.

Histórias como essas ajudam a entender o que foi o Ângelo Magalhães. Um lugar onde o ensino se misturava com a vida, onde havia disciplina e criatividade, cobrança e afeto. Um espaço que formava não apenas alunos, mas cidadãos.

Alunos da turma de 2008

Hoje, o prédio pode não funcionar como antes. Mas a escola continua existindo — nas lembranças, nas conversas, nos caminhos que cada ex-aluno seguiu. Porque algumas escolas não acabam. Elas seguem, discretamente, dentro de quem passou por elas.

E no próximo capítulo, a história chega ao seu desfecho: o encerramento oficial do colégio, as mágoas que ficaram entre professores e os posicionamentos que marcaram esse momento.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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