Por DANIEL ROCHA

Toda cidade tem suas pausas silenciosas. Em Teixeira de Freitas, uma delas começou a tomar forma no início de 2010, quando o Colégio Estadual Ângelo Magalhães, depois de 26 anos de história, teve seu encerramento oficialmente decretado.

A decisão chegou como tantas outras: discreta, técnica, registrada em portaria no Diário Oficial de 25 de fevereiro. A justificativa era objetiva — queda na procura por matrículas. No documento, parecia apenas mais um ajuste administrativo. Mas, para quem vivia a escola, a história era mais complexa.

Vista aérea do Ângelo/Ruy Barbosa

Aos poucos, o cotidiano foi se desfazendo. Papéis mudaram de lugar, alunos foram realocados, funções redistribuídas. O Colégio Democrático Ruy Barbosa, logo ao lado, passou a absorver essa estrutura. E o que antes era separado por um muro virou passagem aberta — como se fosse possível unir trajetórias apenas derrubando um limite físico.

Mas fora dos documentos, outras narrativas circulavam. Professores e funcionários questionaram como um colégio cheio, com cerca de 850 alunos, salas ocupadas nos três turnos, uma rotina que não combinava com a ideia de esvaziamento, iria fechar? Para muitos, os argumentos não explicavam tudo. Havia também a sensação de que a decisão passava por outros caminhos — menos visíveis, mais difíceis de registrar.

A própria estrutura do Ângelo Magalhães aparecia nos questionamentos da comunidade: auditório, laboratório de informática, espaço amplo. Elementos que, segundo esses relatos, superavam as condições da escola que passou a incorporá-lo. A comparação, inevitável, alimentou dúvidas que nunca tiveram uma única resposta.

Corredor vazio no presente

Em meio às reações, veio a versão oficial. Em março de 2010, a Secretaria de Educação da Bahia divulgou nota explicando que a medida fazia parte de um processo de reordenamento da rede. Segundo o órgão, tratava-se da unificação de duas escolas separadas apenas por um muro, mantendo o nome da unidade com maior número de matrículas. O texto também apontava uma queda de 19% nas matrículas do Ângelo Magalhães nos três anos anteriores.

A unificação, ainda de acordo com a secretaria, resultaria na ampliação da capacidade: 16 salas e possibilidade de atender até 1.920 estudantes, abrangendo bairros como Bela Vista, Centro e Monte Castelo. O processo, afirmava a nota, já vinha sendo comunicado desde novembro de 2009, com a matrícula de 2010 realizada sob essa nova organização.

Mas, entre o que foi planejado e o que foi sentido, havia distância. A decisão não voltou atrás. O colégio saiu oficialmente do mapa administrativo. Ficaram os prédios, adaptados a novos usos, e uma memória que não encontrou encerramento tão simples.

Texto publicado no jornal O Sollo, em março de 2010

Porque o fim de uma escola nunca é só burocrático. Ele mexe com rotinas, desfaz vínculos e deixa marcas que não cabem em relatórios. Em Teixeira de Freitas, o Ângelo Magalhães deixou de funcionar — mas não deixou de existir. Segue presente nas histórias contadas, nas lembranças compartilhadas e na vida de quem passou por seus corredores.

Mosaico do antigo espaço do Ângelo Magalhães

E é nesse território da memória que essa história, de fato, continua. Em um recente comentário nas redes sociais a professora Marlene Pires, destacou:  “Sempre me emociono com as lembranças do Ângelo Magalhães. Na quinta feira fui ao Supermercado Sempre tem e reencontrei um aluno de longa data. Não o reconheci, mas ele sim, me reconheceu. Nos abraçamos comovidos com o encontro e ele ficou visivelmente emocionado”.

Nos anos seguintes a unificação foi de desafios. Em 2014, estudantes denunciaram à TV Sul Bahia as más condições de funcionamento da escola, já sob a denominação de Colégio Estadual Democrático Ruy Barbosa. À época, a direção reconheceu as dificuldades estruturais e ressaltou que a unidade carregava um histórico de limitações físicas, iniciado em um prédio antigo herdado da antiga Escola Eduardo Pires e posteriormente ampliado com a incorporação do espaço do extinto Colégio Ângelo Magalhães, e ao mal comportamento dos alunos.

Alunos 2014

A gestão também apontou o comportamento inadequado de alguns alunos como um dos fatores que agravavam a situação já precária do prédio, que, nos anos seguintes, passou a receber investimentos, como a construção de uma quadra coberta e a realização de reformas essenciais.

Já em 2026, o Governo do Estado deve inaugurar um novo prédio, e o Colégio Estadual Democrático Ruy Barbosa passará a funcionar em uma nova estrutura e em tempo integral, localizada na mesma Avenida Presidente Getúlio Vargas, nas proximidades do Estádio Municipal, encerrando um ciclo histórico de problemas estruturais que marcou as duas instituições ao longo dos anos.

Cólegio Estadual de Tempo Integral Ruy Barbosa

A unidade passará a adotar o modelo de educação integral e contará com uma estrutura moderna, considerada uma das mais equipadas da cidade. A mudança promete favorecer não apenas novas histórias, mas também honrar as raízes de tantas outras vividas no antigo prédio do Ruy Barbosa e do saudoso Ângelo Magalhães —  hoje tomado pelo silêncio do que já foram seus corredores e salas.

FONTES E REFERÊNCIAS

ALCOBAÇA (BA). Escritura pública de doação de terreno destinado à implantação de escola estadual. Nova Lídice, 4 dez. 1981.

BAHIA (Estado). Secretaria da Educação. Portaria de extinção do Colégio Estadual Ângelo Magalhães. Diário Oficial do Estado da Bahia, Salvador, 25 fev. 2010.

O SOLLO. Secretaria de Educação esclarece questão do colégio em Teixeira de Freitas. Assessoria de Comunicação (ASCOM). Teixeira de Freitas, mar. 2010.

SULBAHIANEWS. Teixeira de Freitas: DIREC 09 esclarece dúvidas sobre a unificação do Ângelo e do Rui Barbosa. mar. 2010. Acesso em: 2015.

TEIXEIRA DE FREITAS (BA). Prefeitura Municipal. Registro oficial da estrutura do Colégio Estadual Ângelo Magalhães. Teixeira de Freitas, 17 dez. 2007.

TV SUL BAHIA. Denúncia sobre as condições do Colégio Estadual Democrático Ruy Barbosa. Reportagem exibida em 10 jul. 2014.

ROCHA, Daniel. 1992 no Ângelo Magalhães. tirabanha.com.br, 2015.

Conversas informais, 2015, 2018,2026.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook
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