Por Daniel Rocha*
Antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) em 1988, que democratizou o acesso a médicos e hospitais, os curandeiros, rezadores e praticantes de religiões afro-brasileiras, comumente chamados de “macumbeiros” pelos moradores de Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, desempenhavam um papel fundamental no cuidado à saúde da população. Utilizando rituais, remédios e práticas ligadas às religiões de matriz africana, eles atendiam aqueles que buscavam cura para diversos males.
Vale ressaltar que termos como “macumba” e “macumbeiro” foram utilizados pelos entrevistados para se referirem a cultos afro-brasileiros, mas é importante evitar seu uso de forma pejorativa. Esses “centros de macumba”, muitas vezes vinculados ao candomblé e à umbanda, eram locais procurados por moradores para tratamentos espirituais e o uso das famosas garrafadas — remédios caseiros feitos de raízes, folhas e álcool.
Na década de 1960, por exemplo, havia um terreiro no bairro Nova América, conhecido por tratar pessoas com “juízo perturbado”. O líder espiritual, um pai de santo, realizava tratamentos espirituais e, quando necessário, internava essas pessoas para acompanhamento. “O pai de santo trabalhava mais de graça do que por dinheiro. Ajudava muita gente… Não tinha outro lugar para tratar da doença”, conta Lima Santos, testemunha da época.

Segundo o memorialista Domingos Cajueiro Correia, mesmo após a inauguração do Hospital Sobrasa em 1971 — o primeiro da cidade —, o trabalho dos curandeiros e as garrafadas continuaram sendo procurados pela população. Isso indica que a busca por esses tratamentos não se restringia à falta de acesso à medicina oficial, mas também se baseava em fé e tradição. Naquela época, os primeiros hospitais da cidade só atendiam pacientes conveniados ao INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), antes da fundação do SUS.
Ainda segundo Cajueiro, na década de 1970, doenças venéreas eram tratadas com Benzetacil injetável no hospital, seguido do uso das garrafadas receitadas pelas rezadeiras. “O uso de um não excluía o outro”, reforça ele, mostrando como a medicina popular e oficial coexistiam.
Pedro Ferreira, um morador sexagenário, recorda-se dos “macumbeiros” Gui e Pó de Pemba, que atuavam nas proximidades do trevo da cidade, no bairro Mirante do Rio, durante os anos 1970. Ele destaca que “Seu Gui” era o mais procurado, realizando atendimentos a domicílio, “fechando corpos e fazendo rezas”, conforme a demanda dos clientes.
Nos anos 1980, Dona Mocinha, parteira e rezadeira do povoado de Caxangá, em Alcobaça, também orientava mulheres com dificuldades para engravidar, receitando garrafadas. Ela atendia em sua casa, onde hoje está localizado o bairro Recanto do Lago.
Essas histórias mostram que, em tempos passados, os curandeiros, rezadores e “macumbeiros” desempenhavam o papel de “médicos do povo” em Teixeira de Freitas. A população os buscava não apenas por falta de acesso a médicos e hospitais, mas também por fé, crença e costumes, preservando uma tradição que sobreviveu mesmo com a chegada da medicina oficial.
Fontes:
Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.
Anotações do memorialista Domingos Cajueiro Correia
Conversa informal com Pedro de Ferreira
Foto: AV Getúlio Vargas 1985. Revista Teixeira de Freitas Origens. Banco do Nordeste.
Daniel Rocha – Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com.
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Atualizado: 21/10/24
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