Por Daniel Rocha 

Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, o extremo sul da Bahia começou a se transformar com a chegada da exploração intensiva da madeira e abertura de novas estradas de rodagem que permitiram a circulação de carros e caminhões pela microrregião rural do sertão do rio Itanhém, até então mais acessível por canoas através do rio.   

 Ao longo dos anos das décadas citadas, o aparecimento dos automóveis modificou hábitos e gerou estranhamentos em uma população acostumada a fazer uso de carroças e animais para se mover a longas distâncias. Posto isto, o que os registros e relatos dessa época informam sobre esse momento?  

Como dito anteriormente, na década de 1950, a Fazenda Cascata e seus trabalhadores já tinham concluído a abertura de uma das primeiras estradas de rodagem da região, a Cascata-Caravelas, responsável também pela chegada do primeiro caminhão na microrregião do sertão do Itanhém.  

Dapara Salvador através de navios da companhia Baiana e para cidades mineiras próximas através da estrada de ferro Bahia e Minas.   

Toda essa movimentação característica da época também permitiu aos trabalhadores mais humildes visualizar pela primeira vez um caminhão.  O senhor Isidro Alves do Nascimento (94 anos), antigo morador da zona rural próxima da Cascata, lembra, por exemplo, que em 1950, em companhia do pai, foi à vendinha da fazenda comprar alguns produtos ,como querosene, quando viu pela primeira vez o “Caminhão de Quincas Neto”.  

Lembrou o antigo morador ,em uma conversa informal, que maravilhado ficou por horas apreciando a máquina desconhecida que tinha um barulho assustador, luzes e peso parecido com os aviões de Caravelas que quando passava pelo céu fazia a meninada correr com medo para dentro das matas. Até então, quando precisava se deslocar para longas distâncias fazia uso de cavalos ou simplesmente ia andando mesmo, como a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras daquela redondeza. 

 Em 2014, em um bate papo informal na fazenda Nova América, outro antigo morador daquela época, Ivo de Freitas Correia, contou uma anedota que ilustra o imaginário popular local diante da chegada dos caminhões da empresa madeireira. Segundo o conto a estrada aberta pela madeireira “ Euleuzibio Cunha” (ELECUNHA S/A) que ligou o interior dos municípios de Caravelas e Nova Viçosa ao povoado do “Comercinho dos Preto”, Teixeira de Freitas, passava com regularidade uma senhora residente no quilombo caravelense da Volta Miúda que vivia a pedir carona aos caminhoneiros da empresa com ganas de chegar mais rápido ao povoado.  

 Diz a anedota que quando passava um caminhão por ela que lhe negava carona, a mesma jogava uma reza e dizia “lá na frente a gente se encontra.” Não dava outra, o caminhão parava algumas horas depois e ela passava na sequência sorrindo e alertando “Isso foi pra suncê  ser mais humilde da próxima vez.” O pequeno conto mostra que havia entre ambos, os chegantes e os da terra, um estranhamento do uso e fins individualista do automóvel. 

Conforme os relatos e registros analisados é possível notar que com o tempo os carros foram rapidamente adotados na rotina dos moradores da zona rural e do Comercinho dos Pretos, que encontram no automóvel um socorro rápido nos casos de necessidade e um meio de agilizar seus contatos e negócios. Assunto que vamos trazer com mais detalhes no próximo texto.  

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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