Por Daniel Rocha
O Dois de Julho, data emblemática da independência da Bahia, é amplamente conhecido por celebrar o triunfo das forças populares contra as forças coloniais portuguesas em 1823. No entanto, pouco se fala sobre as resistências ocorridas não apenas contra a invasão portuguesa, mas também contra o próprio imperador D. Pedro I, que assumiu o poder após expulsão da corte , cuja origem era a mesma dos colonizadores.
Baseado em um ofício datado de 25 de maio de 1823, o qual relata acontecimentos marcantes na Vila de Alcobaça, no extremo sul da Bahia, emerge um episódio que ilustra essa resistência.
Segundo o ofício redigido pelo Senhor João Vieira de Carvalho, comandante local, dois retratos das Suas Majestades Imperiais foram levados à Vila de Alcobaça pelo honrado brasileiro José Muniz Cordeiro. Essa visita real “despertou grande entusiasmo e festividades na localidade”.
No entanto, um cidadão brasileiro honrado chamado Francisco Luís Calheiros, preparou sua casa com decorações de seda e convidou todos para aclamarem vivas às Suas Majestades Imperiais. Após os vivas, Calheiros proferiu as palavras: “morra tudo que é pé de chumbo” (sic), uma clara alusão às figuras autoritárias e opressoras que representava e conservava o novo império.
O Juiz Ordinário da Vila de Alcobaça, interpretando as palavras de Calheiros como uma afronta à figura do imperador, ordenou sua prisão imediata, e ele foi conduzido à Cadeia local. A situação tomou uma proporção ainda maior quando o Tenente Manuel Ferreira de Paiva, acompanhado por cinquenta homens, foi enviado à Vila com o intuito de preservar o respeito devido aos retratos imperiais.
O episódio descrito no ofício datado de 3 de maio de 1823, embora tenha sido um acontecimento localizado, revela a existência de resistências não apenas contra a invasão portuguesa do estado, mas também contra o próprio regime imperial brasileiro do Primeiro Reinado.
A expressão “pés de chumbo” utilizada no relato sugere uma visão crítica em relação ao governo e à hierarquia estabelecida, bem como a insatisfação com a origem portuguesa tanto dos colonizadores quanto do imperador.
Isso também pode ser visualizado em outros fragmentos em estudos sobre o acontecimento e período na região e no estado, que, segundo Sérgio Armando Diniz Guerra Filho, no trabalho “O antilusitanismo na Bahia do Primeiro Reinado ( 1822 – 1831)”, UFBA, 2015, mostra que o restante da população local não se engajou de forma entusiástica no movimento pós a independência nacional e estadual que conservou a hierarquia colonial.
Isso se deve, em parte, ao fato de que, embora o regime tenha mudado, ainda havia resquícios da família imperial no Brasil. Em setembro de 1823, por exemplo, o Governo da Província da Bahia solicitou às Câmaras das Vilas que produzissem e enviassem listas com os nomes daqueles que se destacaram na luta pela liberdade, segundo o autor, chamados de “Os Patriotas”
Essas listas eram utilizadas para condecorações, concessão de pensões e empregos públicos, além de servirem como registros históricos dos acontecimentos relacionados à guerra pela independência e deveria ser elaborada pelos membros da casa, representantes do “Povo” e não do “povo.”
Segundo Gladys Sabina Ribeiro, na trabalho “Pés-de-chumbo” e “Garrafeiros”: conflitos e tensões nas ruas do Rio de Janeiro no Primeiro Reinado (1822-1831): “O Povo, com letra maiúscula e significando os proprietários -cidadãos ativos daquela outra parcela do “povo” (composta dos não remediados, pobres, escravos, forros ou livres, e que era mantida em precário controle e ocupava boa parte do tempo da polícia e das classes abastadas do país).”
Contudo, a falta de engajamento e participação ativa da população dessas cidades refletiu-se nas listas, que muitas vezes eram curtas e pouco detalhadas. Nas enviadas por Alcobaça, Caravelas, Viçosa e outras cidades do extremo sul da Bahia, por exemplo, poucos nomes foram indicados, e em alguns casos, nenhum nome foi mencionado. Em Alcobaça apenas cinco.
Isso evidencia que houve uma falta de entusiasmo e interesse da população dessas cidades do extremo sul da Bahia em se envolver mais ativamente nas lutas pela independência no 02 de julho e mais pela liberdade completa dos portugueses, já que a mesma não representou uma mudança no cotidiano onde a escravidão, por exemplo, não foi eliminada.
Conforme Yuko Miki, no livro, Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil (2018), no contexto da pós independência, os negros escravizados desta parte do litoral baiano organizou quilombos e levantes em resistência ao regime escravista que ,como prometido, não foi encerrado com o início nos primeiros anos do reinado de D. Pedro I, principalmente em Caravelas (BA).
Em 1828, por exemplo, o “Quilombo Império” fixo-se na mata próxima a cidade, que reuniu grande quantidade de negros fugitivos e também povos originários, lutou fazendo uso de armas de fogo, arcos e flechas, armadilhas e armas ocultas quando uma expedição anti-quilombo invadiu o lugar e reprimiu o movimento.
Essas pequenas informações da história local é um lembrete de que as narrativas de resistência não se limitam a um único inimigo ou a um único momento. O povo do extremo sul da Bahia, assim como em outras partes do país, lutou por sua liberdade e pelo fim das opressões impostas por diferentes poderes.
À medida que celebramos o Dois de Julho, é importante recordar e valorizar todas as vozes e lutas que contribuíram para a construção da independência brasileira. Os relatos contidos nas pesquisas como no ofício nos convidam a explorar os diversos aspectos da resistência e a compreender a complexidade dos eventos históricos, além de reconhecer os múltiplos protagonistas que participaram dessas batalhas, cada um com suas próprias motivações e aspirações pela liberdade.
Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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Foto: Alcobaça década de 1930.
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