O rio Itanhém Parte 02

Por Daniel Rocha

Na década de 1950 as margens do rio, na parte que compreende a zona rural de Alcobaça e do atual território de Teixeira de Freitas  diversas famílias negras viviam distribuídas por várias propriedades rurais ao longo do percurso, a família Correia, da fazenda Nova América, era uma das diversas desta parte da Bahia em cujo a população, neste período, se concentrava mais na zona rural que nas cidades. Sobre esse período exclusivamente rural da região convém conhecer as observações de alguns autores. 

De acordo com o Padre José Koopmans, até meados do século XX, o extremo sul era o lugar na qual existiam homens livres em terras livres, que oferecia condições de vida decente sem preocupação. “uma sociedade de pequenos produtores, de posseiros ou de camponeses e pescadores, que viviam da produção familiar.” 

Segundo o geógrafo Milton Santos, Revista brasileira de estatística de 1956, essa realidade só era possível porque a Bahia naquela década era um estado parcialmente agrícola e a capital Salvador a capital de um vasto e pobre mundo rural que se mostrava incapaz de modernizar-se. 

Segundo Valfrido Corrêa, 90 anos, que nasceu e se criou na fazenda Nova América em 1923, de fato os moradores desta fazenda viviam uma vida modesta baseada na agricultura e na pesca que se dedicavam também à pecuária, criação de galinha, porcos e animais de transporte como mulas e cavalos. 

Embora fosse bem diversificada as criações o peixe fazia parte da dieta das comunidades rurais tanto que na fazenda Nova América a captura de peixes no rio Itanhém era realizada sem intervalo e indiscriminadamente. Porém no mês setembro e outubro a pesca mudava a rotina da fazenda e da vizinhança, porque era o mês da primeira Piracema chamada pelos moradores de Ripiquete. 

Sobre esse período gosta de lembrar Ivanildo Ivo do Nascimento de 75 anos , que  também é natural da fazenda Nova América, até a década de 1960 o período da piracema era festejado por todos como o grande momento de fartura e pesca, tanto que não só os moradores da fazenda, mas de toda redondeza se deslocavam para o lugar afim de pescar. 

“Vinham pessoas das matas, dos povoados de Santo Antônio, Lavra, Pixixica e fazenda Cascata, pescar durante dois dias. Mais ou menos 50 a 100 pessoas, participavam da atividade ao longo de três meses não consecutivos.” 

A pescaria coletiva iniciava-se com o primeiro Repiquete no Rio Itanhém no mês de setembro e outubro, mês das águas, e o segundo durante as cheias de dezembro ,natal, e o último no mês de março e abril, nestes meses  era possível pescar peixes das espécies Crumatã, Piau e Piabinha. 

Enquanto no mês de maio se pescava peixes como, Judeu, Mandi, Sabanga pequeno, a quantidade de peixe pescado era tão grande que para conservar para o resto do ano ele era salgado e secado ao sol. O fresco era colocado em palha de bananeira para consumo das primeiras semanas. 

Dos peixes se aproveitava tudo que fosse possível, a ova, chamada de caviar, era salgado ou torrado era guardado na lata, quando precisava alimentar batia no pilão e fazia a moqueca. Procedimento muito parecido ao dado ao peixe Mandi, que era secado nos fornos ou sol, para ser consumido durante a colheita do café misturado com dendê e farinha de mandioca. 

Porém os períodos de grandes cheias não só trazia a alegria do repiquete, também transtornos que abalaram a frágil estrutura local e rural, como ocorreu em 1968, onde um grande volume de água causado por uma tromba d’água causou transtornos e destruições na cidade de Medeiros Neto, povoado e zona rural de Teixeira de Freitas. 

FONTES:

KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005.

SANTOS. Milton . O papel metropolitano da cidade de Salvador. Revista Brasileira dos municípios.Junho/Dezembro – 1956.

Entrevista feita  por Domingos Cajueiro Correa, com Ivanildo Ivo do Nascimento em outubro de 2013.

Entrevista com Valfrido Correa em outubro de 2013.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

Veja também:

 

O rio Itanhém parte 01

 

O rio Itanhém parte 02

O rio Itanhém parte 03

O rio Itanhém parte 04.

O rio Itanhém parte 05

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 03

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 01

Mulheres parteiras parte 02.

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O causo do Tatu papa -defunto.

Os nomes que Teixeira de Freitas já teve

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O comércio de Teixeira de Freitas

História da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas

O causo do Boitatá

O causo do nó da mortalha

Emancipação: História e memória

 

 

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