Exploração Madeireira em Teixeira de Freitas parte 02

Por Daniel Rocha

Entre as décadas de 1960 e 1970, o povoado de Teixeira de Freitas, passou por inúmeras transformações decorrentes em grande parte do processo de exploração da madeira. Novos bairros surgiram, principalmente  em locais onde se estalavam as serrarias, formando grandes aglomerados  sem infraestrutura adequada.

Consequentemente, intensificaram a migração externa e interna, a população das áreas rurais deslocou-se para Teixeira de Freitas, então novo centro regional, seduzidas por promessas de melhores condições de vida.

Mas essas transformações não eram comuns só ao povoado o país vivia neste período uma série de mudanças em consequência do processo de industrialização iniciado na década de 1950 pelo governo de Getúlio Vargas, e intensificadas durante a ditadura Militar , principalmente na região sudeste. As metrópoles sulistas , São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte  foram as mais beneficiadas deste processo.

A grande oferta de empregos nestes estados atraiu milhares de trabalhadores do campo, essa corrente migratória ficou conhecida como o êxodo rural. Diante dessas transformações é interessante observar que entre 1960 e 1970 houve um aumento populacional expressivo no povoado de Teixeira de Freitas.

 O Censo demográfico realizado pela igreja Católica em 1979 evidencia este crescimento, enquanto o de 1969 registrou 4700 habitantes o de 1979, 33.031 habitantes.Diante destes números cabe perguntar : quem são os migrantes que vieram para trabalhar no povoado de Teixeira de Freitas? Quais os motivos que os trouxeram para esta região da Bahia?

Para tentar responder estas perguntas,entrevistei antigos moradores e recorri algumas reportagens publicadas nos principais jornais e revista do país que escreveram sobre a exploração da madeira na região. Como a reportagem , Serrando a Bahia, escrita por Paolo Marconi e publicado na Revista Veja  no ano de 1977.

Segundo o repórter Paolo Marconi, por determinação do governador do estado da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, a exportação da madeira em toras para outros estados foi proibida, em troca da concessão de favores fiscais para instalação de serrarias na região:

“Quando o decreto, tempos depois, foi anulado por inconstitucionalidade, quase 500 serrarias que se implantaram na época passaram a fazer apenas a transformação primária na madeira, com um desperdício de até 40%. Assim, povoados como Itabela, Eunápolis, Teixeira de Freitas e cidades como Itamaraju, beneficiados igualmente pela rodovia litorânea, experimentaram um explosivo crescimento às custas da economia madeireira. A presença da madeira nos costumes da região é de tal forma marcante que são comuns bares, farmácias e outros estabelecimentos com os nomes de Jacarandá e Pau-brasil. Há até mesmo um “Jacarandá Country clube”.

O decreto contribuiu para a industrialização do povoado e atraiu trabalhadores do ramo para Teixeira de Freitas, BA. Marli Gomes afirma que a indústria da madeira mudou as expectativas dos moradores em relação ao povoado a fama e as promessas de empregos seduziu quem buscavam novas oportunidades. Para ela esse foi o motivo que fez a família migrar de Itanhém, BA, para Teixeira de Freitas em 1968. “Estava melhor para emprego”.

Isabel Rodrigues chegou em Teixeira de Freitas ano 1960. Ela e a família vieram de Nanuque MG, o pai era carpinteiro e marceneiro, sem lugar para morar no povoado, tiveram que erguer a casa com madeira extraída da mata próxima ao bairro que o pai escolheu para morar, bairro Buraquinho:

“Como Nanuque estava muito parada meu pai ficou sabendo que aqui estavam desmatando tudo abrindo uma nova cidade.Então  ele veio  depois de dois meses a família. Porém na época não tinha emprego  aí agente foi morar na fazenda Alcobaça  onde ficamos 7 meses, quando voltamos o povoado já estava cheio de serrarias” .

Segundo Isabel Rodrigues, a indústria da madeira gerou empregos, tanto que o primeiro dela foi como ajudante de passadeira no dormitório da empresa Madeireira de ‘Eleosipio Cunha’.  “Passava roupa de mais de 50 homens”.

Recorda ainda que a maior parte dos trabalhadores hospedados no dormitório  eram do estado de Minas Gerais. Apesar desta afirmação sem sombra de dúvida  os capixabas formavam a maioria. Tanto que em três reportagens sobre a exploração da madeira publicada na década de 1970, nos jornais; Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O estado de São Paulo, eles são apontados como os baluartes da exploração na região.

O capixaba da cidade de Iconha, Edésio Bonadiman, que a mais de 30 anos mora em Teixeira de Freitas  conta que o primeiro contato com o povoado e a atividade da madeira foi como caminhoneiro transportando toras para a serrarias do Espírito Santo. Eram tantas viagens que a esposa pediu que abandonasse a atividade  para ter mais tempo com ela. Ele acatou o pedido e mudou para o povoado em 1977  e passou a  exercer outras atividades.

Conta que em 1977 o povoado  não contava com o serviço público de distribuição de  energia elétrica, só um gerador, motor,  fornecia energia para poucas casas comerciais.Também não havia serviço de telefonia, nem se quer um posto telefônico, aqui encontrou outros conterrâneos como Zé Chicom  com quem trabalhou e depois comprou a Serraria Colorado, as margens da BR 101  no Bairro Redenção.

Revela que para tocar a serraria precisou buscar mão de obra especializada para as mais variadas funções  em cidades como Linhares, ES, onde catava os mais experientes.  Como o povoado era ainda pequeno e não havia oferta de residências para aluguel, ele como os outros proprietários construíram nas mediações da serrarias, casas para os migrantes, formando assim uma espécie de vila operária:

“A serraria Vitória tinha em face de umas 100 casas em sua volta, de um lado e de outro. Na serraria Colorado havia 18 casas, todas feitas de macanaíbas. Quando deixei o ramo eu dei tudo para os funcionários.”

As casas ajudavam convencer os trabalhadores indecisos a mudar para Teixeira já que não teriam despesas com o aluguel muitos se animaram com a ideia. As residencias eram feitas com tábuas e cobertas com telhas de eternit. Nessas vilas havia de tudo um pouco, desde escolas e áreas de serviços coletivos.

“A entrada da serraria ficava na frente, do outro lado o escritório entre os dois um corredor que adiante formava uma rua com casas de um lado e de outro, as casas eram construídas com madeiras nobres. Havia também um campo de futebol para o lazer dos funcionários.”

Mudando de pau pra cavaco a maioria dos capixabas, mineiros e baianos de outras regiões, ficaram na cidade  mesmo com o declínio da exploração intensiva, migrando para outros ramos como o comércio que cresceu como principal praça da região.

 É importante dizer que a integração da região a dinâmica econômica do estado  foi favorecida com à abertura da rodovia federal BR 101 no início da década de 1970. Portanto não há como definir o perfil dos migrantes nem afirmar qual de fato foi o motivo da migração, apenas que os fatos  apresentados são relevantes para futuras pesquisas.

No próximo texto, a exploração da madeira trouxe de fato o “desenvolvimento” para o povoado de Teixeira de Freitas? Quem pagou o preço?

Atualizado em 25/12/14

 Fontes consultadas.

Revista Veja. Serrando a Bahia. 1977.  Disponível em:http://veja.abril.com.br/acervodigitalhome.aspx . Acesso em: 06 dezembro de  2013.

01)  CARDOSO DE MELLO, J.M. & NOVAIS, F. Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna.In: SCHWARZ, L.M. (org) História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, vol. 4, capítulo 9.

OOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. São Paulo, Hucitec, 1993.

O texto foi atualizado em 07/09/14

Fonte oral.

Izabel Rodrigues 2012.

Marli Gomes 2009

Edésio Bonadimam  2013.

Colaborou com a pesquisa.

 Domingos Cajueiro Correia.

Veja também:

A exploração da Madeira parte 01

 Comidas típicas em Teixeira de Freitas parte 01.

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