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O causo do vinho em Helvécia

Por Daniel Rocha

Na década de 1940, no distrito de Helvécia, município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, antiga Colônia Leopoldina, estabelecida em 1818 por colonos alemães e suíços, atualmente um remanescente de quilombo, a “Dança da Garrafa de Vinho” era muito popular em festas e salões do lugar.

A brincadeira popular girava em torno de uma garrafa de vinho cheia deixada no meio de qualquer salão de dança do povoado para ser entregue como prêmio ao casal que dançasse a noite toda sem tocar ou derrubar a prenda.

Basicamente foi isso  que aconteceu para infelicidade de uma jovem garota do lugar que sem maldade vinha se envolvendo com um homem comprometido que se passou por solteiro, narra um causo contado por uma moradora da época.

Segundo a narrativa, ao saber do envolvimento do marido com a jovem a esposa traída e os familiares do pula cerca, preocupados com as consequências do envolvimento, batizou uma garrafa de vinho em um Terreiro local e colocaram no centro do baile organizado por eles e endereçado a jovem enganada.

Para esse baile diversas pessoas foram convidadas, dentre estas a inocente garota que chegando ao lugar ficou sozinha sem um par. O conquistador não apareceu, pois sabendo que se tratava de uma festa organizada na casa de um familiar corria o risco de ter o caso exposto.

Durante a festa um cavalheiro habilidoso e mal intencionado convidou a solitária apaixonada para dançar e assim o fez durante a festa. O dançarino com muita destreza dançou do início ao fim sem derrubar a garrafa deixada no centro do salão festivo.

Como manda a brincadeira no final do baile o casal vencedor ganhava a garrafa com vinho para servir ou beber juntos com os amigos, porém orientado o dançarino dispensou sua parte deixando exclusivamente para sua acompanhante de dança.

A garota satisfeita com a prenda convidou alguns amigos e foi para casa beber, sorrir e conversar. Como era por direito tomou uma dose do vinho antes de servir aos outros que aguardavam ansiosamente pela prenda, algo que não aconteceu, pois logo um mal súbito a atacou de forma fulminante.

Diante da situação, os companheiros concluíram que o vinho não havia feito bem a amiga que passou a sentir infinitas dores na cabeça e fungar lagartas pelo nariz. Assustados com tudo que vinha ocorrendo os amigos e familiares a embarcou no primeiro trem da companhia Bahia – Minas, linha férrea que ligava o povoado a cidade fronteiriça mais próxima, a mineira Nanuque.
Na cidade a turma buscou a orientação de uma “Mãe de Santo Mesa Branca” chamada Dona Sofia, que era conhecida por desfazer trabalhos feitos e “coisas mandadas”. A experiente Mãe, orientada pelos seus guias, teve a visão do mal que estava agindo dentro da apaixonada provocando dores e tormentos terríveis.

Com muita fé e trabalho a Mãe de Santo conseguiu livrar do sofrimento e das dores constantes a garota que tinha cometido apenas o pecado de acreditar demais no seu amado. Dona Sofia só não conseguiu acabar com o fungar das lagartas que a atormentou pelo resto da vida.

Fonte:

Maria Ronaldo – Teixeirense  de coração, nascida e criada em Helvécia.

Foto: Estação da estrada de Ferro Bahia -Minas de Helvécia. 1950. https://www.estacoesferroviarias.com.br

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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 causo do Boitatá

 O causo do Tatu papa -defunto.

Praça dos leões: Parte final

Por Daniel Rocha

Segundo Godoaldo Amaral, em conversa informal com Domingos Cajueiro Corrêa, a urbanização da Praça dos Leões, que fica na parte central da cidade, foi realizada na administração do prefeito Gerson de Oliveira Costa, vulgo “Caboclinho”, entre os anos de 1972 e 1982. 

Já para o senhor Almir Santos, morador da cidade desde 1960, a Praça dos Leões foi construída em 1974; feita para recepcionar o governador Antônio Carlos Magalhães que em 1971, havia visitado a capela de São Pedro e prometido voltar novamente.

Na segunda visita do governador em 1974, ele discursou sobre o projetos para a região e aproveitou a oportunidade para prometer “a luz de Paulo Afonso” ,que chegaria a cidade meses depois.

Recorda e conta o senhor Almir Santos que houve até um acidente antes da chegada do governador ao local; pessoas subiram em uma marquise de uma loja próxima para ouvir o discurso e a mesma não suportou o peso e cedeu deixando feridos.

Mas o que simboliza os leões na Praça? O senhor Godoaldo Amaral afirma  que a colocação das estátuas de leões na Praça, foi uma sugestão da administração municipal de Alcobaça. 

Segundo José Sérgio, da fazenda Cascata, em uma conversa informal no mês de Abril de 2014, os Leões não simbolizam nada, são meras figuras decorativas que por obra do acaso se tornaram o cartão postal do povoado.

O senhor Almir Santos também pensa o mesmo em relação às estátuas: “não tem explicação, foi para decorar”.

Com sentido ou não, os Leões de concreto serviram como referência para a população que cravou a alcunha Praça dos Leões ao local inicialmente chamada de Praça Castro Alves.

Mas quem frequentava a praça? Como todas das primeiras décadas, era um ponto de parada para os casais de namorados, sobretudos dos fiéis da igreja São Pedro.

Recorda à senhora Marli Gomes, que na década de 1970, algumas moças solteiras tinham como programa ir à missa, ao cinema e passear na praça dos leões, “Passeio comportados”.

A fala da senhora Marli evidencia como a praça marcou e ainda marca a memória dos moradores desta cidade; para se ter uma ideia, não é difícil encontrar um morador que tenha uma foto tirada lá.

Da mesma forma que os leões, outra coisa encantava os moradores: a fonte no centro da Praça, um encanto para os olhos.

“Era algo que não se via em cidades vizinhas” destaca Marli Gomes. Com saudade recorda que,  na década de 1990, o chafariz ficou abandonado e sujo.

Na reforma da Praça, realizada no ano 2000, feita na administração do prefeito Wagner Mendonça, as esculturas batizadas popularmente foram reformadas e mantidas. No centro da praça, foi colocado um monumento que lembra “A Pedra do Rei,” inspirado no desenho animado o Rei Leão (1994).

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

Conversa Informal com Godoaldo Amaral 2014

Conversa Informal com Almir Santos em 2013.

Conversa Informal com José Sérgio da Fazenda Cascata 2014.

Entrevista com Marli Gomes 2009

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A Praça da Antiga Prefeitura.

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 01

Mulheres parteiras parte 02.

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 03

A exploração da Madeira parte 01

 Comidas típicas em Teixeira de Freitas parte 01.

Memória estudantil : Parte 01

Por Daniel Rocha.

No ano de 2003 o planeta Marte atingiu o ponto mais próximo da terra. No Brasil era grande número de jovens desempregados que aguardavam as melhoras prometidas pelo presidente Lula. Dentre estes Lidiane Anunciação e seus amigos, que cursavam o pré-vestibular ofertado pela secretaria municipal de educação de Teixeira de Freitas.

Na cidade não havia  muitas opções de cursos  técnicos  ou superior. A UNEB – Universidade do Estado da Bahia, foi a única da cidade até o ano 2002, quando foi inaugurada a FACTEF,  hoje Faculdade Pitágoras. Em 2002, a prefeitura municipal no comando do prefeito Wagner Mendonça ofertou a população o cursinho pré-vestibular “Desafio” no prédio da antiga Cesta do povo.No presente  funciona a escola Vila Vargas no local.

Em 2002, a prefeitura municipal no comando do prefeito Wagner Mendonça ofertou a população o cursinho pré-vestibular “Desafio” no prédio da antiga Cesta do povo. No presente  funciona a escola Vila Vargas.

Antes desta iniciativa a universidade Estadual da Bahia, UNEB, foi a única a ofertar um curso pré-vestibular gratuito aberto a comunidade, com o nome  bem apropriado de o Funil. De acordo com  Lidiane Anunciação, estudante do pré-vestibular municipal , tanto ela como os colegas estavam desempregados e pretendiam disputar uma vaga na universidade estadual da Bahia.

 Durante a campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva em 2002,  um estudante discursando ” que tudo era uma questão de oportunidade”, havia tocado forte os corações sonhadores ,recorda Lidiane que junto com os amigos esperava com ansiedade os investimentos prometidos.

Um ano depois foi criado o programa universidade para todos – PROUNI, que possibilitou ela os outros trilhar o caminho desejado. Como é comum na rotina adolescente, havia muitas paixões e namoricos, estes eram embalados pelo som romântico de cantores nacionais como o Leonardo, que naquele ano estava no topo das paradas com a música, Só sei que te amo demais.

O Sucesso tremendo ainda ficou mais afinado com o show do cantor no espaço Suco de Pimenta em 14/06/03, data que recorda graças ao seu diário que registra, “Uma noite fria, sem chuva, eu e meu amor curtimos Leonardo, show muito massa”.

Para ela ir ao curso era algo muito prazeroso, porque lá era possível estudar  e conhecer pessoas divertidas  na sala de aula,  nos intervalos e  nos  grupos de estudo. Também passeava pelo centro da cidade com as colegas na volta para casa ou  “quando não havia aula.”

Para ter assunto a turma ouvia o programa de rádio do Moreau Nunes, que ao seu estilo, entre uma música e outra, divulgava a previsão diária de cada signo. Tinha também o hábito de comprar revistas astrológicas, para se divertir comparando as previsões e os acontecimentos cotidianos. Saudosa com o diário em mãos, retirado do abandono em uma gaveta no quarto, mostra outra interessante anotação:

 “Quando aquela estrela brilhante (Marte) apontou no céu no dia 26 agosto, estava indo para o curso que iniciava às 19h, íamos observando e pensando o quanto iria demorar em contemplar o espetáculo novamente, acho que nunca mais. Por conta disto matamos aula e ficamos no pátio da escola, de lá migramos para a Praça da Bíblia, celebramos com nossas incertezas um fenômeno único que a maioria das pessoas nem deu importância”.

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O futebol em Teixeira de Freitas. Parte 01

Comidas típicas  parte 01.

Futebol em Teixeira de Freitas: Parte 01

Por Daniel Rocha 

A cidade de Teixeira de Freitas nasceu na divisa entre os municípios de Caravelas e Alcobaça,  o sul pertencia ao território Caravelense e o norte ao Alcobacense. Neste povoado dividido os moradores procuravam desfrutar ao máximo o tempo livre  em um dos diversos campos de futebol existentes no povoado. Tal hábito contribuiu para formação de um sentimento de lugar.

Segundo o colaborador Domingos Cajueiro Correia ,com base em informações passadas por Osair Nascimento, na década de 1950 foi formado  a equipe amadora da Prainha, composta por moradores e vizinhos da fazenda Nova América. 

Segundo conta a equipe  atraía a atenção dos moradores com partidas organizadas pelos fazendeiros locais. Ainda de acordo com o ilustre morador, o time  de futebol foi o primeiro do povoado de Teixeira de Freitas. A equipe jogava com diversos outros da região, fato evidenciado nos bilhetes trocados pelos moradores marcando partidas.

 Revela   Domingos Cajueiro que a família conserva um destes bilhetes escrito pelo agricultor “Zequinha do Rancho Queimado”.  No bilhete datado de 1966 , o agricultor solicita o agendamento de um jogo amistoso contra o time amador da Prainha.

 O time tinha  uma torcida organizada pelos moradores locais, boa parte formada por membros da numerosa família Freitas Correia.  A torcida era muito esforçada e sempre dava seu jeitinho para acompanhar o time em excursões a fazendas e povoados vizinhos.  No final dos jogos havia sempre uma grande confraternização, festas movidas a músicas e boa comida típica. Com o crescimento do povoado outras equipes surgiram.

 Na década de  1960 , com a chegada de  migrantes de toda parte da região e dos estados vizinhos para morar no povoado, foi  aberto um campo “com tamanho oficial” na região do trevo, onde hoje funciona o posto Gaivota. Nesta mesma década,1960, surge o time do Nova América  formado por moradores do povoado, das fazendas e bairros próximos, um fato curioso é que o time local usava a camisa do carioca Vasco como referência. 

Como não havia emissoras de rádio  na região a maioria dos moradores sintonizavam apenas as emissoras  do sudeste do país; por isso os times do sul gozavam de grande prestígio e popularidade em toda costa das baleias.

 Ao longo do tempo, o futebol local firmou-se como uma ótima opção de lazer para os moradores do povoado. No início dos anos 1970, o número de campos multiplicou, como não havia um estádio municipal as partidas  eram realizadas em áreas abertas, terrenos baldios e particulares.

No povoado cada lado tinha seus campos de referencia; ao sul da Avenida Marechal Castelo Branco, ficava o da serraria Divilam e o popular campo da escola Manoel Cardoso Neto. Ao norte, o campo do DERBA, o futuro estádio Robertão e o campo do Batalhão. 

O Colunista esportivo Amadeu Ferreira escreveu que o futebol do teixeirense deslanchou em meados dos anos 1970 quando começaram a surgir inúmeras equipes profissionais, financiadas por empresários locais.

Em 1976, as primeiras competições oficiais foram realizadas em três diferentes áreas do povoado: no campo do Batalhão,  do DERBA e da Serraria Divilam, que também dava nome ao time.

De acordo com  Amadeus a localização do campo da Divilam ficava onde hoje atende a construtora Zé Carlos. Marisa Aguiar, moradora do lado norte do povoado, recorda que na adolescência  o campo era um dos pontos de encontro da moçada.

Quase uma obrigação, todo sábado a tarde ir ao local assistir partidas de futebol com as irmãs mais velhas.” Mas iam só para assistir os jogos?  ”Não era apenas para ver os jogos mas também se divertir e conhecer pessoas.”

 Conta que na vizinhança das mediações rolava um churrasquinho com refrigerante e o tradicional namorico no final das partidas: “Uma sensação Indescritível.” Depois da socialização  a comemoração se estendia a alguns bares próximos. No dia seguinte a festa continuava nas residências dos jogadores com muita cerveja e churrasco.

 Outro frequentador de campos de futebol desta década, Valdir Matos, conta que ele preferia frequentar o campo do DERBA, que ficava no lado Alcobacense da cidade; destaca que este sempre foi mais movimentado e divertido  tal como era o do batalhão e do centro Social Urbano. Lembra que era um programa divertido de se fazer com os amigos.

 O campo do DERBA foi fundado por funcionários do dito órgão para o lazer dos trabalhadores nos fins de semana; devido a sua popularidade  se tornou mais tarde o estádio municipal. Como no campo da Divilam o público prestigiava nestes a disputa dos times locais e regionais. Segundo Amadeus Ferreira:

 “O povoado de Teixeira de Freitas tinha como destaque duas equipes, o Brasil, time montado pelo senhor Valdir, proprietário do pioneiro Supermercado Brasil, e a Portuguesa, equipe criada pelo saudoso Deusdete Moreira Alves em 1973, aproximadamente. Brasil e Portuguesa além dos confrontos memoráveis que faziam entre si, também representavam o nosso futebol com a realização de jogos com times da região.”

 Curiosamente, os times de futebol da década de 1970 foram batizados com o nome das empresas que os jogadores trabalhavam, como por exemplo: a Divilam, Esportiva, Bahia Sul, diferente dos primeiros times que se identificavam pelo nome das fazendas onde era formado o clube.

 Julgo que as empresas madeireiras e o comércio fizeram uso dessa paixão para divulgação de suas marcas e ao mesmo tempo  proporcionar o crescimento do esporte que já era uma paixão nacional.

 É digno de nota, os entrevistados afirmam que na década de 1970 o espírito coletivo era maior  e isso facilitava a socialização dos moradores do povoado dividido entre os municípios litorâneos de Caravelas e Alcobaça. 

Diante dos fatos, suponho, que a socialização nestes espaços , juntamente com outros agentes, foram os responsáveis pelo despertar de um sentimento  de pertencimento valioso que contribuiu para o processo de emancipação política do povoado de Teixeira de Freitas. Os campos abertos para prática do futebol  não eram apenas locais de diversão, mais também espaços livres à sociabilidade.

 

Fontes:

AMADEUS.Ferreira.  O futebol de Teixeira de Freitas foi considerado um dos melhores

Benedito Pereira Ralile, Carlos Benedito de Souza, Scheilla Franca de Souza, 2006).

 Entrevista Marisa Aguiar , 2009.

 Conversa informal sobre o assunto com:

Valdir Silva Matos

Domingos Cajueiro Ferreira.

Foto: Time de futebol Teixeirense. Ano Desconhecido. Postada por Carlito Teixeira, dia 21/01/14, no Museu Virtual de Teixeira de Freitas.

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A soma de todas as forças

 Informe Publicitário.

Mas novos tempos chegaram… A prova irrefutável desses novos tempos se revela na trajetória de luta das famílias humildes Assentadas de Reforma Agrária do Projeto 40/45 município de Alcobaça, que hoje se alegra com mais um filho que rompeu as barreiras, superou os limites e conseguiu fazer parte do poder legislativo da principal cidade do extremo Sul da Bahia, Teixeira de Freitas, e recentemente assume a gestão da Secretaria Municipal de Habitação.

O secretario Habitação Ailtom Vieira, agradece profundamente o Prefeito João Bosco e a ilustre companheira Erlita, em nome de todos os nobres vereadores e amigos (a) e colegas agentes comunitários de saúde e de combate a endemias.

A todos os servidores públicos deste município pela confiança e em especial aos companheiros do assentamento no qual sente orgulho de fazer parte e de contribuir para seu desenvolvimento e história.

 

 

O causo do madeireiro capixaba e o agricultor japonês

Por Daniel Rocha

O causo do “capixaba e o agricultor Japonês” foi narrado por um capixaba que morou e trabalhou com a exploração da madeira na cidade de Teixeira de Freitas,BA, durante a década de 1980. Narra como se deu o encontro de dois migrantes que marcou a história da cidade e traz uma reflexão que deve ser feita no presente: existem culpados pela exploração e devastação da mata atlântica que cobria toda região do extremo sul Baiano?

No início da década de 1980 descendentes de japoneses e capixabas residiam em grande quantidade no então povoado de Teixeira de Freitas compondo parte da sua população. Enquanto os japoneses se dedicavam a agricultura boa parte dos capixabas a atividade de exploração das madeiras.

Ambos os migrantes chegaram no povoado na década de 1970 para tentar a vida ou investir na promissora nova fronteira agrícola. Os japoneses investiram na agricultura local apoiados pela poderosa cooperativa paulista Cotia e logo se tornaram influentes na economia da cidade comercializando também equipamentos agrícolas em lojas instaladas. Com o fim da atividade madeireira os capixabas migraram para outros ramos, comércio e indústria, contribuindo para a transformação da economia local.

O causo narrado por um capixaba, José Nossa, que morou na cidade até o ano de dois mil, fala de um curioso bate-papo entre esses dois migrantes e uma reflexão necessária e conta que em um certo dia um capixaba que rodava a região com o caminhão de trabalho parou em uma fazenda de um “japonês” para fazer alguns ajustes no carro danificado. Bem recebido na fazenda e diante de uma paisagem bonita e rica os dois trocaram ideias e lembranças sobre a chegada e permanência na região.

Durante aquele momento único uma observação a respeito da devastação local não agradou muito o madeireiro capixaba. O nissei afirmou com veemência que a culpa pela devastação predatória da floresta não foi dos governantes que autorizou e sim das empresas, serrarias, e dos capixabas que vieram explorar sem restrições a riqueza do extremo sul baiano. Sem alterar o tom de voz o capixaba lhe respondeu de pronto:

– Não senhor a culpa não é do governo baiano nem dos madeireiros capixabas. A culpa é dos japoneses que vendeu a motosserra…. Como o senhor vê se há são vários os culpados nesta história.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Fontes:

Foto: Caminhão transporta madeira no município de Teixeira de Freitas. Ano 1985. Autor :Jeová Franklin de Queiroz, publicada originalmente na revista Teixeira de Freitas, 1985.

Causo Narrado por José Nossa. Julho de 2008.

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O rio Itanhém parte 01

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A exploração da Madeira parte 01

Medicina oficial em Teixeira de Freitas.

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 03

Mulheres parteiras em Teixeira de Freitas parte 01

Comidas típicas em Teixeira de Freitas parte 02

Por Daniel Rocha.  

A culinária teixeirense é diversificada, embora hoje seja mais conhecida principalmente pela mistura da cozinha mineira e capixaba ela tem  origem nos produtos regionais que eram fartamente produzidos ou encontrados na mata atlântica.

Para melhor compreender o período que vamos abordar é importante lembrar que a nova dinâmica social trazida pela devastação da floresta, o processo de urbanização e o incentivo governamental a agroindústria, alterou os hábitos alimentares do povoado de Teixeira de Freitas e  das comunidades  da zona rural.

No início deste ano, 2014, o jornal A tarde editou uma série de artigos sobre a culinária baiana, em um destes  o colunista Edinho Engel afirmou que os três grandes biomas do estado; o atlântico, chapada e a caatinga, dão a cozinha regional baiana uma dinâmica cultural diferenciada em razão da oferta de ingredientes variados.

 

A comida típica baiana como á brasileira é por natureza diversificada pois cada região se serve com o produto que tem por perto e em abundância, assim com a dimensão espacial da Bahia é evidente que há uma variedade infinita de pratos e receitas regionais.

No caso do extremo sul, que foi coberto pela mata atlântica até os anos de 1960 , a oferta de produtos nativo da mata influenciava os hábitos alimentares dos moradores do sertão do Itanhém e cidades litorâneas como Alcobaça, Prado e Caravelas que se serviam dos produtos produzidos e vendidos na cidades por agricultores locais.

 

Nesta perspectiva a quase extinção de animais e ervas e frutos que  eram facilmente encontrados no bioma atlântico é uma das causas pela qual diversos pratos da culinária de raiz, largamente consumido pelos moradores das comunidades rurais na década de 1950 e 1960, deixaram de marcar presença na mesa  dos teixeirenses.Dentre os quais podemos citar a araruta.

 

Em um universo de plantas nativas do bioma atlântico á araruta era a estrela que mais brilhava na mesa dos moradores das antigas comunidades rurais e das cidades das margens do rio Itanhém.

 

A araruta, uma erva cujo a raiz tem a fécula branca alimentícia, era facilmente encontrada na vegetação ou cultivada próxima as casas de pouseiros e principalmente por mulheres gestantes. Um dos pratos feitos com a raiz desta planta é o mingau da araruta, muito utilizada pelas comunidades rurais na alimentação de recém nascidos e crianças maiores.


 De acordo uma busca realizada pelo colaborador Domingos Cajueiro Correia, a raiz da “ araruta” era retirada , lavada ,ralada e deixada de molho em água limpa de um dia para o outro. Desta água era retirada a goma da qual se fazia o mingau, principal fonte de sustento das crianças menores de um ano.

 

Segundo diz Maria José da Silva de 70 anos, também se retirava o polvilho da araruta para fazer biscoitos e bolos. “Era parte da nossa alimentação, nunca faltava, era o que mais tinha na mata…. Não havia a maisena para fazer o mingau das crianças, essa veio depois.”

 

Para o engenheiro agrônomo da EBDA (Empresa baiana de Desenvolvimento Agrícola) , Jorge Silveira, em entrevista ao site do órgão. “A araruta é uma cultura milenar, genuinamente brasileira, que se encontra em vias de extinção.”

 

Apesar de estar ameaçada e ser difícil o acesso, no município ainda e possível encontrar moradores que cultiva o hábito e as receitas como a senhora Raquel Rodrigues, moradora do bairro São José, que ainda prepara biscoitos e o mingau para servir a família.

 

A matéria-prima, raiz da araruta, ela consegue com o filho Ezequiel que cultiva para consumo próprio em um sítio que fica no distrito de Juerana, município de Caravelas. Segundo a nora da senhora Raquel, Rose Neves, no presente  a raiz é pouco conhecida pelos moradores . “uma riqueza desprezada.”

 

Essas, como outras, iguarias mostram que há uma riqueza gastronômica desconhecida pela população teixeirense e da micro região do Extremo Sul da Bahia.

 

Riqueza preservada na lembrança dos moradores antigos que não esquecem as sensações e  sabores que poucos tiveram o prazer de apreciar.Para Henrique Carneiro (2003), autor do livro Comida e Sociedade : uma história da alimentação;

 

“Além da questões políticas ou macroeconômicas, a alimentação revela a estrutura da vida cotidiana, do seu núcleo mais íntimo ao mais compartilhado”.

Assim nossa história está preservada não só na oralidade ou em papéis escritos, mas também nos caderninhos de receitas da vovó.No próximo texto, a variedade de carne de caça. Os alimentos industriais impõe  a praticidade, padrões estéticos e higiênicos.

Fontes:

Jornal Grande Bahia. EBDA busca resgatar cultura da araruta em Cruz das Almas, 2013. Disponível em:     http://www.vidanocampoonline.com/index.php/agricultura-familiar/3328-ebda-busca-resgatar-cultura-da-araruta-em-cruz-das-alma . Acesso em: 21 abr. 2014.

Entrevista com:

Maria José da Silva. Março de 2014.

Domingos Cajueiro Correia. Março de 2014.

Foto: Google imagens.

Texto atualizado em 08/09/14

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Comidas típicas  parte 01.

História de Teixeira de Freitas, comidas típicas de Teixeira de Freitas Ba

Conversê Cine Clube exibe: Eu me lembro

2014, o ano em que estamos, marca 50 anos do golpe que instaurou a ditadura civil-militar no Brasil. O projeto de extensão Conversê Cine Clube da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – campus X com o objetivo de refletir sobre esta temática irá exibir películas nacionais e latino americanas. A primeira delas será o filme “Eu me lembro”. O  filme narra a vida de um jovem desde seu nascimento até à fase adulta, acompanhada em paralelo aos acontecimentos do Brasil nas décadas de 50, 60 e 70. A direção e do baiano  Edgard Navarro.

Dia 31 de março, às 19:30 no auditório da UNEB – campus X.  Após a exibição irá ocorrer uma roda de conversa acerca dos significados da Ditadura para a história do Brasil. Divulgue, participe.

Entrada franca.

Feijoada no Bar da Viúva

Mantido desda década de 1980 pela mesma dona, o bar da Viúva,  apresenta um ambiente simples e aconchegante, com mesa no salão e na calçada , o que traz um ar intimista entre público e a dona. também oferece a boa cachaça da região, a temperada, cerveja geladinha e refrigerantes. O público é composto  moradores do bairro e de outras partes da cidade, que apreciam  um bom boteco.

O tradicional Bar da Viúva estar localizado no bairro Recanto do Lago em Teixeira de Freitas , e a mais de vinte anos serve os tradicionais pratos da Viúva. Dentre os pratos mais apreciados estão o Pescoço de peru ,o Sarapatel e a Feijoada que dizem os moradores ” igual não há”.

Os pratos são especialidades de Jacy Jesus, Baiana de Ibicuí que veio criança para o povoado de Massaranduba, distrito do município de Vereda -BA, e com dezoito anos para morar no bairro Recanto do lago aqui  em Teixeira de Freitas.  Após perder o marido, assumiu o comando do bar que foi batizado pelos moradores de ” Bar da Viúva”.

O bar funciona de terça a sexta das 18h as 21h ,e nos fins de semana das 12h as 21h.  Quem preferir pode comprar e degustar em casa, o bar fica na rua Goiânia 146, no Bairro Recanto do Lago, na segunda  rua atrás da clinica São Lucas.