Todos os posts de Daniel Rocha da Silva

Caravelas e Nova Viçosa 1888: Como foi comemorada a abolição?

Por Daniel Rocha

Em 13 de maio de 1888, diante da resistência escrava e pressão do movimento abolicionista e internacional a princesa Isabel assinou a Lei Áurea (Lei de Ouro) e pôs fim a vários séculos de escravidão no Brasil motivando festas e manifestações pelas ruas de Caravelas e Nova Viçosa.

Em carta enviada e publicada no jornal Diário da Bahia no dia 3 de julho de 1888 os liberais narraram que no dia 13 de maio soube-se em Caravelas que a lei Áurea havia sido sancionada e para “festejar o feliz acontecimento” os liberais fizeram nas primeiras horas do dia seguinte subir ao ar numerosos foguetes.”

Durante a noite saíram acompanhados pela “Filarmônica Democrática” e uma grande multidão de ex-escravos pelas ruas da cidade a comemorar. No dia 19 os libertos mandaram “cantar” duas missas a São Benedito. No evento um grupo ligado aos conservadores provocou os negros libertos e apoiadores gerando agressões. Os conservadores negaram as acusações.

Na colônia Leopoldina, interior de Nova Viçosa e Caravelas, o atuante abolicionista padre Geraldo Sant’Ana, em companhia de Henrique Hertzch, suplente da delegacia local, conclamou os escravos a deixarem o trabalho. Reunidos na fazenda Conquista falou para mais de quinhentos que eles estavam libertos em nome de Jesus Cristo e que o governo não lembrava se deles, pois estavam num local distante.

Diante do anúncio alguns escravos passaram a cobrar mil réis para voltar ao trabalho enquanto outros abandonaram suas atividades passando a vagar pelas estradas insultando os inimigos do padre Geraldo e outros transeuntes contrários.

Em Nova Viçosa (Vila) em comunicação enviada ao chefe de polícia o delegado Ângelo Domingos Monteiro, relatou que padre tornou público a abolição no dia 15 de maio de 1888 causando grande confusão, pois alguns ex- escravos passaram a organizar grandes festas e a dirigir insultos às autoridades escravocratas.

Os ex- escravos que tinham a pessoa do padre como o responsável pela liberdade, tomaram a rua do lugar dando vivas ao religioso, aos republicanos e ao Partido Liberal. No dia 19 de maio reuniram – se na casa de uma prostituta e depois saíram pelas vias cantando, dançando, dando tiros de garruchas e espingardas, armados também de facas e cacetes, até o dia clarear.

No dia 20 repetiu-se a reunião na mesma casa e quando o delegado ordenou que acabasse com a reunião, os ex-escravos, comandados pelo presidente da câmara, reuniram-se novamente e passaram a gritar “… Vá o samba acima, hoje acaba-se com tudo, viva o padre Geraldo, viva os liberais, morram os conservadores, fora.”

Segundo Jaílton Lima Brito na dissertação “Abolição na Bahia – Uma história política – 1870 e 1888,” de onde as informações apresentadas foram extraídas, os enfrentamentos foram provocados político-partidária defendido pelos abolicionistas republicanos que atuaram na região que acabou por envolver os escravos que tomaram partido das ideias Liberais. “Uma atitude incomum entre os ex-escravos que tendiam ao apoio à monarquia”.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Fontes:
BRITO. Jaílton Lima. Abolição na Bahia – Uma história política – 1870 e 1888. UFBA. 1996.

Veja também:

Nos tempos da escravidão I: Um quilombo em Caravelas

Nova Viçosa 1884: A fuga dos escravos

Foto:
Igreja de Santa Efigênia .
Bahia.ws 

1992 no Colégio Ângelo Magalhães

Daniel Rocha*

A ex-estudante do  Colégio Estadual  Ângelo Magalhães Jucélia Jesus dos Santos abriu seu “Caderninho de Mensagens e Lembranças” da sua  época de 1992 revelando detalhes do cotidiano da instituição de ensino fundada em 1983  e extinta em 2010.

Segundo Jucélia, que conclui  o antigo ginásio no colégio, o ano de  1992 foi difícil  para os professores e alunos, pois a escola passava por dificuldades e faltava o básico para a educação dos estudantes.  ” Não havia distribuição de livros, merenda escolar e carteiras para todos”.

Caderninhos de Recordações

Essa triste realidade ficou registrada no Caderninho de Lembranças de 1992 escrito e guardado por ela . Dentre as dedicatórias contidas no caderno chama a atenção a do estudante “Franklin” que segundo a ex- aluna foi uma amizade marcou  sua sétima série.

Segundo conta, no início daquele ano, 1992, ela havia discutido com Franklin em uma disputa por uma das escassas cadeiras na sala de aula. A luta pela tal foi acalorada e causou um efeito ricochete entre eles por isso ficaram sem se falar por alguns meses.

“Havia poucas carteiras para muitos e quando a professora abria o portão todos corriam para dentro da sala para conquistar um lugar para sentar. Seguramos a carteira ao mesmo tempo. Sem acordo a questão foi parar na secretaria”, lembrou.

Contudo o desentendimento não  durou muito e no final  do  ano letivo tornaram se novamente amigos. O momento  ficou eternizado na anotação feita no “caderninho” do dia vinte e seis de novembro de 1992.

“Espero que não fique triste nunca e que lembre sempre de mim. Você é uma das meninas que mais admiro no colégio. O seu jeito de ser mexe com o coração de muita gente. Espero que continue assim, sincera, e que não se esqueça de mim. Não precisa se lembrar de mim basta que não me esqueça jamais. Do seu amigo Franklin”.

Para finalizar este texto, faço uso do parágrafo final do caderninho de Jucélia que escreveu: “Aqui termina as minhas recordações de 1992”. Guardo com muito carinho no fundo do meu Coração. Ass. Jucélia Jesus dos Santos.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Fontes:

Caderninho de recordações 1992.

Conversa informal com Jucélia Jesus dos Santos . 2015

UM DIA EM 2021

Por Erivan Santana

Os estudantes passam em silêncio para a escola, nesta manhã. Com o uso das máscaras, as algazarras e o burburinho diminuíram. O comportamento na escola também mudou, se antes queriam a todo momento sair, agora preferem ficar prestando atenção às aulas e pararam de reclamar, dizendo que a escola “é chata”, e isso ocorreu depois da experiência de estudar pela internet.

 Descobriram que a melhor forma de estudar é na escola, com o convívio com os professores e colegas, o que o sábio Vygotsky já sabia. Mas quem mais celebrou o retorno às aulas, foram os pais e as mães, que não aguentavam mais ouvir falar de “home schooling”.

Bauman sempre alertou sobre a realidade da “modernidade líquida”, mas talvez, não com a precisão que estamos vivenciando.

Já viajei muito de Jeep e de Rural, já vi a TV em preto e branco e que só sintonizava um ou dois canais, o LP e depois o CD, o videocassete, o DVD, a queda do muro de Berlim, as diretas já, a derrota do futebol arte do Brasil para a desacreditada Itália, em 1982, e o vexame em casa para a Alemanha, em 2014, o ataque dos terroristas às torres gêmeas em 2001, a crise econômica de 2008, a partir dos EUA, o advento da internet, o orkut, o facebook, o twitter e o google. O mundo não é pop, é tech.

Os japoneses criaram aparelhos que apitam, quando as pessoas estão muito próximas, e o governo encomendou às operadoras de telefonia, aplicativos que rastreiam os cidadãos, denunciando se ficam na rua até muito tarde, com quem saem e também se há aglomeração de pessoas. Um dos efeitos imediatos do tal aplicativo está sendo o aumento vertiginoso das separações, e as brigas entre os casais.

O fato é que ninguém aguenta mais tantas lives e podcasts, que vieram para ficar. Os cinemas, casas de shows, estádios, bares e restaurantes, voltaram a funcionar, mas o público diminuiu, ainda com receio do covid-19.

O uso das máscaras se tornou obrigatório, de modo que há de todos os tipos e modelos, inventaram até uma que dissimula, sem que se saiba ao certo se a pessoa está rindo ou chorando.

De qualquer forma, o consumo caiu, as viagens diminuíram, o céu está mais azul, e as árvores estão mais verdes. Têm pessoas que se tornaram mais gratas e humildes, mas outras seguem, como se nada tivesse acontecido. É a vida. Abro o livro de Filosofia por acaso, e me deparo com a fotografia da Monalisa sorrindo. Da Vinci sabia das coisas.

ERIVAN SANTANA

Nova Viçosa 1884: A fuga dos escravos e a morte do fazendeiro

Por Daniel Rocha

A abolição da escravatura no Brasil não foi fruto apenas da assinatura da Lei Áurea em 1888, mas também da luta e resistência dos negros escravizados em todo país. Revoltas, atos violentos, rebeliões, fugas e insurgência foram formas mais recorrentes de resistência da população negra.

Elemento dessa forma de resistência podem ser conhecidos através dos registros policiais da época, como por exemplo, do assassinato de José Antônio Venerote “o fazendeiro mais próspero e poderoso da Colônia Leopoldina” ,Helvécia, em uma roça na Fazenda Mutum, interior de Nova Viçosa/Caravelas, ocorrido às margens de uma estrada da propriedade.

De acordo com o trabalho de Tadeu Caires, tudo começa no dia 13 de abril de 1884, antes do início da colheita do café, principal produto de exportação da fazenda Mutum, quando 15 escravos fugiram da propriedade e dias depois, 25 de abril, uma emboscada levou a morte Antônio Venerote.

As suspeitas recaíram sobre os escravos fugitivos e ficaram ainda mais fortes depois do depoimento de seis mulheres escravas que havia fugido com o restante do grupo retornaram a fazenda dois dias depois do crime dizendo que havia separada do conjunto que tomou destino ignorado.

Ouvidas pelo investigador, delegado Euzébio da Mota Veiga, além dos detalhes da fuga disseram que fugiram para não servir mais ao seu senhor, “pois não passariam bem na fazenda” e que o ato de rebeldia tinha como finalidade forçar sua venda para outra fazenda.

A mesma alegação foi usada pelos os escravos fugitivos Anselmo, Leonardo, José, Rodolfo, Cristiano, Valério e Semião,solteiros com idade entre 25 e 46 anos,  que quando capturados, quarenta dias após o crime, negaram qualquer participação no ocorrido reforçando o argumento que fugiam dos maus tratos do senhor.

Diante disso, algumas suspeitas passaram a ser lançadas em relação aos fazendeiros vizinhos desafetos de Venorote. Um depoente ,por exemplo, destacou que durante o enterro do fazendeiro disse ter reparado e ouvido no cemitério uma escrava de nome Thereza falar em voz alta falar as seguintes palavras: “de todos os brancos que aqui estão, a maior parte está gostando da morte do meu senhor”.


Casa de Câmara e Cadeia de Nova Viçosa

Contudo, semanas depois de serem levados para a Casa de Câmara e Cadeia de Nova Viçosa, os escravos confessaram o crime apontando o jovem fazendeiro Francisco Ferreira da Câmara como o Mandante. O fazendeiro rival convenceu o grupo que encontrou em sua propriedade os negros fugindo dos “maus tratos” e tramou o crime para vingar o pai falecido e a irmã insultada por Venerote.

O caso finalmente veio a júri nos dias 10 e 11 de abril de 1886. Assim que foi pronunciado e notificado como réu, Francisco Ferreira da Câmara fugiu. Os escravos acusados foram a júri popular na data marcada. 

Na falta de um advogado os negros tiveram o padre Geraldo Xavier de Sant’Anna como defensor, um abolicionista de grande destaque na região. Julgado seis anos depois do ocorrido Francisco Ferreira da Câmara foi inocentado sob protesto da viúva da vítima. Dessa forma, somente os sete escravos condenados pagaram pelo crime que supostamente cometeram.

Apesar do fim trágico para ambos, escravos e o fazendeiro, é interessante observar que a fuga no momento de maior necessidade, colheita, mostra a percepção dos escravizados sobre a importância de sua força de trabalho para economia e produção. A fuga tornava o uso da força escrava um negócio pouco lucrativo.

Fontes:

SILVA. Tadeu Caires. A rebeldia escrava e a derrocada da escravidão na Colônia Leopoldina (1880-1888).

ALANE. Fraga do Carmo. Colonização e escravidão na Bahia:

A Colônia Leopoldina (1850-1888).

MIKI.Yuko. Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. 

O morador que esteve na festa que terminou com dois feridos em 1967

Por Daniel Rocha*

Tudo começou no salão de uma pensão onde moradores do então povoado de Teixeira de Freitas dançavam em um baile beneficente em prol da construção da igreja “São Pedro” quando um “desconhecido” provocou uma confusão que terminou com dois policiais esfaqueados. 

Quem era o desconhecido? O motivo do desentendimento? Ninguém sabia responder até o antigo morador Jair de Freitas Correia, da dupla “Primo e Sobrinho”, que esteve presente no baile, falar sobre os detalhes que não foram revelados pela notícia publicada no jornal de 1967.

Segundo Jair naquela época o povoado estava tomado por pensões e animado pelos geradores de energia que movimentavam o cinema e os bailes. A festa onde ocorreu a confusão foi organizada em um salão localizado na Praça dos Leões, onde hoje fica uma farmácia. Como foi relatado pelo jornal, o baile tinha como fins arrecadar dinheiro para construção da igreja “São Pedro”, então capela de “São Sebastião.” 

O baile reuniu moças e rapazes e casais do lugar que tinham a intenção de se divertir e namorar “com decência e respeito.” Contudo, a presença de “Sivaldo” um trabalhador do DERBAdepartamento de Infra Estrutura de Transportes da Bahia ,que não seguiu esse roteiro alterou as expectativas e a rotina do baile.

Conforme rememora Jair, alguns desses jovens trabalhadores, oriundos de Salvador, chegaram no povoado em 1964 para trabalhar na estatal baiana e trouxeram hábitos e comportamentos estranhos aos olhos e o modo local, nem todos eram queridos e bem-vindos em todos os espaços. 

“Alguns, não todos, assediavam as mulheres e gostavam de ter fama de pegadores…. Gostavam de dar uma de “macho” e andavam armados provocando brigas por onde passava como se fossem os donos do povoado” destacou Jair. 

Igreja São Pedro

No povoado já existia um certo estresse provocado pela interferência de migrantes em relação ao nome da igreja que passou de “São Sebastião” para “São Pedro.”De acordo com ele o nome foi trocado a pedido dos migrantes entrosados com o padre e envolvidos na campanha para “construção da igreja”.

A “nova igreja” de São Pedro foi inaugurada em 09 de fevereiro de 1969, durante a festa de São Sebastião. A festa popular era tradicional e realizada pelos moradores desde o surgimento do povoado no espaço da praça dos Leões. Sobre isso cita frei Elias que a capela ganhou “democraticamente, mas com alguma pressão do vigário, São Pedro como padroeiro.”

Sobre a alcunha “Arrepiado” contou Jair que o povoado nunca foi chamado pelos moradores por esse apelido: “Na verdade era “Rupiaria” e não tinha nada ver com o jeito de ser dos moradores como costumam contar. “Arrepiado” foi arranjado pelos de fora, como foi também o nome Teixeira de Freitas”.

Conforme lembra, foi nesse contexto de incômodo que a presença indesejável e o mau comportamento do Sivaldo, um capoeira soteropolitano, provocou o dono da pensão que reagiu gerando a confusão que terminou com dois policiais “furados”, Arlindo e José, e o próprio Sivaldo que foi baleado na perna por um disparo do policial. “Foi sangue para tudo que é lado.”

Assim é possível supor que a chegada de grande leva de migrantes ao pequeno povoado e o chamado “desenvolvimento ” nada tinha a ver com a visão de mundo, cotidiano e querer dos moradores motivando assim casos de violência. No presente o crescimento econômico do município que historicamente privilegia alguns e não todos, também pode ser considerado um fator gerador de confrontos. 

Fontes:

Homem quis matar soldados a facadas em Teixeira de Freitas. FN. Fevereiro de 1967.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

Conversa informal com Jair de Freitas Correia em  02 dezembro de 2019.

Foto: Festa de São Sebastião. Ano desconhecido. Fonte: Documentário Histórico da TV Sul Bahia, 1996. Print.

 Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Em 1967 “baile em prol da igreja” terminou com briga e feridos

Por Daniel Rocha*

Na década de 1960, o então povoado denominado oficialmente em 1957 de Teixeira de Freitas (BA) ainda recebia apelidos curiosos como “Arripiado,” assim chamado por haver muita discussão e bate boca no pequeno comércio. “, alcunha segundo alguns moradores relacionado às agressões existente no lugar causado sobretudo por  questões banais.

Segundo noticiou um jornal da época, Folha Nanuque,  no dia 03 fevereiro de 1967, por exemplo, dois soldados do destacamento policial de Caravelas a serviço em Teixeira de Freitas foram esfaqueados por um desconhecido à porta de uma pensão onde se realizava uma festa beneficente em prol da construção da igreja “São Pedro”, então uma simples capela necessitando de reformas urgentes.

O fato foi relatado por uma das vítimas no Hospital Santa Cruz em Nanuque  onde os dois  foram levados depois de feridos já que não existia na época hospital na cidade. Segundo a versão contada por Arlindo dos Santos Souza, tudo começou quando ele e o amigo  foram escolhidos para “implantar a ordem durante uma festa organizada numa pensão”, quando chegou um rapaz que queria entrar sem ingresso e sem licença do organizador.

Advertido por ele de que não podia entrar sem pagar, pois a festa era em benefício da Igreja Católica de Teixeira de Freitas, o rapaz disse que não ia dançar e sim olhar o movimento entrando contra a vontade do dono e prometendo que não ia participar do baile.

Entretanto quando um conjunto de Medeiros Neto começou a tocar o cara foi logo chamando uma dama para dançar. O dono da festa não gostou e pediu para  que  o policial chamasse a atenção do moço que parou a dança e disse que já estava indo embora.

O dono da festa “azouou” e queria dar no sujeito que continuava dançando sem pagar um centavo. Diante da situação Arlindo achou por bem emprestar ao elemento um dinheiro  para que ele pagasse o ingresso. “Achei por bem emprestar o dinheiro do ingresso ao elemento que aceitou e voltou de novo a dançar. Às 02 horas da manhã o cara saía para ir embora e dirigiu certos gracejos ao dono da festa que ficou dançando e lhe deu um empurrão,” narrou Arlindo.

Ainda de acordo com o soldado Arlindo, ele e seu colega José que chegara há pouco para ajudar a policiar a festa intervieram para proteger o rapaz da fúria do dono da pensão. Mas o rapaz terminou foi derrubando o seu colega, furando-o com uma faca que arranjaram e durante a sua tentativa de segurar também foi golpeado e ferido. “Depois de feridos tanto eu como José Geroastro atiramos no desconhecido, mas achamos que não o atingimos e ele conseguiu fugir”. 

Mas qual era o motivo da violência? Quem era o agitador? Qual o contexto?Em que ponto a agressividade do passado se compara à violência do presente? Dirigimos essas perguntas para um antigo morador que estava na festa e testemunhou o ocorrido. Ele revela o nome do “desconhecido” e detalhes que ajudam entender as razões e o contexto da violência na história da cidade de Teixeira de Freitas. (Continua na próxima postagem)

Daniel Rocha da Silva*

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Foto: Capela da praça dos Leões 1968.

O CAUSO DO VINHO EM HELVÉCIA

Na década de 1940, no distrito de Helvécia, município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, antiga Colônia Leopoldina, estabelecida em 1818 por colonos alemães e suíços, atualmente um remanescente de quilombo, a “Dança da Garrafa de Vinho” era muito popular em festas e salões do lugar.

A brincadeira popular girava em torno de uma garrafa de vinho cheia deixada no meio de qualquer salão de dança do povoado para ser entregue como prêmio ao casal que dançasse a noite toda sem tocar ou derrubar a prenda.

Basicamente foi isso  que aconteceu para infelicidade de uma jovem garota do lugar que sem maldade vinha se envolvendo com um homem comprometido que se passou por solteiro, narra um causo contado por uma moradora da época.

Segundo a narrativa, ao saber do envolvimento do marido com a jovem a esposa traída e os familiares do pula cerca, preocupados com as consequências do envolvimento, batizou uma garrafa de vinho em um Terreiro local e colocaram no centro do baile organizado por eles e endereçado a jovem enganada.

Para esse baile diversas pessoas foram convidadas, dentre estas a inocente garota que chegando ao lugar ficou sozinha sem um par. O conquistador não apareceu, pois sabendo que se tratava de uma festa organizada na casa de um familiar corria o risco de ter o caso exposto.

Durante a festa um cavalheiro habilidoso e mal intencionado convidou a solitária apaixonada para dançar e assim o fez durante a festa. O dançarino com muita destreza dançou do início ao fim sem derrubar a garrafa deixada no centro do salão festivo.

Como manda a brincadeira no final do baile o casal vencedor ganhava a garrafa com vinho para servir ou beber juntos com os amigos, porém orientado o dançarino dispensou sua parte deixando exclusivamente para sua acompanhante de dança.

A garota satisfeita com a prenda convidou alguns amigos e foi para casa beber, sorrir e conversar. Como era por direito tomou uma dose do vinho antes de servir aos outros que aguardavam ansiosamente pela prenda, algo que não aconteceu, pois logo um mal súbito a atacou de forma fulminante.

Diante da situação, os companheiros concluíram que o vinho não havia feito bem a amiga que passou a sentir infinitas dores na cabeça e fungar lagartas pelo nariz. Assustados com tudo que vinha ocorrendo os amigos e familiares a embarcou no primeiro trem da companhia Bahia – Minas, linha férrea que ligava o povoado a cidade fronteiriça mais próxima, a mineira Nanuque.
Na cidade a turma buscou a orientação de uma “Mãe de Santo Mesa Branca” chamada Dona Sofia, que era conhecida por desfazer trabalhos feitos e “coisas mandadas”. A experiente Mãe, orientada pelos seus guias, teve a visão do mal que estava agindo dentro da apaixonada provocando dores e tormentos terríveis.

Com muita fé e trabalho a Mãe de Santo conseguiu livrar do sofrimento e das dores constantes a garota que tinha cometido apenas o pecado de acreditar demais no seu amado. Dona Sofia só não conseguiu acabar com o fungar das lagartas que a atormentou pelo resto da vida.

Fonte:

Maria Ronaldo – Teixeirense  de coração, nascida e criada em Helvécia.

Foto: Estação da estrada de Ferro Bahia -Minas de Helvécia. 1950. https://www.estacoesferroviarias.com.br

Daniel Rocha da Silva*

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As faces da cultura popular no extremo sul : Primo e Sobrinho

Em Teixeira de Freitas a dupla de violeiros “Primo e Sobrinho”, formado pelos irmãos Vantuil de Freitas Correia (80 anos) e Jair de Freitas Correia (78 anos) , filhos da fazenda Nova América, uma das comunidades pioneiras da cidade, é um bom exemplo de como a moda de viola é comprometida com as coisas da terra e cultura regional.

A dupla que tem apenas um CD gravado já é bem conhecida graças a presença constante em programas de rádio e festas populares de Teixeira de Freitas, onde através da sua música exalta a paisagem, o sentimento e a cultura popular do extremo sul da Bahia, como é possível notar na letra da música “Cantinho do meu Brasil” que fala da região que Vantuil deixou para trás na década de 1950 quando migrou para o estado de Minas Gerais.
Naquela tempo existia a proposta de fazer de Teixeira uma cidade planejada, o projeto não vigou e o terreno loteado foi transformado no bairro Monte Castelo.

Ainda de acordo com a dupla de violeiros que também canta sobre outras paisagens a valorização da cultura e memória da terra é uma característica da moda de viola que fazem questão de preservar apesar da falta de atenção e incentivo das instituições voltadas para promoção da cultura no estado e na cidade.


Cantinho do meu Brasil: exaltação da  região

Para além disso, sem recursos, a dupla tem um sonho, gravar um novo CD com algumas músicas de um imenso catálogo musical inédito, dentre estas as canções “Mamãe África”, sobre a origem dos pioneiros e a escravidão no extremo sul baiano e a música “Saudades da Bahia”, relativo a bucólica zona rural teixeirense da época do povoado quando a moda de viola era o estilo mais conhecido e tocado por todos da micro – região.

“Sempre e em todos os povoados, como também nas roças, se encontravam pessoas que tocavam vários instrumentos musicais. Violão, pandeiros e acordeão faziam parte da vida do povoado onde sempre existiam vários tocadores destes instrumentos. Assim cada fim de semana havia “um baile nos botecos,” escreveu Padre José Koopmans no livro Além do eucalipto. O papel do extremo sul.

Para o músico Marcos Marcelo, do blogue Teixeira Musical, o trabalho e o sonho dos violeiros teixeirenses evidência como a cultura popular é resistente diante da dificuldade e falta de apoio e financiamento público. “Mais artistas dedicariam a exaltar e divulgar a cultura da terra se houvesse incentivos públicos (federação, estado e municípios) para realização desse tipo de trabalho.”

Daniel Rocha da Silva*

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“Dio, come ti amo!” Por que esse filme fez grande sucesso na cidade?

Por Daniel Rocha*

A década de 1960 ficou marcada dentre outras coisas como a década em que se instalou no então povoado de Teixeira de Freitas a primeira sala de cinema, o Cine Elisabete. Inaugurado em 1964 à sala teve como primeiro fenômeno de público o filme hispano – italiano Dio, come ti amo! (1966) que falou à geração da época.

Segundo o proprietário do Cine Elisabete, o senhor José Militão Guerra (em memoriam), em entrevista cedida em 2009 ao trabalho monográfico: O cinema e o imaginário popular na cidade de Teixeira de Freitas na década de 1960 a 1980, o filme italiano foi o primeiro fenômeno de público da sala que funcionou de 1966 a 1970, ao lado de onde hoje fica a loja de calçados Boroto.

Ainda de acordo com o senhor Militão, naquele tempo que não existia no então povoado energia elétrica, televisão ou emissora de rádio, o cinema foi uma grande novidade que empolgou os moradores da zona rural próxima e a juventude do então povoado, principalmente algumas meninas, que viviam da escola para casa ou de casa para igreja.

Por isso para elas ir o cinema era uma ocasião especial, momento de sair de casa junto aos irmãos mais velhos ou com os rapazes de confiança da família, relatou uma antiga moradora, Marli Gomes, em 2009, queixando se do excesso de vigilância em uma época que aumentava o trânsito na região com início da circulação de ônibus intermunicipais ligando Teixeira a outras cidades próximas e abertura das primeiras escolas.

Março de 1966: anúncio de novas linhas de ônibus .

Contudo, apesar do conservadorismo local vigente, típico do interior, eram os anos de 1960, década que a música italiana e Rita Pavone experimentava grande popularidade e o movimento feminista reivindicava, nos grandes centros, direitos iguais e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões patriarcais, baseados em normas de gênero através do debate público.

É nesse contexto que o filme “Deus como eu te amo!”, que traz uma mulher como protagonista, atraiu grande público para a primeira sala de cinema da cidade transformando-se no filme mais assistido daquela época e de todo o período que o Cine Elisabete esteve em atividade, sempre com relativo sucesso.

No filme, Gigliola Cinquetti é uma jovem e humilde nadadora napolitana que vai concorrer em uma competição na Espanha e acaba se apaixonando pelo noivo de sua melhor amiga. Mas quando eles vêm visitá-la na Itália, ela finge ser rica, com a cumplicidade dos pais para viver o amor impossível e um beijo proibido.

No livro “A história do amor no Brasil”, a historiadora Mary Del Priore observa que nesse período o cinema passou a apresentar cada vez mais personagens livres e desapegados a regras e tradições.  Comportamento que foi sendo aos poucos comunicado pelo cinema incentivando as pessoas a se relacionarem sem sentimento de culpa ou reprovação.

Cena clássica: Beijo proibido

De acordo com o relato de moradores da época a fita atraiu  um público formado, em sua maioria, por adolescentes  que  no final da sessão saíam cantarolando a música tema do filme e provavelmente sonhando com a liberdade  dos personagens e o mesmo protagonismo da mocinha romântica…. Apesar da simplicidade e alguns clichê do enredo.

Fonte:

ROCHA.Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed – São Paulo: Contexto, 2006.

Foto: Avenida Marechal Castelo Branco, Centro, Teixeira de Freitas – BA. Ano desconhecido. Ponto de embarque de ônibus próximo o antigo Cinema.

Daniel Rocha da Silva*

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VIDAS NEGRAS IMPORTAM

Por Erivan Santana*

Os historiadores costumam dizer que o tempo dá voltas, e a História, enquanto ciência humana e social, move-se entre o passado e o presente, com consequências para o futuro. Pois é exatamente isso o que está acontecendo no momento, particularmente nos EUA e também na Europa. 

Sendo um dos berços dos movimentos de contracultura dos anos 60, grande parte da sociedade americana se insurge contra o preconceito racial e a violência policial, revivendo todo o clima, o cenário dos movimentos sessentistas, já citados. É importante lembrar que estes movimentos nos EUA, dialogavam à época com o famoso Maio de 68, na França, mais precisamente em Paris. Não por acaso, a França, assim como outros países europeus, se insurgiram contra tais injustiças, cujo exemplo mais recente foi o assassinato de George Floyd.

Entretanto, aqui no Brasil, fez-se um silêncio incômodo, no triste episódio que vitimou João Pedro, e mais recentemente, Miguel. Parece que a sociedade brasileira se acostumou com as perdas humanas, num claro exemplo do que nos diz Hannah Arendt em “a banalidade do mal”.

Georg Simmel, importante sociólogo alemão, também nos fala sobre este fenômeno, que para ele, ocorre quando determinadas sociedades se acostumam com a intensidade de notícias e deslocamentos próprios da globalização, gerando um mecanismo de “autodefesa”, em que o indivíduo passa a se proteger, sem se preocupar com o próximo.

No caso dos EUA e da Europa, é preciso compreender que estas sociedades hoje, são muito plurais, tanto do ponto de vista étnico, como cultural. A globalização oportunizou não somente a comunicação intensa entre os povos, mas também a sua fácil locomoção, e cidades como Nova York, Paris e Londres, provavelmente sejam claros exemplos desta pluralidade em escala global. Visto por este ângulo, passamos a compreender melhor porque estes movimentos acontecem com tanta intensidade nestes países, refletindo os seus anseios por igualdade e justiça social.

Neste contexto, as ciências humanas vêm ganhando cada vez mais importância e influência nos currículos escolares, em que a História, a Filosofia e a Sociologia são chamadas a explicar um mundo cada vez mais dinâmico e em construção, numa perspectiva humana, crítica e cidadã, tendo a liberdade de imprensa um papel também imprescindível neste processo, principalmente se for livre, ética e independente, levando-se em consideração, a influência e a força da comunicação nos dias atuais, onde ela se faz por múltiplas plataformas, e quando se diz “o mundo está na palma da sua mão”, é literalmente, uma realidade. Que todas essas tecnologias possam estar a serviço da ética, da justiça social e das vidas humanas, é o que desejamos.

*ERIVAN SANTANA. Crônica originalmente publicada no jornal A Tarde, Salvador, 10/06/2020.

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